domingo, 21 de novembro de 2010

Da semiótica das nossas coisas

Se toda procura inicia no que se sabe do mundo e no que se sente de si, teu início e fim me precedem a busca. Antes, o teu princípio nasce como do poente vem à realidade a maior abstração do vermelho, que não é nem cor nem objeto e surge do lado oposto do começo do dia. Assim, és contrafação do fato, e feição do contrafeito, e te encontras desmedida, pernas cá da dialética, lábios lá.
Em mim, a investigação de ti se desenha nula quanto mais perscruto o silêncio que te adormece o pranto e o tormento. Do mesmo modo, assenta-me a névoa opaca e adesiva da dúvida, da poeira espessa que é essa secreta força que te acomete e te permite viver da insustentabilidade da latência, como quem tira o pão do próprio sangue. Teu meio é outro que não teu corpo, abrigas sob a pele certo grau de transcendência que se sobrepõe ao evidente. Tua realidade habita o invisível, e preenche-o, e transborda-o para além de sua fronteira maior.
Tanto mais me afogo no estudo da tua ausência, tanto mais encontro a solidez da tua estada. Tua presença é a verdade sem a qual todo avanço é retroação, toda coisa é perdida. Tua presença invade-me como raízes que buscam na terra a razão incessante da primavera, e já és mesmo uma árvore plantada em mim, cujas garras acipitrinas hão de levar-me dolorosamente pedaços quando me abandonarem o corpo, como se abandona o ninho.
Debalde, dicionarizo os teus sinais, ao tempo que examino tuas pernas no encalço de algo de sinóptico que me permita te compreender a essência. Analisar-te é encontrar na dispersão e no dissenso, unicidade e convenção; é, por definição, simplificar-te ao que pode alcançar o racional, sabendo que este não pode fazer do estanque, contínuo. Da parte, todo.
És, feito a neve derradeira que encerra o inverno, a última gota de festejo e regozijo, a qual meprendo, com o desespero infantil que aperto em teu peito minha cabeça, tentando fundir-me à tua unidade sólida, sóbria, ao teu poder singular, enquanto me laça com os braços repletos de misericórdia e compreensão, ser que és, de virtude e entendimento.
Seja tua explicação nebulosa, tua essência opalescente, mas teu tamanho é óbvio. Vences galáxias, de grandeza e de alcance, e és a morada de todos os astros; envolves-me, adstringente feito uma manta gigantesca que a tudo se sobrepõe. Serás o forro do céu? Teu espírito é a indefinição.
Sobretudo, partes de interrogação e torna-se análise; nasces reta e segues plano. Teu ser é a mudança. E o pavor do nada, que o futuro determina no presente, e o agora logra no pretérito. Teu ser é mudança. Tens na constância do progresso o soluço da permanência. Somente o intercolúnio do tempo separa memória e esquecimento.
Encontro, talvez, tua semântica. És dispersão no abismo dos segundos, e te perdes de ti tanto quanto te perdes de mim. Teu paradeiro é desencontro. Teu edifício é desvelar. E mesmo assim não existe energia como a que em mim se cria quando te toco a face; a palma da mão formando uma espécie de concha onde teu rosto se refugia. És puríssima exatidão.
Não existe sentido maior que o do peso do teu corpo, do descaminho das tuas palavras, do desatino da tua consciência. És máxima. És o estado do completo, o limite do abundante. Serás essa lembrança e esse esquecimento, esses abraços, essas partidas. Serás sempre tudo. És tudo. Somente serás nada caso o nada que tu fores seja a plenitude do que eu jamais serei.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Conjetural

O isolamento encerrava algo de escuro no silêncio mofado do quarto. Algo que talvez explicasse o cheiro de guardado de todos os vestidos e das saias. Acendeu um cigarro com a displicência que varou o isqueiro sobre a mesinha que suportava o abajur alaranjado, regalo colorido daquele professor que fora à Espanha com a ex-esposa.
País fascinante, pensava de vez em quando, e tinha o costume de verificar o extrato da poupança, ainda que tendo total ciência da falta de fundos. É mais ou menos igual a conhecer a vida em seu estado de arte, e mesmo assim vivê-la para engoli-la em reflexão.
Porque não basta a estética, tenho certeza. E baforava a fumaça asmática do cigarro, o ar em volta ressequido como o ventre. Se bastasse a estética, o mundo seria essa eterna contemplação que hoje é... esse eterno contentamento que hoje vejo...
Talvez baste a estética. Engraçado que a estética conduz à estática, conjecturou, como se conduz um cavalo à baia correta, sem maiores explanações. Mas desacredito da repetição. Repita muitas vezes o objeto de vislumbre e entenderá o que digo, segredou a si mesma.
A atmosfera estava quase dura, de modo que o quarto poderia ser um bloco maciço onde ela fosse só mais um pedaço de madeira. Escreveu em um papel de recados: decidi morrer intoxicada, não pela fumaça de cigarro, mas pelo gás tóxico da sublimação do meu ego. E pelo veneno que escorre das minhas palavras.
Riu-se baixinho. O mundo é estética, concluiu.
O mundo só pode ser estética, e amaldiçôo todos que o neguem. Se não, me expliquem como se produz e envia uma mensagem? Como nasce e morre um beijo?
Eu mesma entendo pouco disso por feiúra. Porque o desprazer estético só pode ser superado pelo desprazer estético alheio. Concluo, portanto, que a beleza é um fenômeno a priori, que está mais no receptor que na fonte de estudo.
Inclua aí toda a noção de padrões estereotípicos socialmente prefixados, e mais sentido ainda fará. O ser já é belo antes que exista.
E se já é belo antes que exista, já tem uma essência, os dedos estalaram. Uma essência, sim, pois definida sem a participação do próprio ser e sem o usufruto da sua liberdade. Convencionado fora dos limites da sua definição.
As hélices do ventilador moveram-se, primeiro lentamente e depois em círculos consagrados. A aura opaca dissipava-se, os cabelos cheirando a alcatrão. Como dizer que um caráter não se forma a partir de uma pré-definição, então? Se não é nada ainda, pelo menos já é bonito ou feio, e já está definido para sempre sê-lo.
Portanto, sou feia desde antes de nascer. E se minhas palavras diretas e agudas só fazem insuflar meu ego, para que eu possa cobrir tudo que se a mostra não seria aprazível aos olhos, o mundo só está recebendo o troco em moedas ferventes.
Do mesmo modo que se explica o cheiro de guardado dos vestidos no armário...