sábado, 28 de maio de 2011

Que já se sabe

Embora faltasse tanto, já havíamos chegado;
O silêncio do barco navegando o escuro,
Serpente sobre as águas, rumor de esquecimento;
Donde a proa rompia, uma espada, a maré em ondinhas pequenas;
Espalhando-se ao longo, ao comprido, as ondinhas em séries e arcos,
E os arcos em rostos dourados, refletidos na luz nenhuma da superfície;
Dois rostos colados, o meu e o seu, e o universo de sal, imposto, o cheiro de incenso,
Intruso,
Os olhos sonhando, em transe, armadilha de bruma e madrugada morta;
Havia todo o caminho, mas nós dois já chegáramos,
E chegáramos antes do vento de anunciação.
Já havíamos chegado
Quando se hastearam os lenços brancos de partida,
Quando se ergueram as sobrancelhas de penar,
Enquanto o mundo nos olhava irrefletido
Sem nos saber.
Já havíamos chegado antes.
Já havíamos chegado com os nós atados no cais,
Mais que isso, antes de sabermos a rota,
De gerarmos o barco,
Maturarmos os corpos,
De largarmos os ventres;
Antes de tudo, já havíamos chegado
Já estávamos salvos ou mortos sob água e destroços de navios;
Já estávamos lá, onde ainda não estamos...
Já havíamos chegado quando ainda não éramos,
Quando o pó era estrela,
Os caminhos montanhas,
As montanhas oceanos.
Quando o mundo foi mundo, já havíamos chegado,
Seja lá onde estamos