sábado, 4 de abril de 2015

Alabastro

A mãe de toda a sombra é o pavor
Espesso e indigesto de saber-se
Avesso como o primo de um incesto
Culpado irmão exato de um confesso

A esponja que me chupa liquefeito
Sedento e mareado no convés
Da esquife em que navegam os meus pés
Tortura, em sua espícula, o meu peito

O alabastro que eu decorara
No mesmo instante havia entornado
Na sua boca o rastro que eu deixei para trás

Na corredeira que meu pranto cala
O amor cantado, verdadeiro e errado

Se entrega às pedras que o horizonte faz 

Um comentário:

  1. João, seus poemas sempre me deixam boquiaberta. Fica tão claro que você tem um manejo das palavras próprio dos grandes poetas, além-mar do sentimentalismo tacanho que paira sob o suposto conceito de poesia. A ideia de um bom escritor não é um juízo pessoal, mas da linguagem que se mantenha eficiente e potente. A percepção rítmica nesse poema é de uma maestria tão perfeita e perspicaz que chega a me arrebatar para fora do texto. A literatura é o sistema nervoso de uma nação, se entra em declínio, atrofia. Acho que a idiossincrasia do poeta reside na enumeração abstrata dos textos que fundam uma língua. Não creio que tenha sido proposital, mas consigo ler tantos nomes em cada verso, Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto... Sem julgamentos e comparações teórico-literárias, eles estão vivos aí e gritam! Porém, seu poema é inteiro e não em partes, o universal só se faz pelo particular e você atinge esse efeito, é belíssimo. Não pare, nunca. Eu acredito com todo meu coração e toda a minha licença de estudante de letras que você é um grande artista, João Lucas.

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