sábado, 28 de dezembro de 2013

Camera Picta

Neste quarto, pintaram dois amigos na parede
Para me fazerem companhia
E vazaram o teto, de tinta azul, para me fazer ver o céu sempre assim,
Céu de verão,
Sem o calor do sol a me importunar.
Espremeram aqui e ali algumas nuvens, e me esboçaram anjos,
Que posso ver à distância sem a certeza de existirem.
Sua luz é opaca e distante, e não consigo dizer se estão neste mundo ou em outros
E se esses borrões com asas que vejo são só memória de tempo passado.
Se esses anjos desfaleceram enquanto evanesciam, rodopiando,
Vindo buscar-me por este teto, e tirar-me pela janela.
Sim, também me desenharam uma janela, e através dela senhores e senhoras
Num bonito jardim a me cumprimentar
Este é o meu afresco favorito!
Nos seus trajes diversos, muitos me olham sorridentes
Outros apenas estão parados em suas tarefas cotidianas,
Uma enfermeira alimenta um velhinho todas as horas de todos os dias,
Um jardineiro poda a cerca-viva, e o senhor, em pessoa, está sorridente a abanar suas mãos
Como em um instantâneo muito vivo.
Se fecho os olhos e os abro novamente, o trompe d’oeil é tão bem executado que quase me convenço que se moveram lentamente
A colher da enfermeira está mais próxima à boca do idoso,
A tesoura do jardineiro fechou-se um pouco mais,
A mão do senhor caminhou para a direita.
Sobre a lareira pedi que não concluíssem a ceia familiar.
Está só a sinopia,  um rubro esboço da cena
Estão todos sentados a minha espera, em volta da imensa mesa
E um banquete se espraia na tábua de madeira.
Tive medo de que se concluíssem o afresco eu talvez um dia me juntasse aos meus primos e irmãos dentro da parede.
Assim, em um desenho simples, a cena contrasta com a minha muito real janela, e o meu muito real contato com o céu

Eu gosto. É como ter um quadro na parede de casa.

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