sábado, 29 de maio de 2010

Borda

É no escuro que se esconde o medo,
que se abriga a fera, que se oculta a fome.
É no escuro, todo o embaraço,
todo o meu segredo, todo o seu perfume;
que seus olhos vibram feito lantejoulas,
feito duas súplicas, e dois suplícios,
como uma chama que se vista nua,
que se pregue crua sobre a minha retina;
como uma espada que recorte a pele,
e lacere a carne, e umedeça o lábio;
como uma esfera feita de ouro e cheiro,
que repouse plácida sobre o meu colo,
como sua boca, cheia de desejo,
plena de veludo, cheia de paixão,
a sua boca, uma nave abstrata,
desconfigurada, em um ajuste longo;
a sua boca, um esquife sóbrio,
a pousar num rio, a mergulhar seu esteio,
a sua boca, a apaziguar seu leito
e a desaguar em delta, sobre os braços meus;
a sua carne, a sua boca nua, os seus lábios-muros,
os seus sulcos-letras, e as ranhuras doces,
feito hieróglifos
indecifráveis e indecifráveis

sábado, 22 de maio de 2010

Qsarhambra

Minha alma é um castelo vermelho, manchado de sangue,
Borrado de náusea,
Apartado do mundo, colado às pedras, sozinho.
Trancado em seu próprio inverno,
No caos das nevascas, na umidade das sombras,
No silêncio acipitrino dos chacais.
E as janelas cerradas por dentro,
Minha alma é um castelo vermelho.
E como não chora, transborda,
E como não enche, esboroa,
E a dor faz ranger suas portas,
E o gelo, encerrar seus portões.
E em cada aposento mofado,
Há uma sombra a cair, feito um demônio que espreita
E promove um tremor-calafrio.
Em suas muralhas, se perde quem tenta invadir seus limites,
Em suas muralhas, ecoam os gritos cortantes das cimitarras,
Em suas muralhas de adobe!
E as estradas vazias e descontínuas
Que somem perante os rochedos,
Onde não há viv’alma que ande
Onde não há humano que chegue!
Minha alma é um castelo vermelho,
De um rubor contumaz e sincero;
De uma torre oculta e distante,
Onde, morto e matando-me aos poucos,
Espero

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ran

Não basta o chão e o charco
E um eclipse formado redondo sobre nossos ossos
Como um anel em espírito sacro,
E os músculos estirando-se em um ritual
Lógico e geométrico
Tolamente calculado

Não chega o encanto e o sim
E o beijo não basta mais. Não basta o lábio
Não diz nada abaixo, não diz.
Se são palavras na garganta que não fazem mal
Se são palavras não beijos
Nem moscas

Não basta a vontade e a voz

E não basta a vontade a vós,
E a onda que suga nossos corpos, nossa pele
Nossa mente, verde, e a verdade
Os não maduros frutos em nós
Não vale o que não basta
Não basta o sol ou o mal

Não basta escrever e ler
Não basta ler. E as pedras que furam
Nossos passos, nossos pés, minhas costas
Não basta ser ou não ser
Se ser é um tombo ribanceira abaixo
Se é um calor, um frio, um feixe, um facho

Não basta saber ou sentir
E o meu lábio não obedece um padrão
Se arqueia e alonga brando
Esticado em um banho de saliva
Ímpar como exato
Como praxe, como farto

Não basta mais vida
Não se basta em si
Não basto eu em mim
E o seu interior me esfola, me preenche de estímulo,
Ao contrário, ao avesso, minha pele se lambe, se queima
O meu corpo se vê, se enrosca e se rasga

Não basta o chão e o charco,
Não existe o que baste, nem o que vai bastar
Só existimos dois. Só existimos nós.
E arcos, são setas, são arcos, trincados, rachados,
Borrados, arcos,
Toca-me leve, sensível, toca-me

Toca-me e faz em mim vida, como se fez luz
Como se faz de tanto, tanto
E de nada, nada
Como não se faz. Como se faz do vento o vento.
Só toca-me. E me fará pleno, enquanto sou pleno
E penso-me nada, de tão pleno.

Só toca-me e me fará todo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Interstício - Parte II: Reticência

Guardado
Meu peito se voltou para a invernada,
como quem guarda um vestido para a festa,
como quem sabe que essa festa nunca chega.
Anita Borkowski

Atlântida
É ser um deserto que assiste
a chuva cair, no horizonte;
e se manter em uma aridez eterna
de um solo que rasga e afunda,

É ser uma ilha distante e submersa,
parida no útero-oceano,
é ser uma doca decrépita
onde barcos jamais vão atracar
Anita Borkowski

Oneiroi (1) - Morpheus
Perfurou-me com os olhos,
aqueles olhos de afogar-se em âmbar,
aquele âmbar que nunca foi visto!
E poliu minhas entranhas,
feito uma lima a polir madeira,
feito um ourives, feito um alquimista
que continua me desbastando!
Feriu-me o colo,
feito um aborto, feito um filho ausente,
aquele filho que abandona a casa,
aquela casa que abandona a prole.
Serviu-me o nume,
como uma mãe que à cria serve a carne,
o sangue e a carne, a flor e o perfume,
aquela dor e aquela recompensa.
Desencontrou-me,
e me arrancou o suspiro inventado,
me vendeu sorrisos,
me doou alento.
E em um sopro quente se desfez em nuvens,
feito as próprias brumas onde o imaginei.
Anita Borkowski




sábado, 8 de maio de 2010

Interstício - Parte I: Preâmbulo

C

Sós, são os corais, que em anéis
Colorem e constroem os atóis,
E, em círculos moldam-se, de pé,
Tão unidos e distantes...
Feito amantes que se abraçam
Mas jamais se tocam.

Anita Borkowski

Menor
Sou mínima. Sempre o serei.
Ainda que me multiplicasse, mínima seria,
Ainda que aumentasse, diminuiria,
Pois o meu fado é ser mínima e só.
Sou mínima, sou pó no espaço,
Mais um pedaço de cosmos partido,
Uma esquírola fragmentada;
Quase nem sou matéria.
Sou mínima, como um repouso,
Sou um segundo em milhões de anos,
Sou um segredo para meus ouvidos.
Sou mínima, nem eu me sei,
Pari-me mínima, embrionária,
E sei que mínima padecerei.
Anita Borkowski

7º dia

Fiz ruirem as ruas por onde passei
e das cegantes estrelas que iluminavam o céu, fiz o breu.
e da nossa caótica unidade fiz o meu e o seu.
Fiz cortarem o vento as palavras
e os muros pararem nas estradas
e o amparo dos ombros morreu;
fiz tornarem ao útero as flores
desenhei uns jardins desbotados
com as mal amadas cores de outono
fiz romper em aurora a meia-noite
fiz descerem dos céus os agouros
e amantes fiz serem castrados
que o seu silêncio não baste do estrago
que o estrago não bata nos dentes
fiz brotarem do chão poucos pássaros
e comerem a carne dormente
fiz do escárnio nos lábios do tempo
o terror sepultado em meu rosto
e na areia eu plantei o desgosto
fiz crescer em um solo tão árido
um quintal molestado de agruras
fiz rir e assobiar como o vento
e levar sua língua serpente
e os seus olhos dormirem pra sempre
fiz do ar que antes respirávamos
uma pedra no corpo da gente

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ventanas abiertas

Por las calles torcidas, por donde me llevan los pies
Y donde los pies pasan presionados ante la acera,
Cuando la arena rocía mis tobillos,
Acuerdo de ti
Como cuando las serpentinas tremblan y iluminan mis ojos,
Como los ojos, como agua de mayo, reflejan tus ojos,
Y como los anteojos, chispeantes, me esconden,
Y lo hacien a llorar

Acuerdo de ti,
En el entierro, o en la sonrisa
Desde la muerte, por la eternidad, hasta la muerte

Habré acuerdado de ti, siempre

Cuando las hojas de las árboles caducaren, en el otoño,
O cuando los vientos susurraren en mis orejas, en la primavera,
O cuando las abejas se multiplicaren, en el verano,
O cuando la nieve, blanca y blanca, en el invierno,
Cubrirme, como una manta y sofocarme
(fingindo calentarme)
Acuerdaré de ti, de rodillas, rezando para los cielos,
Y tus lamentos soplando con la brisa

Acuerdaré de ti, sin dudas
Pero tu memoria se borrará
Y se empañará,
Despacio.
Y más,
Oiré tu lloro,
Oiré tu clamor,
Oiré tu soledad,
Dondequiera que yo esté,
Pero ya habré cruzado tantos arroyos
De lágrimas y sangre
Y tantas montañas,
De oro fundido,
Que no volveré.

Sé que tu dolor duele en mi también
Y tu vacuidad mi torna vacio
Pero no volveré, y, así, no viverás
Y no viverás, y, así, no viveré...

Naciste sola, y sola morirás
Nací lejos, moriré lejano.

sábado, 1 de maio de 2010

Soneto à Lusitânia

Minh'alma, em um esquife tripulada,
percorre o denso Tejo e, Trás-os-montes,
deságua em uma torrente atormentada,
ali, no limiar do horizonte.

De longe, delineam-se os Açores,
e - mais imaginada - a Madeira,
e o sol, feito deitado 'n'uma esteira,
mergulha a manhã em um chá de cores.

Minh'alma entoa um fado, encantada,
de Breyner e Pessoa, entorpecida,
de Espanca, a chupar toda a tristeza

Minh'alma e a tua, em vinho mergulhadas
irmãs trincadas, mãos compreensivas,
simétricas! Qual pedras portuguesas.