sábado, 28 de julho de 2012

Com que olhos


Entre as minhas caras, teu retrato,
entre meus braços, teu casaco
e o passado a me esperar.
Vou me embrenhar entre teus passos,
preencher todos espaços
te roubar, e te roubar
dessas memórias, de um pedaço
de romance interminado
de um autor que já morreu.

Olha, que o final é um atalho,
e a verdade é uma mortalha
que ainda teima em se prender
a esses fragmentos de passado
que perfuram os sapatos
e se fazem carregar.
Se eu vou, segues comigo, pés sangrando,
tuas palavras açoitando o caminho interminável
e o meu ganido autocomiserado se completa com teu eco
carregado pelo ar

Longe, o que tu gritas é um mistério,
como é um mistério o que ainda posso ver.

Longe, sons de fruição e riso, amores que nunca partiram,
sempre chegaram, som de dor e recompensa, e de música no peito;
Perto, amores dormem e diminuem,
como rios que confluem,
nesse pântano em que deito.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

II


 A velha se despe sem sequer indício de pudor, de costas para mim. O espelho reflete seus seios pingentes, sua carne de velha. Ela observa o próprio corpo, impassível, e eu lacrimejaria. Levanto e toco seu ombro direito, mas ela mal me sente sob a pele transtornada. Suspiro de uma impaciência chorosa, ela retribui em um lapso de autocomiseração, mas depois volta a seu transe, a barriga perdendo por sobre a calcinha. Toda a carne não era suficiente para sufocar sob a superfície a dor da senilidade. A mácula entranhada parecia descolar de seu espírito e alcançar o mundo exterior pelas ranhuras na pele quase morta. Compadecido, eu a deixo no quarto e desço as escadas, pausadamente. Tenho vergonha do próprio eco dos meus passos. E tenho medo de que alguém os ouça.
Sobre a mesa da sala, compras em um saco de papel. Uma maçã rolou solenemente para o chão, o som abafado pelo tapete antigo, comprado em uma viagem. Não eram felizes, os dois. Nem mais infelizes que o resto do mundo. Houve sorrisos, e abraços; e houve amantes e despedidas. Cortaram o país de carro, uma vez, e atravessaram a serra sob tempestade, os barrancos atraindo o automóvel como um ímã; a luta contra a direção, aquela célula de sobrevivência abrigando os dois, mantendo-os lado a lado. Amor se faz, ela disse uma vez, como um prédio. Com engenharia e vergalhões, retrucou. Houve amor, então, também. Houve amor, pois assim se fizeram: fundidos como prata e vidro; contínuos e indiscerníveis. Apesar do tempo.
A maçã no chão transpirava vermelho; um vermelho hoje pouco visto. Abaixei e a apanhei na mão, meus dedos circundando sua casca perfeita: tênue e macia. Sufoquei com o olor terreno que exalava, e, novamente, lacrimejaria. Ouvi a velha começar a descer, passo a passo, as escadas; os anéis roçando no corrimão um som lúgubre, anunciando a jornada com requintes de crueldade. Deixei a maçã no chão, calmamente, e sentei no sofá, delicado. A velha sussurrou algo que não entendi e avistou a maçã no chão. Curvou-se com extrema dificuldade e apanhou a fruta. Fiz menção de levantar, mas ela lidou bem com o desafio. Levantou calma e levou a maçã para a cozinha. Antes de sair, ouvi a corrente de água tocando a maçã, na pia da cozinha, e as mãos de velha afagando aquela pele vermelha.
Na birosca do gordo, há meia dúzia de bêbados expurgando as infelicidades. Vão voltar para casa mais cedo ou mais tarde e seguir seus caminhos traçados na lama. Não tenho pena do homem. Busco aquele menino, mas ele não está lá. Conjecturo. Pode estar presenciando uma briga dos pais, o homem, fora de si, batendo na esposa; a mulher maculada cuspindo aos ventos seus anos de infelicidade. Tenho pena do menino. Então me surpreendo com desgosto; alimento-me de inventar os problemas dos outros. Talvez o menino viva feliz. Mais provavelmente, nunca saberei. Vem-me outra memória, no longe, mas perco-a antes de materializar-se. Vejo uma vitrine apagada, manequins protagonizando um espetáculo sombrio em roupas de gala. Concentro-me no jogo das luzes que os postes projetam sobre a vidraça. No espelho me sinto, mas não me vejo.
Não quero seguir viagem. Posso ficar ali por horas, por dias, sem ser perturbado, apenas contemplando minha pouca imagem. Meu espectro de gente, deformado pela história da vida e pela angústia da morte. Mal lembro meu rosto. Sou perturbado novamente, contudo. É aquele menino, tenho certeza. Olha-me curioso de um ponto na calçada, mas está tarde para um menino na rua. Vou ao seu encontro e me agacho sobre um joelho, a calça empoando, mas não tem importância. Olho-o fundo, e ele decerto me compreende. Está perdido, garoto? Não, e você? Reconheço a inocência em sua voz, e não posso deixar de responder Sempre estive. O menino não entende. Onde estão seus pais? Eu vim comprar remédio para a minha mãe.
Acompanho-o até a farmácia, as mãos em seus ombros de criança, pouco preocupados com minha presença. O garoto pede o remédio como um adulto, entregando a receita. O farmacêutico já o conhece e entrega o remédio mecanicamente. Dê melhoras a sua mãe. Sigo com o menino por muitos quarteirões, e as ruas vão tornando-se mais escuras conforme andamos. Alguma memória vaga volta a aparecer, transfigurada em uma confusão de cores que ainda não compreendo. Antes que possa se materializar, no entanto, chegamos à casa do menino. O bairro é opaco e as ruas estreitas. As casas pequenas apoiam-se umas nas outras e são de um cinza triste. Os muros foram assinados das mais diversas maneiras, vestígios de um submundo vivo durante a madrugada. O menino bate na porta de ferro, não tem a chave.
O pai atende com alguma impaciência e ignora minha presença. O garoto entra e eu o sigo de perto. A mãe está deitada sobre um sofá, uma compressa sobre sua testa, os olhos vermelhos e com pouca vida, a respiração difícil e sonora. Ela não consegue falar, mas seus olhos me miram fundo. O pai dirige-se ao filho carinhosamente em agradecimento pelo remédio e pede que traga um copo de água para a mãe. Percebo a tempo que o julguei mal. Sigo o garoto até a cozinha, onde ele pega um copo na prateleira e, na ponta do pé, aciona o filtro de água. A cozinha é simples, os azulejos azuis e bastante limpos, os móveis cobertos de uma imitação de mármore, a pia recebendo um pingo atrás do outro de uma bica que precisa de conserto.
Volto para a sala antes do menino, o pai acaricia o rosto da mãe com calma, e retira o termômetro da axila da esposa. Seu rosto transparece preocupação. Ele destaca um comprimido e põe cuidadosamente na boca da esposa. Engula, diz, carinhosamente, acariciando suas bochechas. Ela tosse repetidamente, e sinto-me angustiado. Acalma-se em seguida. O pai levanta do sofá respirando fundo. Finalmente, a memória volta completa, materializada. Lembro-me que cuidei daquele garoto uma vez, há alguns anos. Lembro-me do pai, desespero nos olhos e da mãe, em melhor estado. O menino caíra doente, a mãe sofria de algo crônico, e o medo era que o filho seguisse o mesmo caminho. Eu o examinei na emergência, as vias respiratórias obstruídas. Saio da casa imediatamente, sinto quatro olhos me seguindo.
Atravesso a cidade em ritmo acelerado, como não me lembro de andar há anos. Passo na loja de plantas, mas não posso entrar. Não tenho tempo. Retorno à casa da velha a tempo de vê-la tropeçar na dobra de um tapete e cair de frente para o chão de madeira, a mão protegendo o rosto. Um grunhido sofrido abandona sua garganta. Sua perna ensanguenta o tapete. Curvo-me sobre ela. A ferida na perna é algo grave. Talvez um osso quebrado. Meu coração aceleraria. A velha emite sons nervosos e grita para minha direção. Tenta se arrastar em busca do telefone, sua jornada é uma briga pela sobrevivência. Não posso me ater a isso. Subo as escadas correndo, e ela sabe meus passos. Encontro o quarto, nervoso, o porta-retratos sobre o móvel.
A velha e seu esposo falecido sorriem contentes através do quadro. Observo as ruínas do tempo entre aquele momento, onde o sangue e a velhice se arrastam na sala de baixo, e o instantâneo, cuidadosamente revelado, captando paz e jovialidade. Reconheço-me naquele retrato. Os meus olhos, que eu quase esqueci. O meu rosto que eu quase esqueci. Era algo de magnético que me lançava na direção da velha. Toquei a foto com os dedos emocionados. Senti minhas digitais por sobre o vidro. Perdi-me naquele quarto, como se meu corpo derretesse. E aquele retrato é meu túmulo.