domingo, 12 de dezembro de 2010

O abstrato imediato

‘Você é o meu Pierrot’ você vai ser sempre meu Pierrot. Mas sem certeza de tudo; o que era lembrança e o que era hipérbole de lembrança, isso e aquilo, indivisíveis no conjunto das articulações pretéritas. ‘Você é o meu Pierrot’ era a verdade com clareza sólida, documentada, cada sílaba drenando um pouco de espaço junto aos tímpanos; lembrava tê-las tangido, as palavras, com mãos de oleiro, transformando-as primeiro em um jarro lindo, uma caixa leve – ambos ocos – que esboroaram ao compreendê-las para lá da estética. Você vai ser sempre o meu Pierrot era a sincera dúvida. Poderia ter-lhe dito isto também, ela, mas ele já não sabia se ouvira, se criara, se modificara na moenda vulgar das noites sem dormir, ou da cama suada de delírio e choro.

Contra o espelho, aproximando suficientemente o rosto ainda notavam-se as chagas urticosas, quase que pústulas, dos dedos segurando o queixo para fixar-lhe nos olhos outros olhos mais dotados de certeza. ‘Você é o meu Pierrot’ – Você é meu Pierrot – Você vai ser sempre meu Pierrot. Aqueles dedos que plantaram o malogro da autoconsciência tão ferozmente, em um toque tão brando. E a memória, por incerta, desfecha nesse inferno dual que não se revela o Pierrot finito ou o Pierrot infinito.

Do ser-Pierrot não brotará algo melhor – é o infinito – como “não há mal do qual provenha o bem”, não há breu que gere algo que não breu. Se o dia sucede a madrugada, não nasce desta. A madrugada não é senão o não-dia, a distância entre o desferir do golpe e o golpe não é mais que mal parido de mal; entre a ferida e a cura, contudo, manifesta-se o bem do ungüento, nascido noutro canto. Não existe destino ao Pierrot ou alternativa que não a de erguer-se e vestir-se no seu traje monocromático de paz e treva.

Por mais pura falácia contenciosa que seja.

Direção e sentido. E sentido da direção e do sentido. Segue para lá, de trabalho em atalho, de moça em moça. Mas você é o Pierrot, não esquece, admoestava-se, por mais que esfregasse a imundície da lágrima sobre as bochechas.

Do alvor da alvorada,

Do silêncio do leito,

Dos esteios torcidos,

Do encontro da estrada,

Só a falta.

Ontem eu A vi, tomando sol feito um lagarto de silêncio e cor, sobre as pedras, sobre a areia, noutros braços. Ele é o meu Arlequim, ter-me-ia ferido Ela, caso perguntasse. A maciez me embotou os olhos, de longe. Eram, juntos, como frutas bastante doces para que à distância se pudessem ver as polpas expostas, suculentas. E ele era o Seu Arlequim.

Sobretudo, contava as horas com a destreza com a qual destacava, carimbava, assinava e arquivava os papéis, e com o mesmo ímpeto de simplesmente avançar em uma existência desfigurada e cruel e, mais que monótona, sem motivo. E o motivo, pensava, é a demanda do corpo como o descanso é a do insone, que circunda o sono com tal passividade que transforma seu desejo em intangibilidade, e de intangibilidade em distância inalcançável, que é a que divide o homem-que-quer do homem-que-é.

E a ausência de motivo deveria ser traduzida em negrume e nada. O desmotivo antagoniza o tudo com a mesma força que o positivo enfrenta o negativo. A binaridade de ter-porque e não-ter-porque é a mesma que reflete no espelho sóbrio do universo o fulgor da vida e a frieza canhota da morte. É a dicotomia entre estar e ser – o desmotivo carrega o homem à coisa com a velocidade própria das transfigurações dilêmicas. Ou é Coisa ou é Gente, e se passa de um ao outro, o faz no milésimo de uma desatenção.

O que era vida verteu-se em espera dos tempos vindouros, e os porvires converteram-se em expectativas. E o objeto que fora pessoa, no aguardo do aguardo. De uma contingência rara, de um torpor eterno, em um tornar-nada qualquer coisa. E entre optar pelo bom ou pelo ruim, calar-se. Não há continuidade sem realizar escolhas.

Desmotivo ao Descontínuo. ‘Você é o meu Pierrot’ sendo a pedra chata única, ondulando, refletindo, afundando e sendo novamente lançada à superfície inevitavelmente dura e plana e despida de fluidez de sua mente. Mal lembro de quando eu vivia, diria, se tivesse o advento do pensamento, próprio dos que são e não dos que estão-aí. Não se conduz do preto ao branco – novamente; isto é o que rege essa orquestra desenfreada rumo ao eterno negativo, ou ao descontínuo contínuo do não-ser – em oposição ao contínuo descontínuo do ser.

Eis o problema da regressão homem-a-desomem. E eis o seu motivo: desmotivo. Sem o reciclo externo, ao ex-gente não há salvação. Por si só, desomem só cria desumanidade e nenhuma insurgência que carregue e arrebate os pilares do in-ser. E nenhuma esperança. Portanto, somente introdução de transomem pode gerar o desequilíbrio do essencialmente equilibrado, que é o nulo.

Instância no rogo, água no rio

Dente no riso, e presença

Na distância entre mim e em-mim

Só se percebe pela casa dos quarenta o que se deixou cair pela terra e se perdeu, nos entrepassos das veredas pelas quais a vida inercial carregou, inane. Lastima-se também o homem-que-é pelo que foi-se, mas o que foi-se é sempre conseqüência do que tornou-se – sim, desse jeito e não o contrário, portanto, criado por escolha própria.

Como era dado à fortuna, no entanto, formou-se chuva nas nuvens do acaso e precipitou, de modo que as lagunas do opaco preencheram-se daquele fluido renovado e neoplástico de apelido opalescência.

A moça entortou-se toda para caber em seu próprio sorriso. Eu a agrado. ela o mesmo. Tornamo-nos íntimos ao amarrarmos os sapatos antigos da moléstia do dia-a-dia, os cadarços imundos do cotidiano, ressequidos pela crueza de toda manhã. ela tem outro. O que não significa que ele a baste ou que não nos podemos, os dois.

Voltei a sentir gosto de algo chegando

Como é diferente do sabor de algo já ido, não é?

Meu hálito refrescou. É agora meu corpo a aquecer-se?

O transomem pode ser apenas um vislumbre na selva inanimada dos embotamentos, mas é suficiente para tirar da latência uma sombra de vida, como se tira da estática uma locomotiva, o esforço do motor. Não há nada no transomem de especial além de exceder-se ao seu ente e transbordar-se noutro, derramando-se líquido ou deliquescido.

A reciprocidade é característica nebulosa, mormente no que diz respeito ao ontológico. Com efeito, se a passagem de Homem a Coisa se dá de etapa única na dicotomia entre Ser e Não-Ser, é pelo simples fato de Ser aqui significar puríssima completude, enquanto o Não-Ser denota o incompleto. E o incompleto assim o é toda vez que o todo não é pleno, bastando um erro no preenchimento. Dito isto, a Coisa deve descoisar-se por inteiro para desembocar no tormento oceânico do que é Gente.

E os efeitos transumânicos têm de ser frutos de esforços sobreoméricos para levarem do nada ao tudo.

Eu a beijei, a moça. Seu sorriso carrega-me à distância dos fatos. Entorpeci-me nos dentes brancos e na doçura singela. Sou mais que era ontem.

Do tormento que resultara em petrificação adveio o alívio. A sensação da reconstrução tomando todos os ossos, como tijolos sendo posicionados, um sobre o outro, colados pela rigidez moldável do cimento, erguidos pelos braços fortes do reumanizar.

Fora largado menino nas paragens paradisíacas e matas serradas de um país tropical. Crescera com os lobos, aprendera a guiar-se de quatro e a uivar seus pensamentos e a guiar-se pelo uivo. Admirava a lua como que procurando na inconsciência de seu ato uma meta possível, o que não há para um lobo. Agora estava sendo reintegrado ao mundo. E deveria estar ereto e falar e encontrar seu motivo.

Cada tijolo, desde a olaria até sua deposição sobre um rubro irmão, era um preencher-se processual, uma injeção de identidade humana produzida pelas sutis mãos transumânicas da moça. Não existe melhor ou pior motivo entre o que expira amanhã e o que só desaparece aos cem anos. Cada um só pode ser substituído por realização ou frustração, na mesma proporção.

Ou pela superação deste por um motivo de mais valor.

Deita-te em meus braços, adormeces

E leva contigo em teu sono embalado

Os últimos vestígios de dor e açoite

Que me castigaram o peito.

Deita-te em meus braços, me beijas

E rememora cada instante do nosso pouco tempo

Que hoje estou feliz

Há uns dias falou comigo, logo depois de ter-me despedido da moça. Já reparara em sua leveza quase celestial deslizando por essas vielas ásperas. ela é lúcida manação de cor contra o vazio branco-e-preto. E eu a quero: presença e aporia.

A vontade é sintoma endógeno de ser. Sua manifestação é exclusiva daqueles que são ou caminham para serem e já se apresentam em nível quase irreversível de mudança. E contra a força da vontade – razionada e desejada – não há resistência.

Curiosa a reformalização do nada-ex-homem. Pois regenerar ser não é como criar ser ex nihilo, mas tampouco é reconstituir o ser que antes fora, como se a matéria metafísica pudesse reorganizar-se na disposição anterior exata. Reciclar a coisa-ex-gente é, afinal, ação de forças transumanas de características específicas que têm influência total na remodelação dos aspectos existenciais.

Além disso, refazer ser é também refazer-se e pressupõe autocrítica a partir da retomada da característica reflexiva do homem.

Pequei

E o pecado tornou-me alma em carne

E carne em pedra.

Bem como meu arrependimento fará

Da pedra, carne

E da carne outr’alma

Que não é a minha de antes

(pois eu também não sou quem eu era)

Mas é a minha de agora

Há, porém, – melhor que porém, ademais – o primado da memória sobre a possibilidade. E o direito da palpabilidade do passado sobre a contingência do porvir. Como se a lembrança fosse, em si, esse ente autotuitivo que esgrime e sempre golpeia mortalmente a incerteza futura.

Assim, da terra direto à rosa, o que era poeira volta a ser rocha que volta a ser a lembrança – ‘Você é o meu Pierrot’ e todo o mistério das ruelas acinzentadas guardadas entre os miolos. E de um nada lembrado – ou algo esquecido – a ausência torna-se completa e inexorável imanência; arrebatadora como uma onda irrefreável que inunda casas, terras, gentes. Inignorável.

E o fenômeno da frase – ‘Você é o meu Pierrot’ – é, em suma, nada além da revelação do que existe de visceral e extremo e que alicerça a sentença. São os escombros resultados do peso compressor do chronos sobre a experiência de primavera, reunidos sob a regência magistral do kairos, e seus arranjos polissemânticos, repletos de paladares e olores inolvidáveis.

Estabelecida está a parte última da refacção edificadora: motivo.

Reencontrei-A. Uma beleza estupefaciente despega-se de Sua pele e infesta a sala com Seu poder máximo de invasão. Correm às pontas dos Seus dedos as gotas de sangue, obedecendo ao ritmo inocente e desalentador do Seu coração tardio. A castidade se-Lhe-escorre pela pele, uma camada-armadura da qual se liberta vagarosa. Reencontrei-A, enfim, e Seus olhos pousaram em mim com a súplica de quem observa seu salvador. E eu A abracei com o abraço de quem salvará a si, salvando-A.

Só há noite

E dia

Se houve sol

E madrugada

Nossos dedos entrelaçaram-se, nossas mãos se fundiram. Sua cabeça repousou em meu ombro, repousei-me sobre Sua pele. Sem ardor na ardência, sem velocidade na pressa, cruzamos os lábios em um sinal de tempo passante e encontro de almas. Desembocamos juntos, ondas elevadas. E a calmaria ulterior da soma das águas.

O prazer do Ser já tendo Não-Sido, dizem, sobrepuja qualquer revés e medo. A plenitude da Gente é a totalidade do possível, a transcendência do óbvio. Era todo ser; motivo, memória, vigor. E era um novo ser.

Você será sempre meu Pierrot restava como dúvida. Mas como dúvida era irrelevante. Existente ou inexistente, o sempre se desqualifica quando o ser transforma-se. Você pode ser sempre. Mas o novo Você que substituiu o antigo Você já é outro. Pois ser é bombardear-se de câmbio e esfoliação, como que trocar de pele, mas fazê-lo na sua qualidade mais íntima.

Você, Pierrot, resta emoldurado em uma fotografia, em um momento-de-ser que somente pertence ao novo Você, mas não o é propriamente. Você, Pierrot, está condenado à imobilidade, mas o homem move-se!

A destreza de ser ser é o resumo óbvio da alternativa única e da condição exclusiva que baseiam a propriedade de existirmos. Ser é mudança através do tempo.

Ou se é Isso, ou se é Nada.

Sua partida é meu rumo ao Nada

Eu sou tanto eu quanto sou você

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Intercepto

Sozinho vinha, barro e céu pisados,
Vinhas sozinha e farta do caminho,
Pelas veredas que os pés tocavam,
Sozinha vinha, e eu vinha sozinho.

Sozinho iria, mais, talvez para sempre,
Pernas cansadas, peito e olhos tristes,
E cansados, e pele e mãos afoitas,
Então te vi, e tu, então, me viste

Reconheci irmãos, nós dois, em carne,
Em sangue e água, irmãos, em alma e pedra,
Reconheci-me em ti, e tão somente,

E com desvelo e dor, corpos fundidos,
Como essa eterna cruz que tu carregas
Como a prisão que eu sou, e tu te prendes