quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Acampado

A casa que eu escondo é um nó na madeira, um muro imenso
Um quintal de escombros antigos, perversos, um oceano que aparta
Eu não sou o menino na nau que embarca, ou a mãe que acena. Sou a carta
Que num dia querido aporta em anúncio de morte em alto-mar

O quarto que eu tranco encardido é o dia que eu vi o espelho
É onde encarcero a imagem mordida que o engano tritura
Os olhos vazados, instintos morcegos, meu peito enterrado na sala escura
Não sei se sou eu quem enxerga meu eco, ou é ele quem vê

As ruas que eu piso derretem na sua ampulheta em areia
São pobres relatos do tempo que atrasa, da dor que empurra
Eu finco um desmaio fugindo da seca na sua garganta, do vau das suas asas

Estéril definho, matando com afinco o que o intento semeia
A terra nas unhas, na cova meu corpo emprestado sussurra
E mesmo distante e até morto e enterrado, se eu sonho estar longe estou perto de casa



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