segunda-feira, 28 de junho de 2010

O pássaro-púcaro

Da primeira vez que eu vi o pássaro-púcaro, ele decolou da superfície da mesa de cabeceira da minha avó e planou pelo céu do quarto com suas asinhas pequenas, me observando com aquela boca de beijar sapo. Confesso que me senti desolado, como se um frio cáustico tivesse entrado pela janela fechada e se estabelecido na beira da cama, sentado.
Tenho certeza que o pássaro-púcaro rodopiou três vezes no ar, como uma bailarina, mas sem deixar cair uma gota da água que minha avó havia ali depositado fazia apenas algumas horas. Sei, também, que a cada rodopio assustador do púcaro, eu me afogava mais sob o edredom, morto de medo.
Depois o pássaro deitou-se veemente sobre a cadeira de balanço, mas sem fazer barulho, e eu adormeci.
Lembro que acordei com a minha avó praguejando, dizendo que eu mudara o púcaro de lugar. Eu não sabia o que era um púcaro, até então. E até hoje não conseguiria muito bem diferenciá-lo de um jarro, não fossem meus recorrentes flagrantes de sua inusitada vida noturna.
A segunda vez que eu topei com o pássaro foi quando a vovó morreu, e ele acabou choramingando de madrugada, sem querer, após a soleira da porta. Ele sentia falta dela desde que ela adoecera, e de vez em quando eu ouvia o ruflar tristonho de asas de cerâmica durante a noite, mas nunca ousava me levantar. Em algumas manhãs eu o enchia de água até a metade e uma vez ou outra punha umas flores cheirosas.
Mas, ao púcaro, de nada valiam meus regalos, e no final da tarde só restavam pétalas pelo chão e uma poça característica no corredor, seguida por uma bronca da mãe. Eu costumava enxugar e limpar tudo sem reclamar, mas nunca havia ousado me levantar às 3 da manhã até a vovó morrer.
Acho que quando a gente encontra a morte, mesmo que não tenha uma conversa com ela, mesmo que nem a veja direito, a gente fica mais corajoso. Eu levantei, ainda que tremendo, e fui dar com o pássaro logo ali, e ele estava roncando baixinho um choro miserável.
Eu juro que só parei e olhei e ele resolveu bater asas perto do meu ombro. Também juro que tentei tocá-lo algumas vezes, mas minha mão tremia tanto...
Eu tenho um púcaro, eu falei para os meninos do colégio, mas eles riram da minha cara. Eles não sabiam o que era um púcaro, e eu resolvi não contá-los.
Mas o fato é que eu não tinha um púcaro, efetivamente, até porque depois de quase encostar com as minhas mãos nele, nossa relação se tornou fria e distante. Estava lá o púcaro, pícaro, todos os dias, mas eu não me preocupava em preenchê-lo mais. E ele, talvez por isso, havia deixado de virar pássaro enquanto a gente lá de casa dormia.
Eu fiquei triste, mas fingi que não. Eu adorava o púcaro, mas fingia que até gostava dele. Eu gostava mais ainda de quando ele girava cambalhota.
A terceira vez que eu vi o pássaro-púcaro foi já anteontem.
Acontece que o Fulgêncio tropeçou na mesa de cabeceira da vovó, e a mesa tropeçou no vaso que tropeçou em si mesmo e caiu, tropo, no chão.
Quando eu vi, o púcaro não tinha mais asa.
E é difícil colar cerâmica, mas naquele dia eu entendi que era importante tentar, então eu tentei, tentei e tentei, e no fim fiz um curativo bem fajuto e enchi de água até a metade.
A mãe disse que eu ia virar doutor, mas a mãe não entende muito dessas coisas de pássaro e de púcaro.
E foi de noite que eu vi o pássaro-púcaro pela terceira vez, então, nessa noite de anteontem. Ele apareceu de repente no meu quarto, uma asa batendo direito e a outra um pouco errada. E ele sorriu para mim com aquela boca de engolir mariposa, disso eu tenho certeza.
E aí o púcaro rodopiou, rodopiou, rodopiou, e não deixou cair um pingo d’água. E para mim, aquela água ali dentro, refletindo a luz do corredor que a mamãe sempre deixava acesa, era ouro. Ouro do mais dourado e mais real, e que, por mais que ninguém enxergasse valor, para mim era muito.
E aí eu lembrei da vovó.
E, pela primeira vez, eu acordei sem sequer ter dormido.

sábado, 19 de junho de 2010

Hipótese

Acho que não. Acho que o universo não conspira a nosso favor. E que não há destino. Que não ‘consta nos autos, nos signos, nos búzios’. Acho que todos os encontros, desencontros, reencontros e abandonos foram apenas coincidências coordenadas pela descoordenação. Acho que não somos exatamente iguais, nem diametralmente opostos, e que, talvez por isso, as leis de repulsão e atração não funcionem conosco. Acho, mas sem certeza ou precisão, que nossa dinâmica de marginalização e aproximação é ditada por nossas almas, essas sim conspiradoras, amotinadoras e mancomunadas. Acho que não tem nada de eu ser o que você não é. Acho que talvez nos sejamos com outras palavras, ou com certa complementaridade. Você, incógnita, eu, ‘agnosível’. Eu, excentricidade, você, revolução. Ou, talvez, simplesmente não nos sejamos. Acho que não fugimos de nós mesmos, e que, novamente, não há destino. Que, se estamos estáticos, culpa da inércia natural do ser, culpa da falta de força-motriz, culpa da minha inépcia, admito, e da minha imperícia, no que diz respeito a movimentos. Mas acho, e nesse ponto tenho quase certeza, que apesar de inertes, se nos movêssemos, um pouco que fosse, estaríamos imediatamente no caminho de um para o outro.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Send a

I aim to the end of the world
Where the horizon line touches the sky,
Where the ineffable mirror is waiting,
Glistening overwhelming lights.
Willing to stay on these roads
My legs, just like firebirds, fly
And they burn, as the sun, floating high,
As that sphere, buoying on clouds-sea
I’ll be guided by stars and by winds,
I’ll go ‘head with my wounds and my bruises
And there’s no wall or fortress to stop me,
And there’s no rain to put off my flame.
I’ll move forward! Step by step,
But relentlessly and indefatigably!
And I’ll tame the untamable horses,
And sail the unsailable oceans,
And bear the unbearable pain.
And when I, finally, shore on those docks,
Yonder this miserable path,
I’ll build, brick by brick, my own castle,
Constructed with each challenge I won,
Designed with each drawback I overcame.
And, with the last tile on its place,
I’ll die and be dragged to the sea,
But my soul shall, at last, be immortal

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Explicação

Eu vôo porque vôo,
E espero porque há tempo,
E porque não há meta.

Eu busco porque corro,
(e corro porque busco)
E assim me desencontro,
No silêncio em que me oculto,
Em uma sensação imensa de abandono

Eu ando porque pouso,
E em um passo tão minúsculo
Que quase não me movo,
E velejo, pois preciso,
Mas de nada serve a poita,
Pois eu passo,
Pois não fico.

Eu grito porque não calo!
Porque há um fluxo imenso de palavras
A roçar a minha língua
E eu calo porque não grito,
Porque não há lugar no meu peito,
Para mais que ferro e brita.

Eu ganho porque não tento,
E ganho sem ganhar nada
Estou porque não é momento,
E me ausento, porque não posso estar.

Eu sou, porque me dói, e é triste
E porque mais triste ainda é não ser