segunda-feira, 21 de março de 2011

Esparadrapo

Contra o céu, o grito se apaga
como uma estrela que a nuvem engole
e digere no seu estômago de vapor
e nuvem.
Como somos pequenos, olhe o espaço!
Por que nossas cabeças nem alcançam seus ombros, se nos julgamos grandes frente aos próprios astros?
E lá fora, o vácuo, que chamamos nada,
Na verdade é tudo, é pura matéria,
E a lembrança de que jamais nos ouvirão

sábado, 12 de março de 2011

Ao absurdo

...Eu ia dizer que estivera desencontrado, e que me achei. Entre as luzes evanescentes que pincelavam teu cabelo, entre o tiquetaquear dos relógios que encerraram todas as centenas de encontros miudamente premeditados e absolutamente imprevisíveis; entre os vultos que formaste frente aos meus olhos – esses vultos de sombras coloridas, feito carrosséis pintados de gizes de cera, em caleidoscópios exóticos – entre os surtos convulsivos dos meus músculos tangendo tua pele, vislumbrei-me.
Diria que havia uma ilha, eu, e que tu foste a mão alentadora a me alcançar o ventre, e que ergueste, pilar após pilar, - vão após desvão- aterrando-te os próprios medos, uma ponte sideral, eterna, e me guiaste pelo pulso a terra. Diria isso a te colar os lábios e te encher desse vento tórrido que meus pulmões imploram por te soprar.
Aí, com os teus aromas cálidos de mulher, embalarias entre os teus passos de malabarista habilidosa um bolero efervescente a transbordar meus poros, a preencher a concavidade dos meus ombros, onde te poria para ninar, desejando ser o dono absoluto da tua vida, sabendo que não aquiesceria a um só comando meu.
E sempre que meus lábios tocassem tua pele, escorreria um Jobim macio a insuflar-nos, simultâneos, com os acordes em decrescência de “Eu te amo”. E cada vez que seu dedo repousasse em um clique sobre a tecla, teus dentes cortariam o ar que recobre meu corpo como um lençol, e nos lançaríamos, ambos – insulados dos universos que nos rodeiam – em um universo novo, unicamente nosso, onde as palavras têm 5 dimensões e as paredes, infinitas.
Eu ia dizer que há uma agulha perene e gigantesca que me perfura o estômago quando te despedes. E que sempre quero correr e me agarrar aos teus pés e pedir-te que fique, para sempre. Não para o sempre dos seres humanos – pois não vivemos no tempo dos homens – mas para o nosso sempre, sem fim dentro de cada desígnio.
Eu ia acreditar em deus, em deuses, em miríades de seres superiores! Pois apenas todo Olimpo e Asgard em comunhão poderiam ter-nos cruzado os caminhos, e ter-me permitido reconhecer-te entre oceanos de treva, entre multidões de angústia.
Eu te faria sufocar, por uns instantes, para que teus olhos injetassem no mundo – ejetassem do monumento parnasiano e exato que ousas chamar corpo – essas tuas lágrimas de pavor. Essas tuas plácidas lágrimas de pavor. Eu ficaria quieto, silencioso, no aguardo que brotasse de ti um rio, como brota da pedra, água, como brota da pedra, flor. E que esse rio me inundasse, me transfigurasse em símbolo! Em um símbolo claro e indolor para grudar dentro do teu corpo. Para embalar-me em teu cativeiro.
Eu ia dizer que estivera perdido e fui salvo. Que mais que isso foste para mim, mais que salvação da carne, muito mais que a expiação dos pecados; só tua sombra sobrepuja todo sacramento! E eu ia abraçar-te forte contra o meu peito, para que teus ouvidos pudessem sincronizar nossos corações, para que o teu rosto pudesse sincronizar a rotação de cada eletro, no menor dos bilionésimos de segundo, e para que meu corpo agarrasse a parte mais atômica do seu, só para ter-te – ainda que em parte, em fragmento, em esquírola – comigo, para sempre.
Eu ia perscrutar-te o corpo, vagaroso, e descobrir cada sinal em relevo e cada depressão abissal, e te mapearia, em uma introspecção topográfica, em um delírio de cartógrafo, desenhar-te-ia sem equívocos, em cada punhado de matéria que te existisse. Assim, te saberia a cada milésimo de instante, a cada diferente curvatura das rugas da tua bochecha, tão milimetricamente projetadas para meus olhos.
Perfurar-te-ia os tímpanos com a agudeza das palavras apaixonadas. E tu me sorverias todo o léxico, e o vácuo deitado na minha boca ainda clamaria por dicionários, mas não haveria verbetes que bastassem, em todas as línguas do universo!
Insistiria que somos vão e densidade, e que isso é o amor! A combinação inquebrantável de espaço e massa, e de plenitude mútua, dupla – e apenas dupla. E que tu és esse ser minúsculo que me ocupa universos, e me eleva a um deus multiforme, invariavelmente onipotente, invariavelmente teu! E que nós somos um para o outro, como para todo corpo existe um anticorpo, e para toda vida, morte.
Discordarias e eu cederia, não porque te amo, mas porque pretendo amar-te infinda e decididamente.
Decidiria então que fui errado; que era forte então tornei-me fraco. Que era cético e verti-me crente... e não acreditaria em uma palavra seca que me fugisse da boca... Eu estava cego, agora vejo. E tudo que vejo é tua bonança.
Então me virarias as costas, e eu te contemplaria feito um cálice. E eu sucumbiria e quebraria em cacos. Nessas oscilações breves do amor absurdo ao medo nauseante. Apertar-te-ia forte, e tu serias sólida, e serias firme, como um bloco do mundo e das coisas do mundo. E a cada beijo comiserado, umidamente tatuado pelo meu corpo, eu seria menos dono de mim.
Choraria por não poder controlar-te os sentimentos e por estar abaixo das tuas vontades, choraria por não me deveres tudo e não me amares sinceramente. Ainda assim, rogaria ao mundo que me perfurasse com todas as facas guardadas para a tua carne, pois do meu sofrimento espúrio e lancinante jorraria – feito sangue – amor.
Descobriria que eu te amo, te amo de morrer. De um sentimento que jamais será expresso fora de nós. De um desespero que não encontra na palpabilidade um fim, que não encontra sob os pés um solo. De um anelo doce e sombrio. De uma entrega doente e curadora.
Descobriria o mundo de caminhos, e o desmundo que á a tua estrada. E que nessa vereda sinuosa incrustada no corpo de montanhas, que entre atropelos e abismos, que entre escarpas e despenhadeiros, conduzem ao caos das suas entranhas, arriscaria a vida e a sanidade. Arriscaria o brilho dos meus olhos!
Que somos impossíveis em princípio, e somos a certeza imediata. Descobriria que o teu corpo só existe em mim porque universos se entornaram nesse intento! Que tu és a força irrefreável, e eu o objeto irremovível. Que sou o Deus a criar a pedra que jamais poderei levantar. Que somos o inverso do tempo, o contrário da espera, a exata demora... nós somos a inobstância da categórica muralha entre o infinito e o mundo. A porta inexoravelmente cerrada.
E o nosso amor é a aríete.