sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um cão


Dois cachorros na rua se cruzam, se cheiram e laçam os corpos
acompanho a calçada pé ante pé, talhando no gelo da manhã o traço frio do caminho para casa
a estrada me dói.
Meus pés são descalços e o orvalho desmaia por entre meus dedos, esmago a fuligem,
dois homens cansados conversam ou brigam ou amam ou cegam
uma ponta de luz se desfaz no horizonte.
Em mim, uma sombra se apaga e se infla. Eu tento respirar mas atravessa minha garganta e veda.

Em casa, encontrei seu bilhete, sua letra com pressa correndo da folha
sou só signo. Meus pés rasgam.
Olho a janela e vejo o mundo como ele é: dor e humilhação – pura felicidade dos outros.
As pessoas são felizes.
Reconhecem nesse mundo algum prazer selvagem que em mim dói demasiado.
Escrevo um papel amarelado de lágrima. Sua ausência me cobre como um edredom.
Meu único traço de vida é a mão que se move em padrões desengonçados manchando o papel.
O que eu escrevo é um cadáver. Resquício esquecido de gente. Meu texto é inócuo.

Garotos lambem papéis no portão e sopram fumaça para o céu.
Se me reconhecesse vivo a fumaça invadiria meus pulmões. Mas não o faz.
Meus pulmões são imóveis. O meu corpo adorno. Morri sem avisar à morte.
E não devia ter medo de dar-lhe ciência.

Está entre as características mais irracionais do comportamento humano o rechaço ao suicídio.
Principalmente quando o próprio corpo há muito rechaçou a alma.

Eu fecho as janelas
Eu giro os botões
Eu tranco as portas e encosto os armários tampando os portais.
E espero o fogo chegar...


Nem o fogo reconhece em mim vida:
a morte esquece quem já perdeu as lágrimas.  

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Oceano em curva


Um gesto mudo e teu vulto surge
e essa presença reivindica o quarto,
e toma tudo e nada fica intato
nessa ruína que teu corpo urge

Teu vulto chega e não me nega nada
o ar crepita o teu calor choroso
os meus pulmões são dois olhos de fogo
a perfurar tua chama ensanguentada

Mas como um barco, o teu vulto vaga
teu próprio sangue é quem apaga a chama,
tua falta um mar onde o amor afunda

E nesse mar, que meu veleiro afaga,
minha pele é a areia, onde se derrama
meu corpo a praia que esse mar inunda