sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Meu campanário

Sonhei que era antes, e a tua sombra
Nascia do interlúdio entre os meus braços
E a torre do teu corpo, um campanário
Distante, nunca antes avistado,
Oculto sobre restos de sirenas
E rochas e espólios de piratas,
Os sinos, calafrios nos gramados
Da costa, da escarpa esverdeada;
Os sinos, divisando o horizonte
Em ontem e depois, em claro e noite.

Sonhei que teu abrigo era a clareira
Oblíqua no silêncio dos meus ombros,
Segura, no confim da minha garganta;
E o êxtase e a angústia te aguardando,
Detidos no abismo entre o instante
E a ponte incerta, o mundo e o precipício,
À espera de um ponto no infinito,
Guardados a torpor de naftalina,
No vão de um armário escuro e resignado,
Como um vestido que se guarda ao baile

Acordo e estás aqui, serena e quente
E lúcida de amar-me intermitente,
E plácida de ter-me ininterrupta,
Como posse qualquer, ou como um deus.
Navegas pelo curso do segredo,
Ainda que o ardor contra tua pele
Esconda-me o oceano que devastas.
Tu és como um navio alçado ao longe,
Como uma ilha atada ao horizonte;
E quanto mais eu nado, mais te afastas!