quinta-feira, 22 de abril de 2010

Das certezas poucas

Seguramente, volverá a alvorada
Se não logo amanhã, em um outro dia,
E o céu se avivará de rubra tinta
Borrada pela brisa matutina.
As nuvens baterão em retirada,
E estrelas em um desabrochar sincero
- de flores a piscar na primavera -
Pontilharão em prata o vermelho
Feito esquírolas ardendo em brasas
Ou pirilampos queimando-te a face
Sentando-te, ditosos, nas bochechas

Seguramente, um barco bem minúsculo
A transportar segredos entre as margens,
Há-de cruzar o sol ante o crepúsculo,
E as aves a planar em um desatino,
Acalentando as penas empapadas,
Nesse momento assobiarão alto,
Canções que suas mamães lhes sussurraram,
E, então, mergulharão juntas no mar,
Como a se preparar para a invernada

Seguramente, um uivo pernoitado,
De lobos e predadores insones,
Anunciará o fim da madrugada,
E o florescer sutil das calmarias,
E o renascer das plantações de almas.

Seguramente, isso, e mais nada.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A companhia da osga

A lagartixa é a testemunha ferina dos meus atos cotidianos, e eu não tenho coragem que baste para matá-la. O fato é que ela, já há anos, me acompanha e me observa, pensando-se oculta, por trás do quadro, réplica de Monet, que se abriga em uma das paredes da minha sala.
Outro dia, tive uma certeza breve de tê-la visto piscar para mim, marota, enquanto jantava uma de minhas meninas. Não gosto dela, para falar a verdade. Mas aturo-a, como se não a pudesse notar.
Ela representa, lisa e fria, meu abandono - não um abandono de outrem em relação a minha pessoa, mas uma espécie de auto-insulamento. Lisa, fria e escorregadia, ela representa o meu mundo, e talvez, junto com a réplica de Monet onde reside, seja o que há de mais valioso para mim.
Posso ouvi-la de noite, do silêncio profundo somado ao breu, vasculhar com suas minúsculas patinhas dotadas de minúsculas nervuras o teto, em busca de alimento. E assim, observadora e quieta, a lagartixa me representa, caçando.
Vez ou outra sinto como se ela me pudesse delatar. Como se ela fosse a única testemunha viva dos meus crimes.
A osga e seus olhos me acusam e me julgam o tempo todo, e, mesmo autocomiserado, eu os mantenho vivos e alertas, ainda que perigosos sejam. Com freqüência ela vem até a cozinha me ver preparar o jantar. Não sei bem o que comem as lagartixas, mas acredito que essa goste do mesmo que eu.
Ao pensar nisso me sinto mais livre, menos culpado, e, por conseguinte, mais próximo da osga. Por certos instantes a osga é minha amiga. E durante os dias de reclusão, uma boa companheira.
Já li algumas histórias para a osga, confesso aqui, mas não é recorrente. Já a nomeei, também, Elizabete. Mas nosso relacionamento é por demais conturbado, e pouco tempo depois volto a chamá-la Osga.
Admito também uma certa instabilidade psicológica, mas a lagartixa tem culpa parcial nisso. Seu julgamento por demais passional me enoja, como sua língua afiada.
E nós sempre discutimos por causa da sua intolerância. Mas as frases silenciosas da Osga ferem, e seu farfalhar doentio também. De vez em quando eu resigno da discussão e vou dormir.
De vez em quando, não.
Eu já chorei por causa da osga, mais de uma vez.
E nesses momentos não me resta mais que me tornar a própria osga.
E sair, e caçar: quieto e observador.

E é nesses dias que eu mato.

Autopsicofobia

Sofro a maldição de litorais escarpados onde as praias são inúteis
Onde a água bate forte contra as pedras e espalha sua bruma pelo vento
Onde o sol não chega nunca e nem há folhas espalhadas entre as rochas
Onde não há borboletas

Sofro do mal de quem não cabe em si
E nunca coube em si, não propriamente pelo orgulho
Mas sim porque metricamente não houve espaço
Para comportar tudo de bom e, principalmente, de ruim.

Padeço da doença dos de bom coração e mau aspecto
Como suponho que sejam as lhamas, os rinocerontes
E todo tipo de mamíferos que fazem mal às vezes,
Com exceção dos morcegos, dos quais desconfio.

Sofro da dor de todo homem de palanque
E de todo homem de escritório
O que me faz a soma dos males humanos
Potencializados por ser poeta

Fere-me a falta de perspectiva de quem pensa saber fazer toda e qualquer coisa
E absolutamente nada.
De quem chora a seco, ri sem vontade, mente falando a verdade
E reza e não sabe pra quem

Sofro da enfermidade de quem quer dizer tudo e não fala nada
Ou de quem inventa personagens
Para escrever em poemas sobre si mesmo
Sendo que não sabe sequer quem é.

Sofro do mal da irritação, do mal do amor excessivo e nulo
Da felicidade contínua, da tristeza repentina,
Da contigüidade distante, da ausência presente
Da eternidade estanque.
Sofro do mal de mim. Seja eu quem for.

domingo, 18 de abril de 2010

Interlúdio

Entre o milésimo de segundo e o ponto de vista, repousava o engano,
E entre a verdade e a inconsistência, o engodo,
E nos braços da constância descansava o lodo
E a mentira dos pernoites e das fontes falsas.
Feito a linha que escorrega e se encontra curva,
Feito a história que se abaúla e vira uma parábola
Ou a verdade que se perde e torna-se falácia,
Ou a fala embotada, que se encerra muda.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Júlia

És o despertar de um sono que reúne a boca ao beijo
O suor que escorre e decorre
Da nuca, nas costas, na face, no peito
E o som que sai da minha boca
Que toca como corda
E cai como pedra
Dentro de você

És o desfrutar do fruto proibido ao desejo
E ao toque dos lábios, ao toque dos dedos
Na harpa sem mácula, dos olhos sem mácula
Que tragam meus músculos
E roem minha pele
E me lançam no abismo
Sem roupa, sem tudo

És um rio caudaloso que se entorna
Por sobre meu colo
Vem lento e turvo
E deságua sem medo, calmo
E tormentoso
Pudica e indecorosa

És bem um busto ou própria deusa
Os seios cobertos,
Mas a espádua nua
Os olhos fixos
E tão expressivos
E ilustres e lustrosos.

És de curvas que incitam
E beleza que insinua
Senhora de um corpo que não é seu
E de uma alma que não é sua
Senhora de um coração que não é seu

És tu, tão segura e insipiente
Tão desatenta e observadora
Que em um olhar simplesmente
Fez-me quedar no tempo de repente
Para me matar
De uma morte desalentadora,
Júlia

Ínsula

De mim, disto, hoje, mais de duas milhas
Do tanto que para longe naveguei,
E por muito tentar, não me encontrei,
Nos recifes, na solidão das ilhas....

E entreguei meu barco contra o cais
Despi-me do equilibrar das quilhas
E mergulhei em próprias armadilhas,
Deixei-me enganar em amar demais

Perdido o lastro, levou-me a corrente,
Feito o luar, oblíquo, insipiente,
Que ao chegar-se, a maré, carrega

Eu, que já mergulhei o azul profundo!
Já fui vulcão a incendiar o mundo,
Hoje sou só um amontoar de pedras

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pas de deux

- uma intermitência, e o meio de nada. Somente três sorrisos misteriosos roçando contra a minha pele um aroma amadeirado, muito sutil, muito agudo. E os lábios crespos me arranhando a derme e me beijando levemente de todos os jeitos. Um raio azul da luz mais cheia e plena, como que sacra, como que não-humana, celestial, perfaz os sorrisos, reflete nos dentes, refrata nas línguas. E uma gargalhada esticada e calma. Um arrepio que levanta os pêlos e os inunda do ar que respiram. E três rostos amorfos. E um chapéu de tecido listrado. E duas coxas douradas, unidas, grudadas. E o desejo em forma de carne. E um sopro dos ventos alísios trazendo a tempestade – a água e o suor. E um risco no céu, feito um arco-íris. E a esperança encarnada, em forma de frase, e a sintática desmaterializada. E uma sinfonia ressoa apenas em um ouvido, e as coxas se apartam. E os dedos sensíveis tocando o rosto, tocando a boca, como frutas silvestres. E algum sentimento recôndito e tolo floresce por todo meu corpo. E todos os ossos, e músculos se unem em orquestra, quem rege é o escuro. E todos os neurônios bailam sincronizados, simetricamente, quadrados perfeitos. E quatro pupilas serenas e monocromáticas encaram-se, em pares. Sinapse, os dedos se entrelaçando; repouso, tensão entre as mãos; sinapse, as pernas tocando-se, breves; repouso, um frio invernal, antártico; sinapse, as bocas quase se tocando; repouso, os cílios quase contíguos; sinapse... repouso... sinapse... repouso... a dança dos impulsos nervosos, contraem-se, distendem-se, congelam. E cores cobrindo-me as pálpebras, deliciam-me os tons e as luzes. Delicia-me o pensar em pensar tua boca, e o nosso ballet para dois. A nossa harmonia precisa, as nossas sinapses simultâneas, seus saltos, seus giros, seus beijos. E o nosso infantil pas de deux; e a primaveril paz de deus.
- fim de uma intermitência

Banho

Mergulhou trêmula em um banho gélido. E notava as sensações dos últimos dias, tão acalentadas pela imagem ainda gravada dele, se desprenderem da sua pele, como a sujeira invisível e insolúvel que não se misturava na água, se armazenava no chão.
Fechou os olhos e trocou as lajotas azuladas do banheiro pelo escuro infinito de seu sonho acordado, que foi clareando de um breu espesso a uma série de luzinhas amareladas. As pequenas estrelas imaginárias dançaram aparentemente com alegria, debochando do estado nauseabundo dela. Como quem dança de dor.
Seu corpo estremecia, remexia, contraia, contorcia. Seus lábios ressecavam apesar da água fria que lhe caia por sobre a cabeça. Cada gota pontilhava-lhe o corpo; as costas, a nuca, a cara, os seios; queimando-a, como cigarros cruéis e sulfurosos e inapagáveis. Os pêlos eriçavam e relaxavam seguidamente, em movimentos contínuos, como um balé perfeitamente ensaiado, onde nenhum dos bailarinos atrasava um milésimo de segundo.
A gengiva saboreou um sangue inexistente, mas inevitável. Ela cuspiu, mas sua boca ressequida não eliminou nada além de saliva. Seus olhos disfarçaram o choro por baixo da cortina fina e corrente da água.
O gosto férreo do sangue coagulado tomou de novo suas entranhas. O vômito pousou aos lábios, contaminou a língua, eliminou os últimos resquícios do beijo, das palavras ditas. Ela não permitiu a golfada. Voltou a engolir todo o mal, toda a raiva, todas as palavras, todos os beijos.
As lágrimas desciam profusamente, agora. O telefone bateu na sala. Como um operário martelando ferro. O som tilintava e ecoava, e vinha em ondas na direção dos seus tímpanos, lacerados pelas frases ouvidas.
A crueldade não era dele, era dela. A interpretação era dela. Autocomiserada, ressentiu-se; uma pontada no peito cortou a respiração e o pulso por quase um segundo, como se os cigarros tivessem-lhe entrado pela boca e ferido o coração.
A silhueta masculina se postou frente à porta – não realmente, mas dentro da sua pupila – os ombros largos, o corpo angulado, o rosto frouxo de uma sensibilidade admirável. Ela desviou os olhos, a vista fugiu. Mas a imagem prosseguiu, esculpida em sua retina. Pensativa.
Os lábios pareciam fragmentar-se: mais uma parte dele que se ia.
A chuva lá fora, o banho lá dentro, o choro lá fora, o regozijo esquecido.
A cama desfeita pranteava também, os lençóis sobre o chão, manchados de fraqueza e doença, dela própria, sozinha, eterna. O travesseiro parecia ainda resfolegar, arquejava, recuperava-se do choque da cisão.
O banho não desvirtuara ainda o olor áspero, másculo, amargo que ele havia irradiado sobre a sua pele. Que havia se grudado a sua derme como uma tatuagem horrenda, desconfortável. Aquele cheiro de quente ainda inflava o seu pulmão, aquele cheiro de corpos unidos, de prazer ingênuo, sensível.
A água esquentou subitamente e mergulhou seu corpo em uma sensação de acalanto, sono, que por um instante a redimiu das assombrações pastosas do recente e inacabado passado. As gotas brilhantes que jorravam do chuveiro abençoavam sua anatomia como água benta, escorriam pelas curvas, pela cintura, contornavam as extremidades.
Mas não era o suficiente para arrancar-lhe os medos, os anseios, os discursos entalados. Seus motivos, seus argumentos.
Ajoelhou-se, sobre o chão ainda gélido, com o calor entorpecente derramando-se sobre seu corpo que ainda levava o cheiro floral de canteiros desabrochados em primaveras, misturado ao odor cardíaco e amargo característico da proximidade dos seres. Era, ali, um elo entre o calor e o frio.
Sentiu-se morta por um instante, os olhos fechados imersos em uma escuridão grosseira, as coxas doloridas pela posição, mas não ousava mover-se. Purificava-se, vagarosa. O banho não era o suficiente para esquecer os males, olvidar o tempo, os vestígios do dia, dos dias, das semanas. A corrente não era o suficiente para dissipar a crosta sólida de raiva e dor que se acumulava por sobre seu corpo. Ou para arrancar a sombra oblíqua que se fechava como uma mortalha por cima daquela criatura, encolhida, trêmula, quase sem vida.
Ali restou, perdendo toda a noção de tempo e estado. Os olhos continuavam fechados. Contra a pálpebra, a imagem dele continuava projetada, escura e sombria, como ele sempre fora. Conseguia ouvir ecos da voz dele, que saiam de seus ouvidos, ricocheteavam nas paredes e na neblina úmida que se dissociava do chuveiro, e, finalmente, aglutinava-se à água, que seguia o seu caminho: caindo e correndo. E o seu passado se soltava do seu corpo, do céu da sua boca, da sua narina, das suas lágrimas, das suas costas, dos seus pensamentos infantis duramente amadurecidos. E descia pelo ralo, levado pela força da água.

Ideal

Quero-te no calor das tardes
quando o oceano bate asas e se infla
a voar e ver, por detrás do mundo,
o sol se esconder e a luz do dia repousar
Quero-te num sono tranquilo,
numa ilha cheia de botões de flor
e de perfumes que ultrapassam cheiros
e, quero-te, deitada na areia,
a me cantar doces nos ouvidos
e me tocar pérolas nas mãos
Quero-te à deriva, para salvar-te toda
e deixar-te tola de tantos amores
e largar-te à toa ao sabor do vento
que não é mais que um sopro da minha boca
Quero-te, em um arrepio, a gelar meu corpo
a queimar meu rosto, a velar-me em paz
a sorrir de lado sob o pôr-do-sol
sob o céu de março, sob a nuvem negra
Quero-te completa e retalhada em postas
quero-te aflita e serena e seca
quero o opaco inverno e o outono cândido
quero-te em cores, mas bem pura em branco
quero ter-te mais, mas querendo tanto
quero com vergonha de me confundir
e com a certeza de te afastar
quero estar em paz, mas é em ti que encontro
essa paz tristonha que me dá mais razão para dormir
mas que obriga meu corpo a acordar.

sábado, 10 de abril de 2010

Prelúdio

Teu corpo tem cheiro de medo,
Recorte de mágoa, de vestido fino;
E a maciez do veludo mais puro do mundo,
E a leveza da trama mais linda.
Tem o toque avesso aos meus dedos, e os dedos avessos aos passos
O teu corpo escorrega e tropeça nas peças que a mente projeta nos braços
O teu corpo desliza nas meias-paradas do teu rodopio mais triste
E em um balé claudicante e indeciso tu és a melhor bailarina que existe
Entremeia um suingue estranho, teu corpo, e exala um perfume dançado
E acerta em cheio os peitos, as bocas, os leitos e os quartos fechados;
É a sinfonia mais breve, mistura de todos os sons
Tem ares de gueixa, que os olhos escrevem que gueixas são só do Japão
Tem olhos de ameixa que os ares carregam e espalham no chão castigado
E tão piedosos, pedintes, teus olhos, que os homens carregam nas mãos.
Tu tens um sorriso impreciso, arrítmico, esgueiram-se teus dentes nos cantos
Que são dois sufocos, teus lábios concisos e plenos, silentes e sãos
Que são muito loucos, teus casos, retóricas, teus nexos, tantos e tantos!
Que embriagam teu corpo do doce, do néctar, da desilusão dos teus prantos;
E as formas mais firmes, nuances profundas, desenhos de um mestre-artesão
Carregam meus olhos, perdidos, sozinhos, com a serena paz do soão
E condenam meu corpo inútil e vadio a seguir, a errar, só e em vão

Leme

Aqui estáis, novamente
e debaixo de tantas águas persisteis em não saber quem sois.
e o que quereis.
a corrente vos carrega,
mas sua força não é suficiente para arrancar do solo infecundo e tristonho das palavras
vossa âncora de medo e insegurança.
vós sois mais uma corda a ser corroída
somente ligais o infinito ao vazio
somente estais entre o nada e o nada
sois apenas o que fôreis
e sempre sereis
à estática estais fadados
e vossa bandeira jamais se fará hastear
e vosso hino jamais se fará bradar
pois seguis preso à vossa ingenuidade
e à vossa pluralidade.
aqui estáis, novamente!
trôpegos e crassos
múltiplos e únicos
braços do mesmo tu
vozes do mesmo eu
tu já é vós e vocês
aqui estáis, novamente.
mortos,
fartos,
fortes,
vós sois tudo que já quisestes e tudo que nunca quereríeis.
vós sois o amálgama de vosso - meu e teu - tudo e nada.
vós sois o que nunca entendereis.
e agora estais frouxo e firme
e em devaneios que vos transportam feito as ondas
e vos quebram como as mesmas.
e vos transgridem, e vos transcendem,
como a luz ao oceano.
Aqui estáis, novamente.
E agora, o que quereis?

Paradeiro

Estou num ponto livre;
É entre o sim e o nada que me encontro,
No delicioso e frágil limiar que faz doer no peito
Um calor ardido que se gruda nas narinas
E pula pra fora do corpo, como que expulso.
E é como gente que vomito o opulento doce do prosaico,
E abnego e abdico do comum, da norma, do regimento burro
Que orquestra os naipes da vida, como um todo – como um nada.
Da consuetudinária, me livro também, e do livro
Me livro.

Estou num ponto-nulo;
É entre o tudo e o não que eu me encontro,
E o paradeiro eu sei, mas não me acho,
Como se por sub-repção me houvessem arrancado
A autoconsciência,
E me houvessem lançado no lugar-comum,
Num lugar-comum, qualquer lugar onde possa haver
Um céu para não ver, um chão para pisar e correntes a me prender
À terra.

Estou num ponto-parágrafo;
É como ter firmado um quase-contrato com uma ignorância quase-consciente
Para se manter em mesmo estado
Em simples-tato, status quo
Cego de olhar e de pensar
Surdo de ouvir e de pensar
Morto de viver e de pensar.
E houvesse uma barreira entre o medíocre e o refinado,
Intransponível;
Inexorável!
Uma inevitabilidade tola
Anti-contumácia, anti-persistência
Anti-existência.


Estou num ponto que não é final.
Onde não há conserto, nem erros
É feito um vazio imenso que engole o tempo
E que eu movimento por dentro de mim
Como fazendo pouco de mim mesmo,
E é entre o mais perdido e mais abstruso, que encontro metade de mim
E rolo insone pela incontestável hemicrania
Justificada pelo seu próprio sentido.
Só sou metade de gente.
Só estou metade de algo.

Estou num ponto, onde não há ponto.

Correnteza

Deixe-me ir, em busca do que não corre, salta; e do que nem teme, nem encara. Que houve uma alegria espumante enquanto fingi que vivia, mas que agora para de borbulhar em mim, como se eu não fosse mais a taça de champanhe que antes fora. E estupefaz-me como as brumas se dissolvem sem mais nem menos, antes de o sol aparecer, efetivamente.
A verdade é que minha vida tem sido uma procrastinação eterna; onde eu finjo que nada dura, quando na verdade nada ocorre. É como se eu estivesse sempre contemplando a vida dos outros, observando seus desenvolvimentos, suas nuances; esperando alguma coisa sair errada para desdenhar – isso nunca acontece comigo, eu digo.
Passe a viver então, alguém poderia me responder, mas não respondem, porque não ligam, ou não sabem.
Insisto, portanto, em ir-me agora, se ainda restam algumas gotas de coragem que me permitam uma realização, ainda que pequena, como encarar os olhos de alguém e falar com sinceridade; ir em busca não do cheio, mas do repleto, do conurbado. Ir em busca da complexidade.
Sinto-me um vácuo; mas sentir-se vazio não é o mesmo que ser vazio. É mais como não ter sido descoberto. Sinto-me assim, oculto, desinencial. Não como se ninguém me visse, mas como se ninguém realmente me soubesse.
Devo ir em busca de ventos, deixe-me ir! Para sentir soprar na minha pele uma brisa que me refresque, uma vez. Devo permitir-me o sentido e o prazer. Não sou mais ou menos humano que uma pedra. Nem vocês.
Mas vocês me encerram e sufocam, como uma cela, como um aquário. Enquanto eu me transbordo, não há onde guardar meus excedentes, e perco pedaços e sentidos. Perco partes de mim.
Sem problemas, aí que eu noto que não há ninguém que não me deixe ir; não porque haja liberdade, acima de tudo, mas porque, no fundo, não há ninguém mesmo.
E essa solidão espreita sob a minha cama, atrás da minha porta, cada vez que eu apago a luz. É como um câncer irremediável, como uma sombra agarrada a mim, pregada em mim.
Talvez seja ela, a solidão, a interlocutora.
Deixe-me ir, há quem chame em algum lugar. Deixe-me ir, há uma espera eterna me aguardando