quinta-feira, 21 de abril de 2011

Foi por água

Foi por água,
O projeto de tudo
E o vazio da noite se deitou sobre o quarto.
Alguns bichos cantando, teu desenho escorrendo para baixo da cama,
No chão, te procuro, mas mistura-te à parede, morta e branca
Te chamo, sereno,
Respondes lamúrias e passos dos vizinhos açoitando o soalho, calada
Esqueço que sôo doente e me afasto da tua imagem, me encosto ao armário,
Há vultos lá dentro, me gritam o nome.
Não atendo, resisto. Enquanto.
Eu choro? Nunca sei se choro
Falta uma prova física, que é a gota de lágrima
Que não rola!
Que vale a fortaleza por muros, se por dentro esfacela?
Corri feito um sopro e me retiveste,
Em teu chão cresci arbusto, e verde
Seguro
É vez para a poda
Te vejo cedendo, te sinto secando,
Tua boca secando, teus olhos vêm tristes e
Desarmam meu peso, deságua-me um rio de culpa
Sem querer,
E me afogo,
Sem hesitar.
Atento os ouvidos, e tudo que ouço é teu canto,
Datado, antigo,
Ao tempo que meu espírito se deteriora e não te permite frescor
Talvez deva seguir, eu fico.
Teu caminho adiante, o meu não vai longe.
Estou preso à pedra que ergui sobre as pernas,
Estou preso à minha dor forjada, construída,
Nos anos de ser estático e velho que me fiz.
Eu tenho meu corpo e as minhas velas de aniversário. Acesas.
O resto, te devo.
E felicidade, que não te posso dar.
E felicidade.
Te atas a meus braços, são braços de rocha,
São massa e mais massa. São só de mentira.
Te atas a mim. E a toda mentira.
E a todo mal-grado
Teu rosto é tão terno, tua vida é tão clara!
Te devo tudo
Só posso te dar liberdade.
E olhos para ver
O tempo lá fora.

domingo, 3 de abril de 2011

Hipercronia

Fugiu-me a sensação do tempo
E o seu sentido quase tangível de pôr ordem no mundo
De se alegrar após se entristecer e apaziguar depois
Da discussão.
Nosso discurso é coeso, ainda assim, e eu te decoro cada gesto,
E cada palavra,
Mas se arrasta pela languidez de um infinito não demarcado,
(Que justamente por isso pode ser infinito)
Enquanto sinto cheiro do tempo virando e ouço o coro dos choques de gotas
Em cadáveres de escamas das árvores.
O som reverbera e vejo moldar-se contra o teu corpo; estático, de pé,
Translúcido sobre a expectativa de ser-te eternamente
Todos os relógios sumiram, porque não devem existir relógios.
Comprimir-te com todos os músculos, até que te tornes uma massa opaca e
Disforme, conforme a forma – meus braços
E depois conduzir-te de volta à tua realidade de perfeição sincera; toda essa perfeição que
Está para lá do que enxergam em casas, cubos e cantos.
Tenho certeza que um pensamento se extravia
Com ele um quinhão de quididade
E jamais conhecerei sua certeza;
Não importa, porque em mim és fonte inestancável
De remodelo e criação.
Tu me festejas com tua liberdade,
Refestelo-me liberticida,
E te mastigo, antes. E te amo.
Depois, perder o decoro.
Perder o decoro entre os teus braços,
Entre tuas pernas,
Entre o teu mundo e a natureza que te faz gente.
És real.
E faz disso teu ofício e salvação.
És real.
Não porque posso tocá-la, mas porque a tua existência,
Pelo simples ato de ser,
Evidencia a indiferença do vazio que te entorna e amordaça
E emudece
És real por não caber nos versos.