sábado, 28 de dezembro de 2013

Camera Picta

Neste quarto, pintaram dois amigos na parede
Para me fazerem companhia
E vazaram o teto, de tinta azul, para me fazer ver o céu sempre assim,
Céu de verão,
Sem o calor do sol a me importunar.
Espremeram aqui e ali algumas nuvens, e me esboçaram anjos,
Que posso ver à distância sem a certeza de existirem.
Sua luz é opaca e distante, e não consigo dizer se estão neste mundo ou em outros
E se esses borrões com asas que vejo são só memória de tempo passado.
Se esses anjos desfaleceram enquanto evanesciam, rodopiando,
Vindo buscar-me por este teto, e tirar-me pela janela.
Sim, também me desenharam uma janela, e através dela senhores e senhoras
Num bonito jardim a me cumprimentar
Este é o meu afresco favorito!
Nos seus trajes diversos, muitos me olham sorridentes
Outros apenas estão parados em suas tarefas cotidianas,
Uma enfermeira alimenta um velhinho todas as horas de todos os dias,
Um jardineiro poda a cerca-viva, e o senhor, em pessoa, está sorridente a abanar suas mãos
Como em um instantâneo muito vivo.
Se fecho os olhos e os abro novamente, o trompe d’oeil é tão bem executado que quase me convenço que se moveram lentamente
A colher da enfermeira está mais próxima à boca do idoso,
A tesoura do jardineiro fechou-se um pouco mais,
A mão do senhor caminhou para a direita.
Sobre a lareira pedi que não concluíssem a ceia familiar.
Está só a sinopia,  um rubro esboço da cena
Estão todos sentados a minha espera, em volta da imensa mesa
E um banquete se espraia na tábua de madeira.
Tive medo de que se concluíssem o afresco eu talvez um dia me juntasse aos meus primos e irmãos dentro da parede.
Assim, em um desenho simples, a cena contrasta com a minha muito real janela, e o meu muito real contato com o céu

Eu gosto. É como ter um quadro na parede de casa.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Vuelo de Brujas

         Versão preliminar 
___________________
     À noite, sentara em roda com os outros, em um campo aberto, entorno de um ungulado em agonia. A senhora à sua direita estendera uma criança ao centro do círculo, como no Aquelarre, de Goya, enquanto os outros uivavam uma melodia tão próxima da natureza, que mal se distinguia entre o farfalhar das árvores, o coachar dos sapos e os latidos esporádicos de um ou outro cachorros abandonados que apareciam para cumprimentar o sabbat.
                Algum frio e alguma bruma se espalhavam, enquanto a fogueira era acesa, pedaços de lenha se amontoando em edifícios de muito baixa estatura. Uma das moças mais velhas terminava de cerzir um pano vermelho-sangue com agulha de croché, no qual envolveria aquela criança adormecida em quietude, e depois a repousaria contra o peito, nu. Algumas vozes se destacavam, um pouco mais altas.
Rira, conversara enquanto macerava algo com um pilão, em um recipiente fundo, tudo isso antes do fogo queimar o ar e a temperatura tornar-se agradável o suficiente para que os corpos, despidos, pudessem erguer-se e andar livremente pela área imediatamente em volta da fogueira. Depois beijou um homem de maxilar protuberante, agarrou-se aos seus ombros e puxou-o para o chão, por cima de si. A grama úmida massageando-lhe as costas.
Pronto, sentiu a pele de outra mulher tocar-lhe os seios. Mais uma caíra ao seu lado, coberta por dois braços masculinos. Afagou os cabelos de sua vizinha de sexo, enquanto o homem forçava seu corpo contra o chão. O campo tornou-se a ópera de grunhidos. Sons de prazer que se articulavam ressoando, cruzando aquela luz embaçada e seca, e morrendo antes de chegar a qualquer outro ouvido humano. O espetáculo hedônico era apenas deles.

Chegava a seu apartamento com a culpa cristã de costume. A chave penetrando a fechadura, o corredor vazio. Encontrou um bilhete passado por baixo da porta. Eu te amo. Sentou-se no sofá de couro apagado e pensou em dormir. Mantinha seu silêncio aterrador e sua impassibilidade aflitiva, de modo que a qualquer observador seria impossível compreender de que era feito aquele rosto. De que sentimento?
Olhou novamente o bilhete. Eu te amo. Deixou-o amassado sobre o sofá e foi ao banho. A água escorrendo morna, limpando seu corpo do festival de carne. As costas arranhadas como se lanhadas pelo chicote rijo e entorpecido do festim. Aquela corrente gerava dor, seguramente. No entanto, essa dor não era traduzida em expressão. Inexoravelmente impassível. Olhos vazios.
Enxugou o corpo com cuidado, viu-se no espelho por minutos, não em uma divagação estética. Procurava encontrar-se ali, naquele pedaço de vidro e prata. Talvez sua impassibiliade impressionasse até a si mesma. Largou-se nua sobre a cama. Livre. Livre. Libertara-se recentemente dos grilhões que a haviam limitado por toda a vida.  De certa forma, assassinara os pais. De certa forma, fora obrigada a matar toda força que a confrangia e a amassava contra uma parede sem vida.
O parenticídio gerava pouco remorso. Não era literal. Eles ainda estavam lá e estariam lá por muito tempo. Superficialmente, fora uma decisão fácil do tipo das que se toma sem nada a perder. Não havia internalizado o dano permanente, ou as deficiências que legara aos outros. Mas não era egoísta. Só impassível. E fria, talvez.
A pele estava sensível onde o fogo crepitara perto. Prendeu o lençol entre as pernas para proteger-se da brisa calma que entrava pela janela entreaberta. Um gato subiu na cama sem fazer barulho e deitou-se ao seu lado. Miau. Ela afagou seu queixo com lentidão e por muito tempo, até que adormecesse ali. O gato continuou encarando a sombra de um homem que estava parado no batente da porta. Já se acostumara a ele.
O breu quase-humano observou-a por muito tempo, quem sabe uma hora. Submersa no mundo aquoso dos sonhos, permanecia. Seu corpo, movendo-se a cada porção de minutos, perdia-se entre o realismo cru porém casto da Femme Nue Endormie de Courbet, e o sono sexual da Schlummernde Frau, de Johann Reiter. Ambas as pinturas naquela mesma carne, a evidência cabal da sua complexidade, sua abrangência ilimitada.

No transe do sono, revisitava aquele campo, via-se deitada no chão, anônima na exposição de membros e torsos. Caminhava para longe da fogueira, seguindo uma vontade interior de tomar o norte como rumo. Andava com cuidado para não tropeçar nas pedras. Na escuridão, guiava-se pelo som de água correndo à sua frente, as mãos tateando o vazio. Foi de encontro às árvores e pôs-se a atravessá-las, rumando para dentro da floresta, sentindo o cheiro da terra fértil e umedecida. Chegou à beira de um lago.
Há cem metros, as quatro bruxas de Dürer conversavam mudas. Suas bundas nuas, suas coxas fortes em repouso, mas discerníveis à distância. Silentes, discutiam o rumo dos homens. Ensaiou aproximar-se, mas foi detida por um toque conhecido. Seu braço foi agarrado e ardeu. Virou-se para encontrá-lo. Seu rosto tão próximo do seu que não conseguia respirar sem sentir o pavor em seu hálito. Eu te amo.
O que faz aqui? Então é disso que você vive agora? O que faz aqui? Ela repetiu. Os olhos dele, marejados, piscavam repetidos. Ela, impassível. E ele sabia que sua mistura de raiva e frustração ou não era detectada, ou era ignorada. Eles sabem que sua fé é pura conveniência? Do que importa (?), O que está fazendo aqui? Vim buscar você.
Puxou-a de volta para o bosque de onde ela viera. Ela gritava, mas ninguém parecia ouvir. Quero que tire isso de mim! Ele falou. Cada lágrima que rolava aumentava seu ódio. E ela esbravejava, tentando desvencilhar-se daquelas mãos. Seu pulso ardia. Em dado ponto do bosque, ele tomou um rumo diferente, descendo uma rampa de terra. Agora, ela percebia que estava descalça. Alguns espinhos entravam em seus pés, e doía. Empurrou-a para dentro de uma gruta que surgira do nada. Os outros estavam lá.
Todo o tipo de horrores. Duas crianças estavam sendo mortas a facadas. Seu sangue escorrendo para dentro de um balde velho e sujo. Alguns homens desformes se masturbavam ao som dos gritos. Uma fumaça preta saía de um prato avizinhado de crânios ali esquecidos há muito tempo. Mas ninguém os parecia ver. Apenas um senhor ao fundo, perto de uma fogueira que intoxicava toda a caverna, os olhos vazados, a pele pressionando as costelas, projetadas para fora, parecia ser capaz de farejá-lo. Sua tristeza e seu ser não-fantástico. Era a cozinha dos bruxos.
Você vai tirar isso de mim! Você me fez sentir isso, eu estou morrendo enquanto você se acomoda no seu ventre de frieza. Você se basta, mas eu não me basto! Eu não sou o suficiente para mim! Eu preciso que você tenha um pouco de compaixão e tire isso de mim, se não é mais capaz de me amar. O choro interrompia seu discurso vez ou outra. Soava meloso, mas era verdadeiro.
Isso não existe. Foi a única resposta dela. O velho de bom faro se aproximava deles, cambaleando pela parede de pedra da gruta. Ela preparou-se para correr e puxá-lo para longe, para salvar sua vida, mas a caverna começou a se desfazer, feito tinta escorrendo em uma tela. Abriu os olhos vendo o teto do quarto, puxou ar para dentro dos pulmões, mas suas narinas vedaram. Tentou abrir a boca, mas o ar não veio novamente. Repetidamente tentou gritar.
Paralisada, viu sobre si o pequeno demônio de que tantos falam. Um longo e fino dedo cobrindo sua boca, como a fazê-la silenciar. Ele estava ali, de cócoras sobre seu abdome, sorrindo encantado pelo seu feito. Tocou seu colo com uma mão queimando feito brasa. E aproximou-se do seu rosto com o ar soturno de conquista do incubo de Fuseli.

Sem ar ou qualquer capacidade de reação, ela deixou-se morrer por aqueles longos segundos. Só mais um pouco. Enquanto esquecia do bilhete amassado sobre o sofá da sala.  

sábado, 26 de outubro de 2013

Alegoria

Eu vejo uma planície imensa,
Mas não a escuto: estou em um envelope de silêncio; mudo.
a areia roçando no vento até onde enxergo
e nenhum rosto amigo

o chão é só terra socada, nada é vivo
meu caminho dói, os pés espalmando secos no chão
um cheiro de restos vem de algum lugar. Eu tomo o rumo de
um dos horizontes que avisto e toco a andar;
nunca chegando

De vez em quando corro, erguendo a poeira por trás das canelas
Canso; apóio nos joelhos e choro
Na saída, cada lágrima dói feito um caco de vidro
Em uma pontada fria, um rasgo quase físico.
Sei que berro, mas não ouço minha voz. A lágrima seca tão logo toca o chão – ou antes.

Avisto uma casa; estás sentada na cadeira de madeira, vestes branco.
Aproximo-me, incrédulo; observas algo além do meu corpo – não me vês.
Chamo teu nome, não me ouves – nem eu me ouço; cerzes um colete
mas sei que não estás naquelas linhas, teu rosto é absorto. No que pensas?

Toco tua pele, e sinto-te fresca, macia. Sorris, então, e a lágrima agora é tua. Tua vez  de
Encontrar na amargura a escapatória única do que vives. Compartilho tua dor, mas somes.
Verifico em volta, mas perdeu-te no imenso das coisas.

Sigo andando, meio à tua procura, meio à minha
Meu estômago se comprime na dor da tua ausência – física, cáustica
Cambaleio na aridez daquele canto esquecido da minha mente.  Na busca incessante
não sei do que.
Caio de joelhos na terra, esquírolas de barro ferem minha perna. Sou só sangue e pranto;
Como se um trem atravessasse meu peito, o coração desmancha, um surto agudo, um ataque fulminante
A respiração está para parar; o ar que tomo mal sustenta o soluçar constante e a impressão do vidro, olhos abaixo.
Reapareces, um sorriso piedoso. Tocas minha face com a mão em forma de colher e sinto-me em um berço
Dizes que me ama, que nosso abrigo me aguarda, quente, seguro, logo ali;
Que nos poderemos embalar em alguma dança em que nos caibam as diferenças físicas
Que eu sou teu, que me queres por perto.
Basta que eu levante.
Mas eu não posso levantar. Estarei para sempre preso à terra seca
A apontar o caminho aos bem-aventurados que não caiam de joelho.
Ranges os dentes; me ordenas que levante. Lacrimejas teu amor sobre nossos braços
Mas eu não posso levantar! Uma após a outra, as tentativas se frustram
Não consigo levantar! Imagino que me darás as costas
Mas aninha-te contra meu peito, chorosa. Pedes baixinho que me levante.
Umedeces minha camisa, cerra as mãos em meu braço

‘levante’. Tudo que eu desejo é levantar. 
Mas toda essa planície é minha falha.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A face que oculto

A face que oculto é triste
À sombra do feio, esconde-se,
Por trás do olhar submerge,
Como em um mar noturno

A face que oculto odeia
O som que te envolve,  o dia
Que esquenta teu corpo, a vida
Que tens e não me pertence

Na mão que sempre me estendes,
Tua boca, que me devora
É o abismo que a mim se edita

Na treva que tu me prendes,
Enquanto meu corpo chora,

A face que oculto grita

Maldormida

Ladeira acima, o passo é mais difícil
O rosto é mais cansado, e todo o desespero impera
Ladeira acima, o oásis nos espera, não sei se atrasado
Ou muito em tempo

Contra o espelho, teus músculos exaustos,
A alma que exauri, e de que me alimento,
Te miras no futuro, eu miro a dor no vento
Que arraste em seu leito

Em coma, meu corpo é estéril,
E toda a minha poesia, aprisionada no silêncio
Do qual ninguém partilha, é muda

Meu canto é reconquista,  é feito içar bandeira
No cume em que já estive – e perdi;
Meu grito é pavor e sangue

Eu nunca estive preso e nunca estive livre
Meu choro é sozinho. A noite é o lembrete da promessa que quebrei
A escrita é a memória do dom que se perdeu
Em algum lugar entre a dor de uma faca
E a nossa imagem unida.

Hoje eu vejo que não posso.
Por mais que eu deseje, não posso.
Por mais que eu te ame, não posso.
Não posso. Não posso.
Não posso.
Não serei mais que não poder.


Não sem a tua salvação. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O que não consigo

Por que os olhos, se só vejo rastros?
Todo o caminho que já foi cursado,
Todo destino antes alcançado,
hoje se esconde nesse escuro vasto

De onde vejo, só encontro restos,
cada pedaço nosso, esquecido,
cada instante roto, fraturado 
por esse engano, pelo nosso incesto

No labirinto só, em que me escondo,
cada parede encerra nova fuga,
e quanto mais escapo, mais me prendo

Eu quero ser segredo, mas te conto,
Eu tento ser surpresa, mas não presto
Eu quero ser teu homem, mas me rendo
  

domingo, 13 de outubro de 2013

Dentro do breu

Eu faço do escuro minha casa, não tão confortável,
e muito mais sozinha;
e muito mais sombria.
Eu faço da noite minha cela. E nesse silêncio - engodo de paz -
minha penitência é ouvir minha voz e meus pensamentos;
na prisão do breu, sou algoz e encarcerado.
E desempenho, disciplinado, todos os papéis.
Com todo o afinco, me firo calado - não me permito um grito!
Não sabe o que é a insônia sem seu colo para inundar
dessas lágrimas sólidas;
A noite é meu crônico túmulo; diário e inexorável
e a dor só se dissipa à alvorada.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Vulto

Pensei ter te visto
Cruzando a janela, por trás da parede de vidro
teus olhos pacíficos em cima de mim
E eu, passivo em ser velado. Puxando a coberta por sobre o pescoço
Como simulando teus braços
E dormi embalado na tua imagem, que fiz;
Pensei ter te visto no sonho, de novo,
Tua calma apertando de leve meus ombros,
O meu travesseiro, a maçã do teu rosto;
Teus músculos tensos colados em mim;
Um hálito quente e doce e cedo
Minha vista derrete e embaça de culpa
Como se a muralha de gotas me aprisionasse longe de ti;
Ainda te sinto, a mão que me toca,
A mão que me guia; a mão que hesita;
És toda a coragem que eu sei que me falta
És toda a certeza que eu sempre esperei
E nunca veio
És toda a beleza, o oposto do olvido
E como te veem. Não veem a mim.

Pensei ter te visto, enquanto agonizava,
Eu cá nesse leito, em que nunca ressurjo,
Cadê tua piedade? Teu rasto de Deus
Teu resto de humano.
Cadê meus amigos? Por que não vieram?
Trouxeste contigo este agouro, este frio
E sobre teu colo este aufúgio, este abrigo.
Que queres de mim, escondido na sombra?
Que queres da sombra, oculto de mim?
Pensei ter te visto, embalando as cortinas
E o quanto eu tive de medo e ciúme!

Hoje sei, era o vento. Não vens me buscar;
Pensei ter te visto, mas tu não existes
Não há quem suporte meu choro ou descaso;
Não há quem entenda um longo penar;
Como são felizes na tua ausência?
Tu nunca vieste, amanhã não vens
Hoje eu durmo mais vazio e mais sozinho

 E sob meus braços não dorme ninguém.

domingo, 3 de março de 2013

Coordenadas no Espaço


O corpo nas minhas mãos estende um arco
No plano do lençol, a tua origem,
Tua sombra se projeta sobre a minha
 Forjando em simetria nossa epítome

Perscruto as tuas costas, como um barco
Descreve em trajetória um anabranche,
Primeiro divergindo em tua espinha,
E enfim te navegando, solitário

Te estudo com a firmeza de um geômetra
E o mais que me abandono à deriva,
O mais que enxergo rio e céu bonitos

Tem calma com esse mar, eu digo às velas,
que as almas, duas retas paralelas,
persistem e se encontram no infinito