domingo, 11 de dezembro de 2011

I


Soslaio. Há um menino me olhando parado à esquerda, na tenda de índio onde funciona a birosca de um cara gordo e fedido. Seu pai deve ser alcóolatra. O menino está sozinho, as calças dobradas até em cima do joelho, as coxas de menino refratando a luz do dia, que invade seu corpo e resulta nuns olhos dourados de peixe, que me encaram esbugalhados. Agora vejo seu pai, os braços estendidos sobre a mesa, cotovelos desleixadamente dispostos, repousando sobre a poça de cerveja, sobre a mesa. O rosto simples de um proletário qualquer, meio sujo meio limpo, meio honrado meio vendido. Os olhos de espelho de um bêbado. Vai chegar em casa e a mulher vai chorar ou apanhar e chorar. O garoto continua me olhando, de certo me vê. Quão fundo me vê? Não parece ter medo. Não é suficientemente fundo.
Atravesso a esquina com o sinal aberto para os carros, um Ford que não reconheço passeia soberano e vence a rua a poucas polegadas de mim. Alcanço a calçada, viro o rosto e o menino não tira os olhos, sabe que exala daqui uma espécie de calor mágico, de torpor disforme, que se manifesta no ar e não se mistura na fumaça escura da cidade. Sou limpo. Entro em uma loja de rua que tem plantas e um balcão. Nem espero o atendente e atravesso para o outro lado, abro a porta dos fundos e me deparo com a antessala de sempre, com o cheiro de sempre. Abaixo de joelhos e sinto o odor campestre da erva, meus olhos rolam. Um prazer quente empurra minha cabeça para trás. Ensaio um grito, mas vejo o balconista se aproximando.  Estou um pouco atrás de um vaso alto, e acho que não me vê.
Quero chorar, mas sei que não posso. Quero a maconha, mas sei que não posso. Levanto e vou embora. Na volta, o garoto está sussurrando algo para o pai, que não parece dar a mínima. Dessa vez passo despercebido. Cumprimento uma senhora na rua, de rosto apático. É muito o tipo de senhora para ser cumprimentada. Tem um guarda-chuva encaixado na curva do braço direito, como se carregasse uma amante com quem dançará mais tarde, mas que por enquanto apenas corteja e dita versinhos encantados, sempre roubados de algum poeta. Uma saia até perto do joelho e um coque prateado, contudo, contradizem seu espírito amoroso: é, inquestionavelmente, uma velha. Divide seu amor entre os quatro netos, o filho, a nora. Na mão esquerda leva uma sacola de compras e a bolsa de couro; vai recebê-los em casa hoje, para o almoço.
Dou meia-volta e passo a segui-la não muito longe do seu calcanhar. Não me percebe porque é velha e não tem mais os instintos aguçados. Respiro de propósito na sua nuca. Se fosse uma adolescente teria sacudido, feito um bambu, com o calafrio desconcertante que perpassa a nuca; teria enrubescido e passaria a andar com as pernas mais juntas, os cabelos mais soltos, o sorriso mais amplo. Mas, como é velha, apenas segue seu passo arrítmico e que segura de uma perna. Um garoto a espreita sentado no meio-fio. Tem o rosto desenhado pelo mundo; um desenho funesto e delicado. Sua pobreza perpassa todo o corpo e emerge na pele, pelos poros. Seu rosto não tem profundidade além daquelas valas tristes cravadas pelos seus pouco mais de dez anos.
Novamente passamos pelo menino da birosca do homem gordo. Agora me vê novamente, e sem dúvidas estranha que eu esteja passando pela segunda vez na mesma direção. A face solidifica me encarando, com mais profundidade agora. Eu fixo meus olhos nele, mas não desgrudo das costas curvadas da velha. Ele ensaia um sorriso, mas então fica com medo. Dá de ombros e entra correndo atrás do pai. Vem-me uma lembrança a essa hora, mas não a compreendo direito, está distorcida pelo tempo. Quando volto a mim, o garoto pobre do meio-fio já está estendendo suas mãos de pedinte e urgindo sua voz de pedinte. A senhora crispa o rosto e, num reflexo, puxa a bola para mais perto de si, mas estaca: o garoto está em seu caminho.
Nessa freada, quase me choco com a velha, e tenho que fazer muita força para frenar antes de empurrá-la sobre o garotinho. Ele pede algo com a voz embargada, e está drogado. A velha diz que não tem nada e não tem nada, e desvia pela borda da rua, sigo-a de perto. O outrora moleque segura o braço da velha com força de homem e tira do bolso da bermuda, que nem achei que tivesse bolso, um caco de vidro, pedaço de garrafa de cachaça que alguém bebeu metade e usou a outra metade para desinfetar as feridas de uma briga de bêbados. São todos bêbados nessa cidade. A velha puxa o braço, os olhos já marejados; de supetão o menino a espeta com o caco de vidro, perfurando a pele enrugada e frágil do lado esquerdo do corpo, abaixo dos seios. É um ferimento leve, pouco profundo, mas doloroso.
Tão logo desencrava sua arma da velha, puxa a bolsa e corre. Com uma força surpreendente, contudo, a senhorinha impede o furto e o outro corre toda a calçada, de uma maneira desengonçada, ao léu, sem êxito. Alguns passantes param preocupados e a velha repete sucessivas vezes que está tudo bem, que dói um pouco, mas sua casa é logo ali. Sua sobriedade é incrível. Eu não me movo. Todos se oferecem para levá-la até seu portão, mas ela nega toda ajuda, a não ser a de uma moça loira em trajes executivos que, com as mãos em suas costas, acompanha-nos até a residência senil da senhora. O ferimento sangra muito pouco, mas a velha geme baixinho enquanto anda. Há vidro ali dentro, como memórias remanescentes de um evento. O filho abre a porta e entra em pânico. Eu quase rio.
Ela mesma explica toda a história, ali, no umbral. Sua voz fraqueja o tempo todo, e tenho quase certeza que está fazendo força para exagerar na dramaticidade, como nos é típico fazer quando queremos a atenção de alguém. Encena a história com cada sílaba, e o filho ouve em desespero crescente, mas sem interromper a mãe, deixando-a ali, parada, vulnerável. Quando o conto se encerra, tenho certeza que vejo um quase prazer no rosto da velha, será a dama do dia, não vai mais coadjuvar, ao menos essa tarde. Ele agrade e nos convida para entrar, mas a loira recusa solenemente, sem disfarçar a atração profunda que a tomou desde que viu o filho da velha. Estava pensando em como o destino era bondoso, como o amor se manifesta nas ocasiões mais adversas. Mas então viu a aliança tremulando na mão esquerda do cara, e resolveu deixar sua alma-gêmea para lá.
Eu entrei, a velha vindo logo atrás de mim, o filho aparando-a. A nora estava em pé, apoiada na parede, no vão de uma porta inexistente. Estava ligeiramente preocupada, apenas. A velha sentou-se em um sofá, e o neto, de uns três anos, que dormia, acordou devagar. Viu o sangue na camisa da avó e perguntou se ela tinha feito dodói. Ela sorriu candidamente e disse que sim, mas que já ia sarar. Não sei onde está o outro neto. Subi para o andar de cima e entrei no quarto da velha. Tinha um cheiro que me lembrava mofo e biscoitos de leite. As paredes eram cobertas por madeira e o chão tinha um carpete escuro. Aquela atmosfera me lembrava uma biblioteca, mas com poucos livros e uma cama no meio.
Sentei-me na cama e respirei fundo. Havia aqui e ali uns porta-retratos com fotos velhas da velha. Em uma ela estava em seu vestido de casamento, ao lado do seu marido falecido; em outra, ostentava um penteado diferente, garantido pelo laquê, que ondulava por sua cabeça e terminava suspenso sobre a sua nuca; em mais uma devia ter uns 20 anos e sorria sincera para a foto. Era muito bonita antigamente. Uma beleza marinha que se cansara ao longo do tempo. Daqui, podia sentir na sala os sobressaltos da velha, enquanto sua nora retirava com a pinça algumas esquírolas de vidro que haviam conseguido permanecer na sua carne. 
Aquele vidro se entranhara e fizera marcas na carne senil. Aquele corte era uma chaga solitária como a própria senhora. E, por outro lado, o custo de sua importância. É disso que padecem os velhos: têm de ficar doentes para receberem carinho e serem cuidados. As pessoas amadurecem e azedam... eu resolvi ficar um tempo com a velha.  

domingo, 27 de novembro de 2011

Soneto mais dois versos

eu estava em transe
entre as tuas danças,
eu restava em tranças
sobre seus lençóis.
e deitava nu nas tuas cobertas,
tu estavas certa,
eu estava só,
tudo estava em pó,
diluído em água,
destruído a ferro,
decifrado à força
dos teus olhos-pregos,
dos teus cílios-dentes,
dos teus olhos-boca

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sem janelas

Essa casa precisa respirar,
Essas paredes estão muito quentes, e tudo que o sol faz é passear no corredor
E esquentar, e esquentar.
Vem com seu frio e me encontra,
E me arrebata
Quero os seus dedos arrancando minhas costelas,
Quero ser consumido.
Quero dormir sob os lençóis cheirando a armário e do seu lado.
Você não chega, mas eu pus peso na porta,
Que essa casa precisa respirar a sua brisa.
Há silhuetas refletindo nos degraus da escada, nenhuma é a sua.
Essa casa me engole e me digere;
Essa casa precisa de um janela bem ali,
Um buraco na parede,
Para quando você vier,
A gente ver
O tempo lá fora,
As crianças brincando,
O dia correndo,
O tempo espreitando por trás do carvalho...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Da maior importância

Estou coberto de história, das tuas linhas. Como um diário a que deitas escrita, fina, macia, displicente. Sou uma crônica azeda, que se inicia, e te desperta por trás das pontas de luz que se geram no teu rosto e refletem no céu, para deleite do mundo. Teus lábios são mudos, e muitos, ditando estrofes desesperadas sobre as pontas incandescentes de vida que registram na minha carne o suor e o soar do nosso desvelo diário e contínuo.

Te aninhas em meu peito, cansada – a tua respiração magnificando, lânguida, o caos de entranhas –e te durmo em transe. Desprendes do corpo esse perfume de ocaso e me sinto vermelho, banhado em vermelho. Observo-me no vão entre o teu corpo e o meu, o lençol da cama um espelho, meu rosto apoiado em teus dois dedos que me roçam o lábio, por último. Sonhas comigo sonhos bonitos. Surpreende-me no misto de sono e vigília – guardo-te atento.

Estás sentada de costas, o alvor do quarto te desenha em um busto sobre minha retina. Sua sombra guarda o frescor e a angústia, o silêncio e o mistério onde me escondo; e te sigo, tentando pregar-te a mim, como um menino que não quer crescer. Ainda tremo ao teu toque. Dia após dia, ainda tremo. E temo. Fazes-te mais densa a cada hora, mais densa e mais profunda – e já não posso te encontrar os muros, as esquinas, as fronteiras: és eterna e indivisível, e és completa, com todo o vazio que não pude ainda preencher.

Tenho o desejo de conter-te com os dedos, como quem guarda a água nas mãos. Mas te libertas lacônica, sem pretensão ou agonia, apenas escapas – és por demais antimatéria e antítese, és por demais fluidez. Atravesso-te os olhos, como se fosses uma janela sobre a qual me debruço, e escolhes a paisagem, vezes cinzenta invernada, vezes árvore frutífera. Andamos lá fora, colhemos maçãs, comemos juntos. Deitamos juntos, dormimos juntos.

Abro os olhos e ainda estás em meu corpo, impregnada, em essência; recostada e adormecida, em física. Te chacoalho devagar, me olhas e sorris com toda a doçura nos malares. Diz-me algo, nas suas palavras corretas, e nos levantamos aos poucos. Os dedos cruzados, calcificados, como uma montanha que está ali, e sempre esteve ali. Lado a lado, pele em pele, corpos sussurrando, vislumbramos o infinito na parede – imaculadamente branca – do quarto. O infinito. Aquela indefinição cognitiva que não nos pertence, que está sempre ao lado dos outros e distante de nós. Aquela continuidade agressiva, aquela anomia pesada que deságua no fim do universo. Vislumbramos esse infinito na parede do quarto... e nos deitamos novamente. - desconhecemos o tempo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Proa

Sou o homem no navio, olhos à proa,
Desvelo o céu e o mar no horizonte
Navego ao seu encontro frente a frente
Que o fim é um portal para o lado oposto
O lado diametral e adjacente
Onde cessa a agonia e o desespero


Velejo entre os restos de piratas
De barcos devastados pela peste
E os trajes dos marujos enforcados
Por cordas do suor de seu trabalho
E espadas de corsários ancorados
Nas rochas que suportam o oceano

Estou no vão do corte e a maresia
Que cura a carne e a chaga apodrecidas
Que salga a vista e açoita o peito e a fé
Eu sou um corpo solto nas correntes,
Entregue à decisão de um deus qualquer
Ou à tragédia doce da imanência

Eu sou o homem no cais, olhos no mundo,
E na chegada lenta das galés,
Que apoitam feito um sol que se desmaia
Eu sou o homem míope no navio,
E o cadáver frio no vazio
É apenas meu reflexo junto à praia

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tarde

Encontro-te às horas, em ponto
E vamos talvez caminhar quarteirões onde o chão racha os lábios de frio
Teus olhos secos de dar dó, minha palma úmida
Trocam suas lágrimas que são gotas de tinta
Enquanto te pinto em uma moldura invisível.
Teu sonho opaco, me ocupando o vão entre a garganta e a amídala
Que eu não tenho, põe-me roxo – ou é a tinta?
Tombo para o lado, tonto do teu mosaico multicolor
Feito um búfalo que cansou da batalha
Meu peito exposto sob as rugas bovinas;
E tu me afagas como um amante que ladra.
e me sorris com um olhar de rapina, garras cravadas nos meus braços inertes
primeiro hesitas, no vazio do tempo, tornas-me dócil sob as mãos adestradas
enfim me aceitas pelo lado de dentro
com a piedade de uma virgem maria,
e o coração bondoso de um bicho.
Deito em teus braços limitando a janela,
E debruçados sobre o dia lá fora,
Do horizonte vem correndo a cortina,
Carros de nuvens como vagões de trem descarrilando chuva no chão de barro.
Tenho medo, me sussurras paciência
Vemos poeira decantando no mundo,
Vemos sementes afogando-se em lama,
E as senhoras vêm encher os seus baldes nos riachos instáveis que as ruas constroem
Se as pernas de seus casebres agüentam, me dizes, há de haver água para toda a invernada
E me sorris com a espera nos dentes.

sábado, 28 de maio de 2011

Que já se sabe

Embora faltasse tanto, já havíamos chegado;
O silêncio do barco navegando o escuro,
Serpente sobre as águas, rumor de esquecimento;
Donde a proa rompia, uma espada, a maré em ondinhas pequenas;
Espalhando-se ao longo, ao comprido, as ondinhas em séries e arcos,
E os arcos em rostos dourados, refletidos na luz nenhuma da superfície;
Dois rostos colados, o meu e o seu, e o universo de sal, imposto, o cheiro de incenso,
Intruso,
Os olhos sonhando, em transe, armadilha de bruma e madrugada morta;
Havia todo o caminho, mas nós dois já chegáramos,
E chegáramos antes do vento de anunciação.
Já havíamos chegado
Quando se hastearam os lenços brancos de partida,
Quando se ergueram as sobrancelhas de penar,
Enquanto o mundo nos olhava irrefletido
Sem nos saber.
Já havíamos chegado antes.
Já havíamos chegado com os nós atados no cais,
Mais que isso, antes de sabermos a rota,
De gerarmos o barco,
Maturarmos os corpos,
De largarmos os ventres;
Antes de tudo, já havíamos chegado
Já estávamos salvos ou mortos sob água e destroços de navios;
Já estávamos lá, onde ainda não estamos...
Já havíamos chegado quando ainda não éramos,
Quando o pó era estrela,
Os caminhos montanhas,
As montanhas oceanos.
Quando o mundo foi mundo, já havíamos chegado,
Seja lá onde estamos

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Foi por água

Foi por água,
O projeto de tudo
E o vazio da noite se deitou sobre o quarto.
Alguns bichos cantando, teu desenho escorrendo para baixo da cama,
No chão, te procuro, mas mistura-te à parede, morta e branca
Te chamo, sereno,
Respondes lamúrias e passos dos vizinhos açoitando o soalho, calada
Esqueço que sôo doente e me afasto da tua imagem, me encosto ao armário,
Há vultos lá dentro, me gritam o nome.
Não atendo, resisto. Enquanto.
Eu choro? Nunca sei se choro
Falta uma prova física, que é a gota de lágrima
Que não rola!
Que vale a fortaleza por muros, se por dentro esfacela?
Corri feito um sopro e me retiveste,
Em teu chão cresci arbusto, e verde
Seguro
É vez para a poda
Te vejo cedendo, te sinto secando,
Tua boca secando, teus olhos vêm tristes e
Desarmam meu peso, deságua-me um rio de culpa
Sem querer,
E me afogo,
Sem hesitar.
Atento os ouvidos, e tudo que ouço é teu canto,
Datado, antigo,
Ao tempo que meu espírito se deteriora e não te permite frescor
Talvez deva seguir, eu fico.
Teu caminho adiante, o meu não vai longe.
Estou preso à pedra que ergui sobre as pernas,
Estou preso à minha dor forjada, construída,
Nos anos de ser estático e velho que me fiz.
Eu tenho meu corpo e as minhas velas de aniversário. Acesas.
O resto, te devo.
E felicidade, que não te posso dar.
E felicidade.
Te atas a meus braços, são braços de rocha,
São massa e mais massa. São só de mentira.
Te atas a mim. E a toda mentira.
E a todo mal-grado
Teu rosto é tão terno, tua vida é tão clara!
Te devo tudo
Só posso te dar liberdade.
E olhos para ver
O tempo lá fora.

domingo, 3 de abril de 2011

Hipercronia

Fugiu-me a sensação do tempo
E o seu sentido quase tangível de pôr ordem no mundo
De se alegrar após se entristecer e apaziguar depois
Da discussão.
Nosso discurso é coeso, ainda assim, e eu te decoro cada gesto,
E cada palavra,
Mas se arrasta pela languidez de um infinito não demarcado,
(Que justamente por isso pode ser infinito)
Enquanto sinto cheiro do tempo virando e ouço o coro dos choques de gotas
Em cadáveres de escamas das árvores.
O som reverbera e vejo moldar-se contra o teu corpo; estático, de pé,
Translúcido sobre a expectativa de ser-te eternamente
Todos os relógios sumiram, porque não devem existir relógios.
Comprimir-te com todos os músculos, até que te tornes uma massa opaca e
Disforme, conforme a forma – meus braços
E depois conduzir-te de volta à tua realidade de perfeição sincera; toda essa perfeição que
Está para lá do que enxergam em casas, cubos e cantos.
Tenho certeza que um pensamento se extravia
Com ele um quinhão de quididade
E jamais conhecerei sua certeza;
Não importa, porque em mim és fonte inestancável
De remodelo e criação.
Tu me festejas com tua liberdade,
Refestelo-me liberticida,
E te mastigo, antes. E te amo.
Depois, perder o decoro.
Perder o decoro entre os teus braços,
Entre tuas pernas,
Entre o teu mundo e a natureza que te faz gente.
És real.
E faz disso teu ofício e salvação.
És real.
Não porque posso tocá-la, mas porque a tua existência,
Pelo simples ato de ser,
Evidencia a indiferença do vazio que te entorna e amordaça
E emudece
És real por não caber nos versos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Esparadrapo

Contra o céu, o grito se apaga
como uma estrela que a nuvem engole
e digere no seu estômago de vapor
e nuvem.
Como somos pequenos, olhe o espaço!
Por que nossas cabeças nem alcançam seus ombros, se nos julgamos grandes frente aos próprios astros?
E lá fora, o vácuo, que chamamos nada,
Na verdade é tudo, é pura matéria,
E a lembrança de que jamais nos ouvirão

sábado, 12 de março de 2011

Ao absurdo

...Eu ia dizer que estivera desencontrado, e que me achei. Entre as luzes evanescentes que pincelavam teu cabelo, entre o tiquetaquear dos relógios que encerraram todas as centenas de encontros miudamente premeditados e absolutamente imprevisíveis; entre os vultos que formaste frente aos meus olhos – esses vultos de sombras coloridas, feito carrosséis pintados de gizes de cera, em caleidoscópios exóticos – entre os surtos convulsivos dos meus músculos tangendo tua pele, vislumbrei-me.
Diria que havia uma ilha, eu, e que tu foste a mão alentadora a me alcançar o ventre, e que ergueste, pilar após pilar, - vão após desvão- aterrando-te os próprios medos, uma ponte sideral, eterna, e me guiaste pelo pulso a terra. Diria isso a te colar os lábios e te encher desse vento tórrido que meus pulmões imploram por te soprar.
Aí, com os teus aromas cálidos de mulher, embalarias entre os teus passos de malabarista habilidosa um bolero efervescente a transbordar meus poros, a preencher a concavidade dos meus ombros, onde te poria para ninar, desejando ser o dono absoluto da tua vida, sabendo que não aquiesceria a um só comando meu.
E sempre que meus lábios tocassem tua pele, escorreria um Jobim macio a insuflar-nos, simultâneos, com os acordes em decrescência de “Eu te amo”. E cada vez que seu dedo repousasse em um clique sobre a tecla, teus dentes cortariam o ar que recobre meu corpo como um lençol, e nos lançaríamos, ambos – insulados dos universos que nos rodeiam – em um universo novo, unicamente nosso, onde as palavras têm 5 dimensões e as paredes, infinitas.
Eu ia dizer que há uma agulha perene e gigantesca que me perfura o estômago quando te despedes. E que sempre quero correr e me agarrar aos teus pés e pedir-te que fique, para sempre. Não para o sempre dos seres humanos – pois não vivemos no tempo dos homens – mas para o nosso sempre, sem fim dentro de cada desígnio.
Eu ia acreditar em deus, em deuses, em miríades de seres superiores! Pois apenas todo Olimpo e Asgard em comunhão poderiam ter-nos cruzado os caminhos, e ter-me permitido reconhecer-te entre oceanos de treva, entre multidões de angústia.
Eu te faria sufocar, por uns instantes, para que teus olhos injetassem no mundo – ejetassem do monumento parnasiano e exato que ousas chamar corpo – essas tuas lágrimas de pavor. Essas tuas plácidas lágrimas de pavor. Eu ficaria quieto, silencioso, no aguardo que brotasse de ti um rio, como brota da pedra, água, como brota da pedra, flor. E que esse rio me inundasse, me transfigurasse em símbolo! Em um símbolo claro e indolor para grudar dentro do teu corpo. Para embalar-me em teu cativeiro.
Eu ia dizer que estivera perdido e fui salvo. Que mais que isso foste para mim, mais que salvação da carne, muito mais que a expiação dos pecados; só tua sombra sobrepuja todo sacramento! E eu ia abraçar-te forte contra o meu peito, para que teus ouvidos pudessem sincronizar nossos corações, para que o teu rosto pudesse sincronizar a rotação de cada eletro, no menor dos bilionésimos de segundo, e para que meu corpo agarrasse a parte mais atômica do seu, só para ter-te – ainda que em parte, em fragmento, em esquírola – comigo, para sempre.
Eu ia perscrutar-te o corpo, vagaroso, e descobrir cada sinal em relevo e cada depressão abissal, e te mapearia, em uma introspecção topográfica, em um delírio de cartógrafo, desenhar-te-ia sem equívocos, em cada punhado de matéria que te existisse. Assim, te saberia a cada milésimo de instante, a cada diferente curvatura das rugas da tua bochecha, tão milimetricamente projetadas para meus olhos.
Perfurar-te-ia os tímpanos com a agudeza das palavras apaixonadas. E tu me sorverias todo o léxico, e o vácuo deitado na minha boca ainda clamaria por dicionários, mas não haveria verbetes que bastassem, em todas as línguas do universo!
Insistiria que somos vão e densidade, e que isso é o amor! A combinação inquebrantável de espaço e massa, e de plenitude mútua, dupla – e apenas dupla. E que tu és esse ser minúsculo que me ocupa universos, e me eleva a um deus multiforme, invariavelmente onipotente, invariavelmente teu! E que nós somos um para o outro, como para todo corpo existe um anticorpo, e para toda vida, morte.
Discordarias e eu cederia, não porque te amo, mas porque pretendo amar-te infinda e decididamente.
Decidiria então que fui errado; que era forte então tornei-me fraco. Que era cético e verti-me crente... e não acreditaria em uma palavra seca que me fugisse da boca... Eu estava cego, agora vejo. E tudo que vejo é tua bonança.
Então me virarias as costas, e eu te contemplaria feito um cálice. E eu sucumbiria e quebraria em cacos. Nessas oscilações breves do amor absurdo ao medo nauseante. Apertar-te-ia forte, e tu serias sólida, e serias firme, como um bloco do mundo e das coisas do mundo. E a cada beijo comiserado, umidamente tatuado pelo meu corpo, eu seria menos dono de mim.
Choraria por não poder controlar-te os sentimentos e por estar abaixo das tuas vontades, choraria por não me deveres tudo e não me amares sinceramente. Ainda assim, rogaria ao mundo que me perfurasse com todas as facas guardadas para a tua carne, pois do meu sofrimento espúrio e lancinante jorraria – feito sangue – amor.
Descobriria que eu te amo, te amo de morrer. De um sentimento que jamais será expresso fora de nós. De um desespero que não encontra na palpabilidade um fim, que não encontra sob os pés um solo. De um anelo doce e sombrio. De uma entrega doente e curadora.
Descobriria o mundo de caminhos, e o desmundo que á a tua estrada. E que nessa vereda sinuosa incrustada no corpo de montanhas, que entre atropelos e abismos, que entre escarpas e despenhadeiros, conduzem ao caos das suas entranhas, arriscaria a vida e a sanidade. Arriscaria o brilho dos meus olhos!
Que somos impossíveis em princípio, e somos a certeza imediata. Descobriria que o teu corpo só existe em mim porque universos se entornaram nesse intento! Que tu és a força irrefreável, e eu o objeto irremovível. Que sou o Deus a criar a pedra que jamais poderei levantar. Que somos o inverso do tempo, o contrário da espera, a exata demora... nós somos a inobstância da categórica muralha entre o infinito e o mundo. A porta inexoravelmente cerrada.
E o nosso amor é a aríete.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Meu campanário

Sonhei que era antes, e a tua sombra
Nascia do interlúdio entre os meus braços
E a torre do teu corpo, um campanário
Distante, nunca antes avistado,
Oculto sobre restos de sirenas
E rochas e espólios de piratas,
Os sinos, calafrios nos gramados
Da costa, da escarpa esverdeada;
Os sinos, divisando o horizonte
Em ontem e depois, em claro e noite.

Sonhei que teu abrigo era a clareira
Oblíqua no silêncio dos meus ombros,
Segura, no confim da minha garganta;
E o êxtase e a angústia te aguardando,
Detidos no abismo entre o instante
E a ponte incerta, o mundo e o precipício,
À espera de um ponto no infinito,
Guardados a torpor de naftalina,
No vão de um armário escuro e resignado,
Como um vestido que se guarda ao baile

Acordo e estás aqui, serena e quente
E lúcida de amar-me intermitente,
E plácida de ter-me ininterrupta,
Como posse qualquer, ou como um deus.
Navegas pelo curso do segredo,
Ainda que o ardor contra tua pele
Esconda-me o oceano que devastas.
Tu és como um navio alçado ao longe,
Como uma ilha atada ao horizonte;
E quanto mais eu nado, mais te afastas!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Edifício

Atamos nó do que era só tormento,
Fizemos tempo de angústia e espera,
E a tua presença, feito a primavera,
Semeou depressa encontro e encantamento

As mãos nas tuas, vi a estrada infinda
E o deserto, onde nos encontramos
Juntos dormimos, dormimos e acordamos
Mas a sonhar seguimos, e hoje ainda

Na alvorada estamos, de outro sonho,
Erguido no horizonte, dentre tantos,
Com a flor da eternidade – quão imenso!

Nesse andar infinito, em que nos ponho,
Que tu me tocas, sou feito de espanto
E eu te toco, és feita de incenso

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Bastante

Existe,
Na suspensão da trama,
Na supressão do riso,
Na condição do amigo,
Na escuridão do drama,
O frio
Cabiam, na imensidão do mundo
Os rastos do andarilho,
O ruído destes rastos,
O fraco do juízo,
O frio do ladrilho,
E o corpo
Enxergo,
No vão da tua figura
O encontro do futuro
Com o ausente
A tua esquife escura
A perfurar um rio, a perfurar o aço,
O laço do presente
O escopo dos meus lábios:
Teu ventre.
Encontro,
No espelho dos teus seios,
No ímã da tua cintura,
No véu da tua aparência,
Meu tempo.
Encontro,
No abismo das tuas coxas,
No sal da tua pele,
Na calma da tua boca,
Alento
Conheço
Do intento, a origem
Do idôneo, a essência,
Da verdade, só o medo
Vislumbro
O confim da permanência,
A imagem da vertigem,
O engodo do segredo,
O encanto do meu corpo
No teu
Entendo,
Cada átomo de coisa
Cada lágrima de escolha
E o descaso que imprescinde
O adeus.
Desconheço,
A inércia do longe,
A angústia do olvido,
O prazer do sossego,
O perigo
Espero
Da verdade, o juízo,
Do sorriso, o apego,
Do palor dos teus dedos,
Abrigo

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Poemas antigos

Estava lendo meus textos anteriores à criação deste blog e resolvi postar 2 sonetos e mais um texto dos quais me havia esquecido

Errante
31/01/2010

Por que tu segues? Segues em tormento
E desse peso e mágoa se matando?
E com as lágrimas se acostumando?
Por que não passas brando como o vento?

Aonde leva essa tua caminhada?
Por que não ficas uma vez na vida?
E vê se ao menos cura essa ferida
Que te causou a vã e torta estrada

Chega de errar, cigano, em todo cais!
Se as veredas que teus pés correram
Levaram-te à armadilha onde estás

Se não fugires, calar-se-á chorando
Como soldados que a marchar nasceram,
E, sem viver, hão de morrer marchando

Abandono
09/02/2009
Não há de discutir, oh, meu amor!
Se eu guardo o que penso no meu peito
Se eu que vou deixar de ter um jeito
Não vamos discutir, faça o favor

Não grite pelo que eu não lhe falo
Melhor silenciar sem dar palavra
Melhor soltar as mãos das mãos laçadas
Não vamos nos partir em mais pedaços

Não resta guardião dos meus pecados
Não há religião sem nossos braços
Percebo o que aprendi no que não sei

Não há os nossos pés nas vãs estradas
Não há mais nós, só eu, você, mais nada
Entenda, meu amor: Deixá-lo-hei

Pecados
10/02/2009
Do que me vale a liberdade santa
Se ainda há olhos para me olhar de banda
Quando o que eu faço ou digo não convém?
Melhor seria ter de carcereira,
A solidão cruel, mas passageira
Seria minha, ao menos, de mais ninguém
Pois se eu somente tranço os seus olhares
Com meus olhares, mesmo que discreto
É tragédia qual o descarrilar de um trem
Pois se palavra qualquer dia digo,
Que não ouse chegar ao seu ouvido
Pois meu castigo será, em muito, além
Da imaginação do mais cruel autor
Que desnodoa os dedos com o horror
De cenas de suplícios colossais
Do que me vale a liberdade esquiva
Se entre nós há ainda a cerca viva
Que nos separa qual dois animais?
Melhor seria se como os de Verona
Restássemos sobre a mesma terra santa
Da onde iríamos nos levantar jamais!
E qual metades frias de Carraras
Em nosso findo leito, cara a cara
Repousaríamos em nossa gruta em paz
Do que me vale a liberdade burra
Se a vaidade é uma besta escura
Que crava os dentes na carne de meu ser?
Devora-me por inteiro, minha esfinge
Decifra-me parte a parte, mente e finge
E eu finjo que não penso em você
E essa liberdade gaga e rouca
Aflige o meu peito de repente
Como uma chama quente a tremer
Do que me vale estar em sua boca
Se nem seu nome cabe em minha mente
De tão grande pecado que é te ter

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um só barco

Contudo, me atenho aos teus pés
De onde brota o monumento rígido da tua presença
Feito a raiz de imponência frágil da qual liberta
Um arbusto muito verde e muito firme.

Espero, porque a espera é uma armadilha
Que se constrói à revelia do aguardado,
Que a espera é só o engodo do aguardante,
Que a espera é só o efeito da aguardente
Espero o teu caminhar, te deitar, me sorrir,
Unir-me o teu corpo tenro, pela cintura
Encher meu pulmão do teu gás carbônico
Me matar um pouco.

No entanto, teu calor queima o ar que te comprime
Distante de mim mais de um dia
E há poças no chão, que encimas como um basilisco.

Meu silêncio é uma gruta talhada na pedra, e eu te quero aqui dentro.
Que decifre, com seus olhos simples, todas as pinturas rupestres
E as fendas na rocha
Como elementos da história velada em cada segundo presente.
Como os tijolos da muralha que me encerra e eu preciso transbordar.

Eu estaria aí, comovido, as mãos em ti
E tuas mãos em mim, como a refém que fazes de ti mesma
A face consternada e úmida, e a pele quente.
E as pernas descansadas do caminho.
Mas tenho as mãos distantes do teu corpo,
E tu estás aí, de pé, com os outros.
Eu já estou deitado. E sozinho.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

segundo seguinte

Minha face é a face cortada
E meu chão não tem pé
Todo teto é muito
Se eu só saio centímetros do chão
Todo corpo é só manta
Que por baixo é só vento
É de vento que eu faço
Meu sopro apressado
Minha pressa de espera
Minha espera é só sola de madeira taqueando no soalho
Imitando o temor que é o tempo.
Essa coisa mesquinha, que é o tempo

Eu aspirei ar
E meus pulmões tocaram pedra;
É da pedra bruta que nasce o ofício do lapidador
Mas toda pedra é só pedra no pulmão.
Eu respirei perfume
Então cuspi maldade
E a maldade é ácida e corrosiva
O mais intrincado problema da alma

No fim das contas, não teve estrada percorrida,
Nem areia revolvida,
Nem poeira revirada,
Só houve branquidão e breu
Alternados
Com a pretensão de serem mais que isso.
E houve você, como petróleo jorrando dos azulejos da cozinha
E mais opaca.

Eu estive pensando
E descobri que não sei o que eu sou
Só sei que eu queria ser gente