segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Da permanência


Se me perguntassem
Diria que é calor, que arde um pouco, no peito,
E que incinera os ossos, feito uma febre no dia errado,
No corpo errado.
Que no talvegue entre nossos corpos, deitados,
Corre um rio, que me percorre aos pés,
Cujo corpo oscila volumoso entre as tuas e as minhas mãos, as tuas e as minhas pernas.
Diria, do carinho, as poucas frases; e das canções, os tantos versos,
Que correriam poesia imensa, como a montanha que o amor ocupa.
No labirinto, que tua sombra avulta, diria me perder, mais tantas vezes,
Extasiado em desconhecimento,  a reviver, do tato, tuas paredes
Na minha memória;
Balé de cores sobre minhas retinas, eu treinaria te ornar bonita
Feito um caderno de caligrafia,
As minhas letras, brincos de pingente,
Pingindo livres, das tuas orelhas.
Diria que és espanto, e deliquesces;
Como vapor de água nas paredes,
Como uma lágrima se faz presente;
E que decanta e torna-se suspiro,
Feito um bom sonho disfarçado em brumas.
És minarete, de onde o homem canta,
E o canto espalha por deserto e campo,
E a voz alcança o mar e a estrada
Onde primeiro te reconheci;
A encruzilhada, onde ainda estamos,
Aquela terra, que nós dois pisamos,
Aquela estrada de onde não parti.  

sábado, 13 de outubro de 2012

Lástima


Meio às pressas se incorpora o anúncio
Por trás dos meus olhos embebo-me em lágrimas, o corpo flutua
No escuro opaco perdi os teus olhos num mar sem farol
E as rochas da costa atraem o navio, imãs;
Meus braços desenham seu corpo no vento, é minha irmã
Nascida em espírito, serramos a alma, os corpos contíguos,
A vista anuncia o frustrante e o eterno amanhã,
E a besta que habita meu peito é um anjo antigo.
Antigo o vento, o rastro de nuvem, poeira de vida
Que há mais de mil anos só vê todavia a mensagem do tempo,
E o escuro se esgueira, chegando em ondas por trás da minha vista
E a culpa me queima, e a culpa me queima, doença mortal;
Que mais a paixão evanesce mais a dor espicha. 

sábado, 28 de julho de 2012

Com que olhos


Entre as minhas caras, teu retrato,
entre meus braços, teu casaco
e o passado a me esperar.
Vou me embrenhar entre teus passos,
preencher todos espaços
te roubar, e te roubar
dessas memórias, de um pedaço
de romance interminado
de um autor que já morreu.

Olha, que o final é um atalho,
e a verdade é uma mortalha
que ainda teima em se prender
a esses fragmentos de passado
que perfuram os sapatos
e se fazem carregar.
Se eu vou, segues comigo, pés sangrando,
tuas palavras açoitando o caminho interminável
e o meu ganido autocomiserado se completa com teu eco
carregado pelo ar

Longe, o que tu gritas é um mistério,
como é um mistério o que ainda posso ver.

Longe, sons de fruição e riso, amores que nunca partiram,
sempre chegaram, som de dor e recompensa, e de música no peito;
Perto, amores dormem e diminuem,
como rios que confluem,
nesse pântano em que deito.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

II


 A velha se despe sem sequer indício de pudor, de costas para mim. O espelho reflete seus seios pingentes, sua carne de velha. Ela observa o próprio corpo, impassível, e eu lacrimejaria. Levanto e toco seu ombro direito, mas ela mal me sente sob a pele transtornada. Suspiro de uma impaciência chorosa, ela retribui em um lapso de autocomiseração, mas depois volta a seu transe, a barriga perdendo por sobre a calcinha. Toda a carne não era suficiente para sufocar sob a superfície a dor da senilidade. A mácula entranhada parecia descolar de seu espírito e alcançar o mundo exterior pelas ranhuras na pele quase morta. Compadecido, eu a deixo no quarto e desço as escadas, pausadamente. Tenho vergonha do próprio eco dos meus passos. E tenho medo de que alguém os ouça.
Sobre a mesa da sala, compras em um saco de papel. Uma maçã rolou solenemente para o chão, o som abafado pelo tapete antigo, comprado em uma viagem. Não eram felizes, os dois. Nem mais infelizes que o resto do mundo. Houve sorrisos, e abraços; e houve amantes e despedidas. Cortaram o país de carro, uma vez, e atravessaram a serra sob tempestade, os barrancos atraindo o automóvel como um ímã; a luta contra a direção, aquela célula de sobrevivência abrigando os dois, mantendo-os lado a lado. Amor se faz, ela disse uma vez, como um prédio. Com engenharia e vergalhões, retrucou. Houve amor, então, também. Houve amor, pois assim se fizeram: fundidos como prata e vidro; contínuos e indiscerníveis. Apesar do tempo.
A maçã no chão transpirava vermelho; um vermelho hoje pouco visto. Abaixei e a apanhei na mão, meus dedos circundando sua casca perfeita: tênue e macia. Sufoquei com o olor terreno que exalava, e, novamente, lacrimejaria. Ouvi a velha começar a descer, passo a passo, as escadas; os anéis roçando no corrimão um som lúgubre, anunciando a jornada com requintes de crueldade. Deixei a maçã no chão, calmamente, e sentei no sofá, delicado. A velha sussurrou algo que não entendi e avistou a maçã no chão. Curvou-se com extrema dificuldade e apanhou a fruta. Fiz menção de levantar, mas ela lidou bem com o desafio. Levantou calma e levou a maçã para a cozinha. Antes de sair, ouvi a corrente de água tocando a maçã, na pia da cozinha, e as mãos de velha afagando aquela pele vermelha.
Na birosca do gordo, há meia dúzia de bêbados expurgando as infelicidades. Vão voltar para casa mais cedo ou mais tarde e seguir seus caminhos traçados na lama. Não tenho pena do homem. Busco aquele menino, mas ele não está lá. Conjecturo. Pode estar presenciando uma briga dos pais, o homem, fora de si, batendo na esposa; a mulher maculada cuspindo aos ventos seus anos de infelicidade. Tenho pena do menino. Então me surpreendo com desgosto; alimento-me de inventar os problemas dos outros. Talvez o menino viva feliz. Mais provavelmente, nunca saberei. Vem-me outra memória, no longe, mas perco-a antes de materializar-se. Vejo uma vitrine apagada, manequins protagonizando um espetáculo sombrio em roupas de gala. Concentro-me no jogo das luzes que os postes projetam sobre a vidraça. No espelho me sinto, mas não me vejo.
Não quero seguir viagem. Posso ficar ali por horas, por dias, sem ser perturbado, apenas contemplando minha pouca imagem. Meu espectro de gente, deformado pela história da vida e pela angústia da morte. Mal lembro meu rosto. Sou perturbado novamente, contudo. É aquele menino, tenho certeza. Olha-me curioso de um ponto na calçada, mas está tarde para um menino na rua. Vou ao seu encontro e me agacho sobre um joelho, a calça empoando, mas não tem importância. Olho-o fundo, e ele decerto me compreende. Está perdido, garoto? Não, e você? Reconheço a inocência em sua voz, e não posso deixar de responder Sempre estive. O menino não entende. Onde estão seus pais? Eu vim comprar remédio para a minha mãe.
Acompanho-o até a farmácia, as mãos em seus ombros de criança, pouco preocupados com minha presença. O garoto pede o remédio como um adulto, entregando a receita. O farmacêutico já o conhece e entrega o remédio mecanicamente. Dê melhoras a sua mãe. Sigo com o menino por muitos quarteirões, e as ruas vão tornando-se mais escuras conforme andamos. Alguma memória vaga volta a aparecer, transfigurada em uma confusão de cores que ainda não compreendo. Antes que possa se materializar, no entanto, chegamos à casa do menino. O bairro é opaco e as ruas estreitas. As casas pequenas apoiam-se umas nas outras e são de um cinza triste. Os muros foram assinados das mais diversas maneiras, vestígios de um submundo vivo durante a madrugada. O menino bate na porta de ferro, não tem a chave.
O pai atende com alguma impaciência e ignora minha presença. O garoto entra e eu o sigo de perto. A mãe está deitada sobre um sofá, uma compressa sobre sua testa, os olhos vermelhos e com pouca vida, a respiração difícil e sonora. Ela não consegue falar, mas seus olhos me miram fundo. O pai dirige-se ao filho carinhosamente em agradecimento pelo remédio e pede que traga um copo de água para a mãe. Percebo a tempo que o julguei mal. Sigo o garoto até a cozinha, onde ele pega um copo na prateleira e, na ponta do pé, aciona o filtro de água. A cozinha é simples, os azulejos azuis e bastante limpos, os móveis cobertos de uma imitação de mármore, a pia recebendo um pingo atrás do outro de uma bica que precisa de conserto.
Volto para a sala antes do menino, o pai acaricia o rosto da mãe com calma, e retira o termômetro da axila da esposa. Seu rosto transparece preocupação. Ele destaca um comprimido e põe cuidadosamente na boca da esposa. Engula, diz, carinhosamente, acariciando suas bochechas. Ela tosse repetidamente, e sinto-me angustiado. Acalma-se em seguida. O pai levanta do sofá respirando fundo. Finalmente, a memória volta completa, materializada. Lembro-me que cuidei daquele garoto uma vez, há alguns anos. Lembro-me do pai, desespero nos olhos e da mãe, em melhor estado. O menino caíra doente, a mãe sofria de algo crônico, e o medo era que o filho seguisse o mesmo caminho. Eu o examinei na emergência, as vias respiratórias obstruídas. Saio da casa imediatamente, sinto quatro olhos me seguindo.
Atravesso a cidade em ritmo acelerado, como não me lembro de andar há anos. Passo na loja de plantas, mas não posso entrar. Não tenho tempo. Retorno à casa da velha a tempo de vê-la tropeçar na dobra de um tapete e cair de frente para o chão de madeira, a mão protegendo o rosto. Um grunhido sofrido abandona sua garganta. Sua perna ensanguenta o tapete. Curvo-me sobre ela. A ferida na perna é algo grave. Talvez um osso quebrado. Meu coração aceleraria. A velha emite sons nervosos e grita para minha direção. Tenta se arrastar em busca do telefone, sua jornada é uma briga pela sobrevivência. Não posso me ater a isso. Subo as escadas correndo, e ela sabe meus passos. Encontro o quarto, nervoso, o porta-retratos sobre o móvel.
A velha e seu esposo falecido sorriem contentes através do quadro. Observo as ruínas do tempo entre aquele momento, onde o sangue e a velhice se arrastam na sala de baixo, e o instantâneo, cuidadosamente revelado, captando paz e jovialidade. Reconheço-me naquele retrato. Os meus olhos, que eu quase esqueci. O meu rosto que eu quase esqueci. Era algo de magnético que me lançava na direção da velha. Toquei a foto com os dedos emocionados. Senti minhas digitais por sobre o vidro. Perdi-me naquele quarto, como se meu corpo derretesse. E aquele retrato é meu túmulo.    

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um cão


Dois cachorros na rua se cruzam, se cheiram e laçam os corpos
acompanho a calçada pé ante pé, talhando no gelo da manhã o traço frio do caminho para casa
a estrada me dói.
Meus pés são descalços e o orvalho desmaia por entre meus dedos, esmago a fuligem,
dois homens cansados conversam ou brigam ou amam ou cegam
uma ponta de luz se desfaz no horizonte.
Em mim, uma sombra se apaga e se infla. Eu tento respirar mas atravessa minha garganta e veda.

Em casa, encontrei seu bilhete, sua letra com pressa correndo da folha
sou só signo. Meus pés rasgam.
Olho a janela e vejo o mundo como ele é: dor e humilhação – pura felicidade dos outros.
As pessoas são felizes.
Reconhecem nesse mundo algum prazer selvagem que em mim dói demasiado.
Escrevo um papel amarelado de lágrima. Sua ausência me cobre como um edredom.
Meu único traço de vida é a mão que se move em padrões desengonçados manchando o papel.
O que eu escrevo é um cadáver. Resquício esquecido de gente. Meu texto é inócuo.

Garotos lambem papéis no portão e sopram fumaça para o céu.
Se me reconhecesse vivo a fumaça invadiria meus pulmões. Mas não o faz.
Meus pulmões são imóveis. O meu corpo adorno. Morri sem avisar à morte.
E não devia ter medo de dar-lhe ciência.

Está entre as características mais irracionais do comportamento humano o rechaço ao suicídio.
Principalmente quando o próprio corpo há muito rechaçou a alma.

Eu fecho as janelas
Eu giro os botões
Eu tranco as portas e encosto os armários tampando os portais.
E espero o fogo chegar...


Nem o fogo reconhece em mim vida:
a morte esquece quem já perdeu as lágrimas.  

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Oceano em curva


Um gesto mudo e teu vulto surge
e essa presença reivindica o quarto,
e toma tudo e nada fica intato
nessa ruína que teu corpo urge

Teu vulto chega e não me nega nada
o ar crepita o teu calor choroso
os meus pulmões são dois olhos de fogo
a perfurar tua chama ensanguentada

Mas como um barco, o teu vulto vaga
teu próprio sangue é quem apaga a chama,
tua falta um mar onde o amor afunda

E nesse mar, que meu veleiro afaga,
minha pele é a areia, onde se derrama
meu corpo a praia que esse mar inunda

domingo, 18 de março de 2012

Poesia científica

O sonho me afasta da arte;
fez-me moderno quando eu me quis barroco.
O que há de errado com a velha dialética?

Meu sonho se escora no espaço,
minhas mãos se perdem no tempo;
me frustro.
Não há de caber estrofe nos fatos.

Poesia científica, conversa acadêmica,
fiada em dados,
o que há de errado com as rimas complexas?
Devo seguir à revelia da métrica,
pela planície dos tomos vazios,
pelo ruidoso debate de mentes,
pelos caminhos dos ângulos retos.

Meu sonho há de afogar a arte
com as próprias mãos, sujas de tinta e sangue,
e seu troféu é envenenar o rio
e que o rio siga envenenado.

Na queda d'água, desse rio, abaixo,
meu sonho reinará, a arte morta,
por todo inverno que essa vida dura

E no meu corpo, que meu sonho corta,
é no meu peito que esse rio brota,
e no meu peito que ele coagula.