domingo, 11 de dezembro de 2011

I


Soslaio. Há um menino me olhando parado à esquerda, na tenda de índio onde funciona a birosca de um cara gordo e fedido. Seu pai deve ser alcóolatra. O menino está sozinho, as calças dobradas até em cima do joelho, as coxas de menino refratando a luz do dia, que invade seu corpo e resulta nuns olhos dourados de peixe, que me encaram esbugalhados. Agora vejo seu pai, os braços estendidos sobre a mesa, cotovelos desleixadamente dispostos, repousando sobre a poça de cerveja, sobre a mesa. O rosto simples de um proletário qualquer, meio sujo meio limpo, meio honrado meio vendido. Os olhos de espelho de um bêbado. Vai chegar em casa e a mulher vai chorar ou apanhar e chorar. O garoto continua me olhando, de certo me vê. Quão fundo me vê? Não parece ter medo. Não é suficientemente fundo.
Atravesso a esquina com o sinal aberto para os carros, um Ford que não reconheço passeia soberano e vence a rua a poucas polegadas de mim. Alcanço a calçada, viro o rosto e o menino não tira os olhos, sabe que exala daqui uma espécie de calor mágico, de torpor disforme, que se manifesta no ar e não se mistura na fumaça escura da cidade. Sou limpo. Entro em uma loja de rua que tem plantas e um balcão. Nem espero o atendente e atravesso para o outro lado, abro a porta dos fundos e me deparo com a antessala de sempre, com o cheiro de sempre. Abaixo de joelhos e sinto o odor campestre da erva, meus olhos rolam. Um prazer quente empurra minha cabeça para trás. Ensaio um grito, mas vejo o balconista se aproximando.  Estou um pouco atrás de um vaso alto, e acho que não me vê.
Quero chorar, mas sei que não posso. Quero a maconha, mas sei que não posso. Levanto e vou embora. Na volta, o garoto está sussurrando algo para o pai, que não parece dar a mínima. Dessa vez passo despercebido. Cumprimento uma senhora na rua, de rosto apático. É muito o tipo de senhora para ser cumprimentada. Tem um guarda-chuva encaixado na curva do braço direito, como se carregasse uma amante com quem dançará mais tarde, mas que por enquanto apenas corteja e dita versinhos encantados, sempre roubados de algum poeta. Uma saia até perto do joelho e um coque prateado, contudo, contradizem seu espírito amoroso: é, inquestionavelmente, uma velha. Divide seu amor entre os quatro netos, o filho, a nora. Na mão esquerda leva uma sacola de compras e a bolsa de couro; vai recebê-los em casa hoje, para o almoço.
Dou meia-volta e passo a segui-la não muito longe do seu calcanhar. Não me percebe porque é velha e não tem mais os instintos aguçados. Respiro de propósito na sua nuca. Se fosse uma adolescente teria sacudido, feito um bambu, com o calafrio desconcertante que perpassa a nuca; teria enrubescido e passaria a andar com as pernas mais juntas, os cabelos mais soltos, o sorriso mais amplo. Mas, como é velha, apenas segue seu passo arrítmico e que segura de uma perna. Um garoto a espreita sentado no meio-fio. Tem o rosto desenhado pelo mundo; um desenho funesto e delicado. Sua pobreza perpassa todo o corpo e emerge na pele, pelos poros. Seu rosto não tem profundidade além daquelas valas tristes cravadas pelos seus pouco mais de dez anos.
Novamente passamos pelo menino da birosca do homem gordo. Agora me vê novamente, e sem dúvidas estranha que eu esteja passando pela segunda vez na mesma direção. A face solidifica me encarando, com mais profundidade agora. Eu fixo meus olhos nele, mas não desgrudo das costas curvadas da velha. Ele ensaia um sorriso, mas então fica com medo. Dá de ombros e entra correndo atrás do pai. Vem-me uma lembrança a essa hora, mas não a compreendo direito, está distorcida pelo tempo. Quando volto a mim, o garoto pobre do meio-fio já está estendendo suas mãos de pedinte e urgindo sua voz de pedinte. A senhora crispa o rosto e, num reflexo, puxa a bola para mais perto de si, mas estaca: o garoto está em seu caminho.
Nessa freada, quase me choco com a velha, e tenho que fazer muita força para frenar antes de empurrá-la sobre o garotinho. Ele pede algo com a voz embargada, e está drogado. A velha diz que não tem nada e não tem nada, e desvia pela borda da rua, sigo-a de perto. O outrora moleque segura o braço da velha com força de homem e tira do bolso da bermuda, que nem achei que tivesse bolso, um caco de vidro, pedaço de garrafa de cachaça que alguém bebeu metade e usou a outra metade para desinfetar as feridas de uma briga de bêbados. São todos bêbados nessa cidade. A velha puxa o braço, os olhos já marejados; de supetão o menino a espeta com o caco de vidro, perfurando a pele enrugada e frágil do lado esquerdo do corpo, abaixo dos seios. É um ferimento leve, pouco profundo, mas doloroso.
Tão logo desencrava sua arma da velha, puxa a bolsa e corre. Com uma força surpreendente, contudo, a senhorinha impede o furto e o outro corre toda a calçada, de uma maneira desengonçada, ao léu, sem êxito. Alguns passantes param preocupados e a velha repete sucessivas vezes que está tudo bem, que dói um pouco, mas sua casa é logo ali. Sua sobriedade é incrível. Eu não me movo. Todos se oferecem para levá-la até seu portão, mas ela nega toda ajuda, a não ser a de uma moça loira em trajes executivos que, com as mãos em suas costas, acompanha-nos até a residência senil da senhora. O ferimento sangra muito pouco, mas a velha geme baixinho enquanto anda. Há vidro ali dentro, como memórias remanescentes de um evento. O filho abre a porta e entra em pânico. Eu quase rio.
Ela mesma explica toda a história, ali, no umbral. Sua voz fraqueja o tempo todo, e tenho quase certeza que está fazendo força para exagerar na dramaticidade, como nos é típico fazer quando queremos a atenção de alguém. Encena a história com cada sílaba, e o filho ouve em desespero crescente, mas sem interromper a mãe, deixando-a ali, parada, vulnerável. Quando o conto se encerra, tenho certeza que vejo um quase prazer no rosto da velha, será a dama do dia, não vai mais coadjuvar, ao menos essa tarde. Ele agrade e nos convida para entrar, mas a loira recusa solenemente, sem disfarçar a atração profunda que a tomou desde que viu o filho da velha. Estava pensando em como o destino era bondoso, como o amor se manifesta nas ocasiões mais adversas. Mas então viu a aliança tremulando na mão esquerda do cara, e resolveu deixar sua alma-gêmea para lá.
Eu entrei, a velha vindo logo atrás de mim, o filho aparando-a. A nora estava em pé, apoiada na parede, no vão de uma porta inexistente. Estava ligeiramente preocupada, apenas. A velha sentou-se em um sofá, e o neto, de uns três anos, que dormia, acordou devagar. Viu o sangue na camisa da avó e perguntou se ela tinha feito dodói. Ela sorriu candidamente e disse que sim, mas que já ia sarar. Não sei onde está o outro neto. Subi para o andar de cima e entrei no quarto da velha. Tinha um cheiro que me lembrava mofo e biscoitos de leite. As paredes eram cobertas por madeira e o chão tinha um carpete escuro. Aquela atmosfera me lembrava uma biblioteca, mas com poucos livros e uma cama no meio.
Sentei-me na cama e respirei fundo. Havia aqui e ali uns porta-retratos com fotos velhas da velha. Em uma ela estava em seu vestido de casamento, ao lado do seu marido falecido; em outra, ostentava um penteado diferente, garantido pelo laquê, que ondulava por sua cabeça e terminava suspenso sobre a sua nuca; em mais uma devia ter uns 20 anos e sorria sincera para a foto. Era muito bonita antigamente. Uma beleza marinha que se cansara ao longo do tempo. Daqui, podia sentir na sala os sobressaltos da velha, enquanto sua nora retirava com a pinça algumas esquírolas de vidro que haviam conseguido permanecer na sua carne. 
Aquele vidro se entranhara e fizera marcas na carne senil. Aquele corte era uma chaga solitária como a própria senhora. E, por outro lado, o custo de sua importância. É disso que padecem os velhos: têm de ficar doentes para receberem carinho e serem cuidados. As pessoas amadurecem e azedam... eu resolvi ficar um tempo com a velha.