terça-feira, 26 de outubro de 2010

Oásis, decididamente oásis

É como se eu a espreitasse por entre as cortinas, nervoso, e você fosse o estigma da minha privação, envolta em seu esboço de mundo e na sua grandeza translúcida. Você baila como um morcego no silêncio escuso da madrugada, e é lindo ver que suas pupilas alcançam além do breu. Tem uma consciência selvagem do seu próprio tato, que reveste tudo, enquanto seu ser resvala nos cantos do seu armário com um pudor amedrontado, disfarçado de força.
Da rigidez acipitrina do seu abismo de glória, eleva-se, feito uma lua de um palor cálido, e abre sua boca, tal que liquefaz o ar que a embala. Algo em mim deliquesce. Outro algo esboroa. E estou na estante das suas digressões. No calor cisatlântico do seu hálito, degeneram-se objeto e esforço; espelho e imagem. Dessou-me para descobrir que há muito já deixei de ser. Hoje, eu só estou; e tudo que estou é a contrafação do lirismo, a vacuidade sideral de uma fortaleza agonizando.
Entre os vales ancestrais deitados nos seus ombros, corre um rio de magma que escorre acidentado, seu corpo abaixo, em uma torrente ciclônica, incontrolável, urgindo em tomar-lhe cada célula do organismo, cada gota da sua feminilidade absurda. Sua saliva e seu incenso são a mais absoluta cura para o mais absoluto mal; são fontes estupendas onde me banho na mais resignada ablução.
Sua anunciação é sincera e casta, e irrompe, com o fulgor e a legitimidade da aurora, em um interlúdio entre o outono e a primavera, entre sandice e santidade. Contra meus olhos, a topografia sinuosa, alpina, da sua carne, oculta, feito um eclipse impredicável, o silêncio poroso e gigantesco do que existe após seu corpo. É como se você fosse o porto derradeiro ao qual me ato, desesperado, em um ensaio de antifugacidade. Como se fosse o cais extremo que separa nossa sinestésica esfera de infinitude, do sórdido oceano ulterior.
Em mim, algo de sereno se edifica, como se eu fosse o lápis que ora intercala entre os seus dedos, ora deixa repousar num papel – feito branco leito –, guardado teleologicamente para sua libertação. Move-me a continência rara da sua permanência, o torpor profundo que sua presença queima na minha pele, feito contivesse no seu ser de segredo e quietude, algo de bestial com que suprimisse meus nervos e vendasse meus olhos.
A confluência de nossos dedos nos solidifica, de modo que nossa deterioração será calma e lenta, irmãos que somos, de além-alma e além-sangue. O pranto encolhido no seu cenho é a insígnia amarga do desalento abissal, e pelo fruto onipotente da sua felicidade, o conforto e o calor dos meus braços seriam a estrela fúlgida no vértice do horizonte. Prende meu rosto entre as mãos como se gravasse em mim o eterno reflexo seu, como se me apunhalasse com a abjeção da finitude e com desatino de tê-la. Descansa os seus dentes sobre os lábios com a inocuidade impubescente de uma deusa lacônica, imaculada e peremptória.
Investigo seus olhos: são a origem de tudo criado e destruído no mundo. Apenas dos seus olhos podem ter nascido a palavra e a guerra, a certeza e o engodo. Só eles podem ter gerado a loucura. Suas pupilas são a projeção do infinito, o berço da minha absolvição, de onde renasço, com o fervor e a comoção com a qual renasce um filho.
Acordo embrenhado em seu colo, perdido entre as veredas que conduzem à sua boca, o símbolo máximo da nossa unicidade. Seu odor me atravessa como um tiro, como se eu experimentasse a sensação última, o último perpassar dos seus dedos pelas minhas vértebras. Seu queixo é a gênese de toda necessidade. Do seu rosto nascem náufragos e tempestades. Reconheço sua face como uma gruta profunda, ardente, indecifrável. Encontro seu pescoço entre os retalhos guardados em algum ponto remoto do meu já distante corpo, e dedico-me a interpretar as nuances da sua existência.
Você é um estado de todas as coisas. Um entrave entre o sólido e o sublime. Seu rubor é uma avalanche catastrófica e sua entrega, a maior de todas as luzes. O seu amor é uma almádena imensa, que perfura o céu como a lâmina irrefreável de uma espada.
E nosso encontro leva ao ocaso, à madrugada e ao alvorecer.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Intrusão

Estávamos muito presos aos aspectos endeusantes da nossa filosofia e esquecemos o que aquele torpor ideológico nos trazia de desconcertante, de vulgar. A juventude, nossos corpos, eram algo de estupefaciente, me faziam rodar entre os braços inesgotáveis de homens inesgotáveis.
Eu descobria a vida como quem descobre petróleo no quintal, sem reparar que o quintal é do vizinho. Quando me apareceu, estava tão ocupada com a fruição e o deleite da minha cabeça que demorei para enxergar seu brilho que explodia pela casa.
Eu era uma ilusão sob panos de intelectual anticzarista, anti-hierárquica. Estava muito convencida da autodefinição do ser, da sua liberdade, pela conveniência carnal de viver de um prazer ilimitado e irregular. Meu raciocínio era forte. Suas conclusões, não.
Você me estapeou. Consegui notar seus dedos na minha face quando ressuscitei o espelho da minha consciência e me encarei, como quem não se vê há séculos e se enxerga morta, em um banquete estéril. No convexo de um garfo de prata.
E eu te odiei, como se odeia um criminoso dos mais hediondos. Senti vibrarem, em acordes funestos, todos os pedaços de mim que eu achava cadáveres: meu orgulho, meu medo. Pr tentar me corromper ao me guiar pela mão para um caminho vazio, cêntrico, subjuguei-o. Extraí sua força do meu peito, neguei seu prazer no meu corpo. E fui tão minha antítese ao fazê-lo, que já não me era mais.
Privei-me do prazer, pela primeira vez. Por asco, por culpa, mastiguei o pão, mas não permiti que seu calor incandescesse meu esôfago. Eu morria aos poucos, como morre uma estrela. Cercada do nada.
Morria, porque sob o meu exoesqueleto intumescia um novo corpo, que rompia a minha velha armadura de quereres tórridos e profundos. Rompia o olor doce das minhas noites, das minhas confusões de tripas e línguas.
Dilacerei aquela balaclava, com o afinco de quem está disposta a voar ao ilimitado, sem saber se minhas asas terão forças e se, das nuvens, minhas lágrimas não hão de tornar-se chuvas para os que ficaram em terra firme.
Eu lhe dei a mão, como se dá a mão a quem ama, e virei as costas, como quem se vira a um cachorro. Eu ouvi você chorar e estive estática. Eu ouvi seus pés diminuindo, e estive estática.
E quando foi embora, projetei-o sobre cada alma escusa e cada mente enclausurada que cruzou meu caminho. Edifiquei, sobre cada projeção monocromática nas paredes empoeiradas dos dias, um novo você. Em um desespero de tê-lo de volta, mas sendo você meu, não eu sua. Tendo você como uma relíquia no meu porão.
Subjuguei-o dentro de mim. Hoje é um parasita arrancado, um vírus erradicado, um mal extinto.
E eu não sou nada mais que sombras.

Corrida

Do tempo, que o teu corpo inexiste,
Da estrada, que a tua alma me obstrui,
Da mata, pr’onde a tua mão conduz,
Do cheiro etéreo que desmancha as nuvens

Da noite, quando afagas minha insônia
E da madrugada, quando selas meus pulmões
Feito uma mão incólume e poderosa,
Feito um naufrágio leve e planejado

Do tudo lembrará meu peito,
Quando soar ao pé do meu ouvido
O ruído dos teus passos escapando

Do riso, que carrega nosso pranto
Do abraço, que completa nosso riso,
Do mundo, que me tiras em tua fuga...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A coisa e a imagem

Ao castor


Com que força transforma a ausência na loucura
E o sozinho no amigo!
Basta que exista em mim
Para que eu seja esse túnel imenso,
Essa gruta aberta
Por onde entra, como se fosse a própria vida,
Onde perscruta, da altura maior da sua onisciência.
Basta que seus vestígios ainda descansem
Em qualquer gaveta do meu corpo
Seja uma folha do seu cabelo,
Seja um cântaro do seu tormento,
Seja um sinal do seu perfume,
Para que eu sinta a festa do seu peito
Insuflar minha alma
Como se enche um balão
De ar! Desse ar moreno
Que desenha as runas da sua própria,
Tênue,
Atmosfera.
Essa que a circula o corpo perenemente,
Como se a protegesse da servidão da cotidianidade
Basta que ame,
Do infinito da sua autoconsciência desalentadora,
Da sua liberdade rígida e firme,
Do seu compadecimento cênico,
E o universo se tornará incenso,
Como eu me tornarei um objeto
Ao serviço das suas mãos,
Todo seu...
Basta que ame,
Da sua sensibilidade bruta,
Com sua tenacidade tórrida,
Do seu confrangimento ígneo,
E enveredaremos pelas dobras do horizonte,
Pelos jardins desconcertantemente coloridos
Pela aquarela visceral
Do encontro das nossas pálpebras,
Pelo novelo das nossas veias unidas,
Soldadas. Pelo calor da sua carótida,
De onde sorvo muito mais que o sangue.
Do seu pescoço, arranco a náusea basilar,
O néctar fundamental...
A felicidade suprema
É ter o seu braço
Com que me apoiar na minha inalterável convalescença,
E oferecer-lhe, como um buquê, o tempo
E o que em tempo não cabe.
É insistir que sejamos Nós.
Na nossa mais noturna dimensão.
Da alvorada mais delicada e sensorial das nossas peles,
Ao mais profundo e recôndito diálogo.
Do desdobrar das palavras arqueadas expelidas pelas nossas bocas
Como que sagradas, como que cuspidas em uma prece inesgotável,
Como se só pudéssemos encontrar a nós mesmos por mais um segundo,
Dentro daqueles olhos sedentos de sol... dentro daquela lágrima despida...
Como se só restasse a gota de algo.
A felicidade sublime
É estar, contigo, frente a frente. Tête-à-tête.

Pois bastam dois espelhos que se encarem
Para refletir à eternidade.