domingo, 11 de julho de 2010

Crônica dos desajustados

Noto-te distante. Como se caminhássemos em sentidos opostos, invariavelmente. Vejo teu corpo se mesclar ao ocaso, o sol às tuas costas. Vejo teus olhos desprenderem-se dos meus como um último adeus. Dizes “te amo” com aqueles olhos. Dizes “te amo” de longe, sumindo, pois não há vontade de fazê-lo aqui. Dizes “te amo”, já a espera de ser engolida pela linha do horizonte, como se estivéssemos prontos.

Para mim, a estrada é ínvia e o presente é um fardo. Para mim, teus pés cravados no chão são um suspiro, mas tuas asas batendo, um tufão. E o que é que eu quero, meu deus? Eu quero a brisa.

Choro, e cada lágrima envereda por um sulco talhado na minha pele e se acumula no fundo do meu peito. E há o desconhecido a flutuar no lago, e há tanto medo! A escuridão me assimila aos poucos e para mim há apenas uma luz da qual eu pareço estar fugindo, porque não consigo mais me aproximar.

Lá estão teus olhos, de novo, duas lamparinas. Têm fulgor próprio e eterno. E brilhando daí os enxergo, mesmo sem vê-los. Já foram faróis, hoje são alertas.

Assim vamos nós, para o outro lado. E meu corpo congela ao notar o perfume incógnito em qualquer objeto. É como ter um pedaço teu. E é como se esse pedaço se apoderasse de mim como um todo.

Estás desenhada aqui, não na minha retina, mas na profundeza mais abissal da minha mente. Estás em um fosso entre o nocivo e o benévolo, entre o vírus e o sândalo.

Às vezes te redescubro, e isso me assombra. Encontro nuances que nunca vi e lembro da tua voz de uma maneira diferente. Como se todas as palavras de insegurança significassem amor. E todas as de ódio, desejo.

Olho meu corpo, não há mais espaço para cicatrizes, não há mais um centímetro que não esteja tomado pela febre hercúlea tua. O medo, a cólera... o espectro sem nome se aloja no sangue borbulhando nas veias, no espaço infinitesimal entre as sinapses. Em um frêmito sou mais teu do que meu.

Cada frase tua reverbera por todas as esquinas da minha mente. Estudo-te, pesquiso-te, e não te entendo. E desmorono! Feito um castelo de cartas, desabo. Tão frágil! Qualquer passo é uma renúncia, e cada renúncia uma gota de veneno. Mato-me. Comigo, parte tua se vai. Com meu corpo padece teu léxico. Com minha mente, algoda tua. Por que não padece teu peito? Morto, ainda sinto teus sinais. E vejo teus olhos murmurarem o mesmo “te amo” de antes. E tudo está em crer ou não. Até quando?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma joaninha no espelho

Não fizeste nada e estou aqui,
Como a mariposa que circula a luz, mas sem poder tocá-la,
Como a mãe que vela um filho que partiu, por uma noite inteira,
E quem carrega nos ombros cansados o peso da saudade
Não fizeste nada e estou aqui,
Como se fosses a aranha, involuntária, a me atrair à teia,
Como se fosses Deus a me trair promessas e jurar mentiras,
Não fizeste nada, mas por nada a espada já contou mil corpos

Nada me fizeste e permaneço aqui!
Como quem persevera e pensa que a espera há de lograr vitórias,
Como quem perde guerras, mas ganha a derrota e nega a fadiga,
Como esses soldados que já mortos lutam em busca da vida
Não fizeste um terço do todo que há,
No entanto devo-te e a ti me devoto, terminantemente,
E se mais dois terços me houvesse dado, seria obrigado
A varar as noites da eternidade toda, em pagamento

Nada me fizeste, mas aqui eu fico,
E só por ti faço do meu pranto, riso, do meu riso, canto
Das minhas vísceras faço amargura, faço solidão
Do meu abraço faço um solo fértil, faço uma alvorada
Nada me fizeste, mas aqui repouso,
Como um corpo estático a planar no cosmo, sem exato tempo,
Como um pulsar entre as constelações, de vibrações eternas,
Como o infinito é um “até amanhã” até virar um “adeus”
...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Epílogo

Fascínio
Meus olhos marcados, teu canto
O espanto precede o delírio,
Domínio perdido em mim mesmo, só posse
Impasse.
Evita! Não dá, meus ouvidos
Levitam quando ouço as notas
Embota! Ensurdece! Descanta!
Encanta, tem sabor nos meus lábios
Textura, e dura, e dura...

E agora? Segura, não solta
Não posso, tem gente encarando
Não passa, não chora, ‘tá escuro para mim
Acende a luz, acende a luz!
Agora! Já não dá mais tempo
Esquece, me esquece, te esqueço
Duvido! (Duvido também)
Te amo. Te odeio, tomara.
Cresce e desaparece.
Cresço e reapareço.

Vamos? Para onde vamos?
O mundo está nos aguardando
É fundo, é pesado é difícil,
Um ofício esse tal de amor.
Escreve! Já não sei se escrevo...
Me atrevo? Anda logo, escreve
Padeço ou me retifico?
Dedico logo ou enlouqueço?
Esquece. Não, eu não esqueço!
Melhora. Eu já melhorei!
E agora? O tempo é reticência
...