domingo, 12 de dezembro de 2010

O abstrato imediato

‘Você é o meu Pierrot’ você vai ser sempre meu Pierrot. Mas sem certeza de tudo; o que era lembrança e o que era hipérbole de lembrança, isso e aquilo, indivisíveis no conjunto das articulações pretéritas. ‘Você é o meu Pierrot’ era a verdade com clareza sólida, documentada, cada sílaba drenando um pouco de espaço junto aos tímpanos; lembrava tê-las tangido, as palavras, com mãos de oleiro, transformando-as primeiro em um jarro lindo, uma caixa leve – ambos ocos – que esboroaram ao compreendê-las para lá da estética. Você vai ser sempre o meu Pierrot era a sincera dúvida. Poderia ter-lhe dito isto também, ela, mas ele já não sabia se ouvira, se criara, se modificara na moenda vulgar das noites sem dormir, ou da cama suada de delírio e choro.

Contra o espelho, aproximando suficientemente o rosto ainda notavam-se as chagas urticosas, quase que pústulas, dos dedos segurando o queixo para fixar-lhe nos olhos outros olhos mais dotados de certeza. ‘Você é o meu Pierrot’ – Você é meu Pierrot – Você vai ser sempre meu Pierrot. Aqueles dedos que plantaram o malogro da autoconsciência tão ferozmente, em um toque tão brando. E a memória, por incerta, desfecha nesse inferno dual que não se revela o Pierrot finito ou o Pierrot infinito.

Do ser-Pierrot não brotará algo melhor – é o infinito – como “não há mal do qual provenha o bem”, não há breu que gere algo que não breu. Se o dia sucede a madrugada, não nasce desta. A madrugada não é senão o não-dia, a distância entre o desferir do golpe e o golpe não é mais que mal parido de mal; entre a ferida e a cura, contudo, manifesta-se o bem do ungüento, nascido noutro canto. Não existe destino ao Pierrot ou alternativa que não a de erguer-se e vestir-se no seu traje monocromático de paz e treva.

Por mais pura falácia contenciosa que seja.

Direção e sentido. E sentido da direção e do sentido. Segue para lá, de trabalho em atalho, de moça em moça. Mas você é o Pierrot, não esquece, admoestava-se, por mais que esfregasse a imundície da lágrima sobre as bochechas.

Do alvor da alvorada,

Do silêncio do leito,

Dos esteios torcidos,

Do encontro da estrada,

Só a falta.

Ontem eu A vi, tomando sol feito um lagarto de silêncio e cor, sobre as pedras, sobre a areia, noutros braços. Ele é o meu Arlequim, ter-me-ia ferido Ela, caso perguntasse. A maciez me embotou os olhos, de longe. Eram, juntos, como frutas bastante doces para que à distância se pudessem ver as polpas expostas, suculentas. E ele era o Seu Arlequim.

Sobretudo, contava as horas com a destreza com a qual destacava, carimbava, assinava e arquivava os papéis, e com o mesmo ímpeto de simplesmente avançar em uma existência desfigurada e cruel e, mais que monótona, sem motivo. E o motivo, pensava, é a demanda do corpo como o descanso é a do insone, que circunda o sono com tal passividade que transforma seu desejo em intangibilidade, e de intangibilidade em distância inalcançável, que é a que divide o homem-que-quer do homem-que-é.

E a ausência de motivo deveria ser traduzida em negrume e nada. O desmotivo antagoniza o tudo com a mesma força que o positivo enfrenta o negativo. A binaridade de ter-porque e não-ter-porque é a mesma que reflete no espelho sóbrio do universo o fulgor da vida e a frieza canhota da morte. É a dicotomia entre estar e ser – o desmotivo carrega o homem à coisa com a velocidade própria das transfigurações dilêmicas. Ou é Coisa ou é Gente, e se passa de um ao outro, o faz no milésimo de uma desatenção.

O que era vida verteu-se em espera dos tempos vindouros, e os porvires converteram-se em expectativas. E o objeto que fora pessoa, no aguardo do aguardo. De uma contingência rara, de um torpor eterno, em um tornar-nada qualquer coisa. E entre optar pelo bom ou pelo ruim, calar-se. Não há continuidade sem realizar escolhas.

Desmotivo ao Descontínuo. ‘Você é o meu Pierrot’ sendo a pedra chata única, ondulando, refletindo, afundando e sendo novamente lançada à superfície inevitavelmente dura e plana e despida de fluidez de sua mente. Mal lembro de quando eu vivia, diria, se tivesse o advento do pensamento, próprio dos que são e não dos que estão-aí. Não se conduz do preto ao branco – novamente; isto é o que rege essa orquestra desenfreada rumo ao eterno negativo, ou ao descontínuo contínuo do não-ser – em oposição ao contínuo descontínuo do ser.

Eis o problema da regressão homem-a-desomem. E eis o seu motivo: desmotivo. Sem o reciclo externo, ao ex-gente não há salvação. Por si só, desomem só cria desumanidade e nenhuma insurgência que carregue e arrebate os pilares do in-ser. E nenhuma esperança. Portanto, somente introdução de transomem pode gerar o desequilíbrio do essencialmente equilibrado, que é o nulo.

Instância no rogo, água no rio

Dente no riso, e presença

Na distância entre mim e em-mim

Só se percebe pela casa dos quarenta o que se deixou cair pela terra e se perdeu, nos entrepassos das veredas pelas quais a vida inercial carregou, inane. Lastima-se também o homem-que-é pelo que foi-se, mas o que foi-se é sempre conseqüência do que tornou-se – sim, desse jeito e não o contrário, portanto, criado por escolha própria.

Como era dado à fortuna, no entanto, formou-se chuva nas nuvens do acaso e precipitou, de modo que as lagunas do opaco preencheram-se daquele fluido renovado e neoplástico de apelido opalescência.

A moça entortou-se toda para caber em seu próprio sorriso. Eu a agrado. ela o mesmo. Tornamo-nos íntimos ao amarrarmos os sapatos antigos da moléstia do dia-a-dia, os cadarços imundos do cotidiano, ressequidos pela crueza de toda manhã. ela tem outro. O que não significa que ele a baste ou que não nos podemos, os dois.

Voltei a sentir gosto de algo chegando

Como é diferente do sabor de algo já ido, não é?

Meu hálito refrescou. É agora meu corpo a aquecer-se?

O transomem pode ser apenas um vislumbre na selva inanimada dos embotamentos, mas é suficiente para tirar da latência uma sombra de vida, como se tira da estática uma locomotiva, o esforço do motor. Não há nada no transomem de especial além de exceder-se ao seu ente e transbordar-se noutro, derramando-se líquido ou deliquescido.

A reciprocidade é característica nebulosa, mormente no que diz respeito ao ontológico. Com efeito, se a passagem de Homem a Coisa se dá de etapa única na dicotomia entre Ser e Não-Ser, é pelo simples fato de Ser aqui significar puríssima completude, enquanto o Não-Ser denota o incompleto. E o incompleto assim o é toda vez que o todo não é pleno, bastando um erro no preenchimento. Dito isto, a Coisa deve descoisar-se por inteiro para desembocar no tormento oceânico do que é Gente.

E os efeitos transumânicos têm de ser frutos de esforços sobreoméricos para levarem do nada ao tudo.

Eu a beijei, a moça. Seu sorriso carrega-me à distância dos fatos. Entorpeci-me nos dentes brancos e na doçura singela. Sou mais que era ontem.

Do tormento que resultara em petrificação adveio o alívio. A sensação da reconstrução tomando todos os ossos, como tijolos sendo posicionados, um sobre o outro, colados pela rigidez moldável do cimento, erguidos pelos braços fortes do reumanizar.

Fora largado menino nas paragens paradisíacas e matas serradas de um país tropical. Crescera com os lobos, aprendera a guiar-se de quatro e a uivar seus pensamentos e a guiar-se pelo uivo. Admirava a lua como que procurando na inconsciência de seu ato uma meta possível, o que não há para um lobo. Agora estava sendo reintegrado ao mundo. E deveria estar ereto e falar e encontrar seu motivo.

Cada tijolo, desde a olaria até sua deposição sobre um rubro irmão, era um preencher-se processual, uma injeção de identidade humana produzida pelas sutis mãos transumânicas da moça. Não existe melhor ou pior motivo entre o que expira amanhã e o que só desaparece aos cem anos. Cada um só pode ser substituído por realização ou frustração, na mesma proporção.

Ou pela superação deste por um motivo de mais valor.

Deita-te em meus braços, adormeces

E leva contigo em teu sono embalado

Os últimos vestígios de dor e açoite

Que me castigaram o peito.

Deita-te em meus braços, me beijas

E rememora cada instante do nosso pouco tempo

Que hoje estou feliz

Há uns dias falou comigo, logo depois de ter-me despedido da moça. Já reparara em sua leveza quase celestial deslizando por essas vielas ásperas. ela é lúcida manação de cor contra o vazio branco-e-preto. E eu a quero: presença e aporia.

A vontade é sintoma endógeno de ser. Sua manifestação é exclusiva daqueles que são ou caminham para serem e já se apresentam em nível quase irreversível de mudança. E contra a força da vontade – razionada e desejada – não há resistência.

Curiosa a reformalização do nada-ex-homem. Pois regenerar ser não é como criar ser ex nihilo, mas tampouco é reconstituir o ser que antes fora, como se a matéria metafísica pudesse reorganizar-se na disposição anterior exata. Reciclar a coisa-ex-gente é, afinal, ação de forças transumanas de características específicas que têm influência total na remodelação dos aspectos existenciais.

Além disso, refazer ser é também refazer-se e pressupõe autocrítica a partir da retomada da característica reflexiva do homem.

Pequei

E o pecado tornou-me alma em carne

E carne em pedra.

Bem como meu arrependimento fará

Da pedra, carne

E da carne outr’alma

Que não é a minha de antes

(pois eu também não sou quem eu era)

Mas é a minha de agora

Há, porém, – melhor que porém, ademais – o primado da memória sobre a possibilidade. E o direito da palpabilidade do passado sobre a contingência do porvir. Como se a lembrança fosse, em si, esse ente autotuitivo que esgrime e sempre golpeia mortalmente a incerteza futura.

Assim, da terra direto à rosa, o que era poeira volta a ser rocha que volta a ser a lembrança – ‘Você é o meu Pierrot’ e todo o mistério das ruelas acinzentadas guardadas entre os miolos. E de um nada lembrado – ou algo esquecido – a ausência torna-se completa e inexorável imanência; arrebatadora como uma onda irrefreável que inunda casas, terras, gentes. Inignorável.

E o fenômeno da frase – ‘Você é o meu Pierrot’ – é, em suma, nada além da revelação do que existe de visceral e extremo e que alicerça a sentença. São os escombros resultados do peso compressor do chronos sobre a experiência de primavera, reunidos sob a regência magistral do kairos, e seus arranjos polissemânticos, repletos de paladares e olores inolvidáveis.

Estabelecida está a parte última da refacção edificadora: motivo.

Reencontrei-A. Uma beleza estupefaciente despega-se de Sua pele e infesta a sala com Seu poder máximo de invasão. Correm às pontas dos Seus dedos as gotas de sangue, obedecendo ao ritmo inocente e desalentador do Seu coração tardio. A castidade se-Lhe-escorre pela pele, uma camada-armadura da qual se liberta vagarosa. Reencontrei-A, enfim, e Seus olhos pousaram em mim com a súplica de quem observa seu salvador. E eu A abracei com o abraço de quem salvará a si, salvando-A.

Só há noite

E dia

Se houve sol

E madrugada

Nossos dedos entrelaçaram-se, nossas mãos se fundiram. Sua cabeça repousou em meu ombro, repousei-me sobre Sua pele. Sem ardor na ardência, sem velocidade na pressa, cruzamos os lábios em um sinal de tempo passante e encontro de almas. Desembocamos juntos, ondas elevadas. E a calmaria ulterior da soma das águas.

O prazer do Ser já tendo Não-Sido, dizem, sobrepuja qualquer revés e medo. A plenitude da Gente é a totalidade do possível, a transcendência do óbvio. Era todo ser; motivo, memória, vigor. E era um novo ser.

Você será sempre meu Pierrot restava como dúvida. Mas como dúvida era irrelevante. Existente ou inexistente, o sempre se desqualifica quando o ser transforma-se. Você pode ser sempre. Mas o novo Você que substituiu o antigo Você já é outro. Pois ser é bombardear-se de câmbio e esfoliação, como que trocar de pele, mas fazê-lo na sua qualidade mais íntima.

Você, Pierrot, resta emoldurado em uma fotografia, em um momento-de-ser que somente pertence ao novo Você, mas não o é propriamente. Você, Pierrot, está condenado à imobilidade, mas o homem move-se!

A destreza de ser ser é o resumo óbvio da alternativa única e da condição exclusiva que baseiam a propriedade de existirmos. Ser é mudança através do tempo.

Ou se é Isso, ou se é Nada.

Sua partida é meu rumo ao Nada

Eu sou tanto eu quanto sou você

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Intercepto

Sozinho vinha, barro e céu pisados,
Vinhas sozinha e farta do caminho,
Pelas veredas que os pés tocavam,
Sozinha vinha, e eu vinha sozinho.

Sozinho iria, mais, talvez para sempre,
Pernas cansadas, peito e olhos tristes,
E cansados, e pele e mãos afoitas,
Então te vi, e tu, então, me viste

Reconheci irmãos, nós dois, em carne,
Em sangue e água, irmãos, em alma e pedra,
Reconheci-me em ti, e tão somente,

E com desvelo e dor, corpos fundidos,
Como essa eterna cruz que tu carregas
Como a prisão que eu sou, e tu te prendes

domingo, 21 de novembro de 2010

Da semiótica das nossas coisas

Se toda procura inicia no que se sabe do mundo e no que se sente de si, teu início e fim me precedem a busca. Antes, o teu princípio nasce como do poente vem à realidade a maior abstração do vermelho, que não é nem cor nem objeto e surge do lado oposto do começo do dia. Assim, és contrafação do fato, e feição do contrafeito, e te encontras desmedida, pernas cá da dialética, lábios lá.
Em mim, a investigação de ti se desenha nula quanto mais perscruto o silêncio que te adormece o pranto e o tormento. Do mesmo modo, assenta-me a névoa opaca e adesiva da dúvida, da poeira espessa que é essa secreta força que te acomete e te permite viver da insustentabilidade da latência, como quem tira o pão do próprio sangue. Teu meio é outro que não teu corpo, abrigas sob a pele certo grau de transcendência que se sobrepõe ao evidente. Tua realidade habita o invisível, e preenche-o, e transborda-o para além de sua fronteira maior.
Tanto mais me afogo no estudo da tua ausência, tanto mais encontro a solidez da tua estada. Tua presença é a verdade sem a qual todo avanço é retroação, toda coisa é perdida. Tua presença invade-me como raízes que buscam na terra a razão incessante da primavera, e já és mesmo uma árvore plantada em mim, cujas garras acipitrinas hão de levar-me dolorosamente pedaços quando me abandonarem o corpo, como se abandona o ninho.
Debalde, dicionarizo os teus sinais, ao tempo que examino tuas pernas no encalço de algo de sinóptico que me permita te compreender a essência. Analisar-te é encontrar na dispersão e no dissenso, unicidade e convenção; é, por definição, simplificar-te ao que pode alcançar o racional, sabendo que este não pode fazer do estanque, contínuo. Da parte, todo.
És, feito a neve derradeira que encerra o inverno, a última gota de festejo e regozijo, a qual meprendo, com o desespero infantil que aperto em teu peito minha cabeça, tentando fundir-me à tua unidade sólida, sóbria, ao teu poder singular, enquanto me laça com os braços repletos de misericórdia e compreensão, ser que és, de virtude e entendimento.
Seja tua explicação nebulosa, tua essência opalescente, mas teu tamanho é óbvio. Vences galáxias, de grandeza e de alcance, e és a morada de todos os astros; envolves-me, adstringente feito uma manta gigantesca que a tudo se sobrepõe. Serás o forro do céu? Teu espírito é a indefinição.
Sobretudo, partes de interrogação e torna-se análise; nasces reta e segues plano. Teu ser é a mudança. E o pavor do nada, que o futuro determina no presente, e o agora logra no pretérito. Teu ser é mudança. Tens na constância do progresso o soluço da permanência. Somente o intercolúnio do tempo separa memória e esquecimento.
Encontro, talvez, tua semântica. És dispersão no abismo dos segundos, e te perdes de ti tanto quanto te perdes de mim. Teu paradeiro é desencontro. Teu edifício é desvelar. E mesmo assim não existe energia como a que em mim se cria quando te toco a face; a palma da mão formando uma espécie de concha onde teu rosto se refugia. És puríssima exatidão.
Não existe sentido maior que o do peso do teu corpo, do descaminho das tuas palavras, do desatino da tua consciência. És máxima. És o estado do completo, o limite do abundante. Serás essa lembrança e esse esquecimento, esses abraços, essas partidas. Serás sempre tudo. És tudo. Somente serás nada caso o nada que tu fores seja a plenitude do que eu jamais serei.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Conjetural

O isolamento encerrava algo de escuro no silêncio mofado do quarto. Algo que talvez explicasse o cheiro de guardado de todos os vestidos e das saias. Acendeu um cigarro com a displicência que varou o isqueiro sobre a mesinha que suportava o abajur alaranjado, regalo colorido daquele professor que fora à Espanha com a ex-esposa.
País fascinante, pensava de vez em quando, e tinha o costume de verificar o extrato da poupança, ainda que tendo total ciência da falta de fundos. É mais ou menos igual a conhecer a vida em seu estado de arte, e mesmo assim vivê-la para engoli-la em reflexão.
Porque não basta a estética, tenho certeza. E baforava a fumaça asmática do cigarro, o ar em volta ressequido como o ventre. Se bastasse a estética, o mundo seria essa eterna contemplação que hoje é... esse eterno contentamento que hoje vejo...
Talvez baste a estética. Engraçado que a estética conduz à estática, conjecturou, como se conduz um cavalo à baia correta, sem maiores explanações. Mas desacredito da repetição. Repita muitas vezes o objeto de vislumbre e entenderá o que digo, segredou a si mesma.
A atmosfera estava quase dura, de modo que o quarto poderia ser um bloco maciço onde ela fosse só mais um pedaço de madeira. Escreveu em um papel de recados: decidi morrer intoxicada, não pela fumaça de cigarro, mas pelo gás tóxico da sublimação do meu ego. E pelo veneno que escorre das minhas palavras.
Riu-se baixinho. O mundo é estética, concluiu.
O mundo só pode ser estética, e amaldiçôo todos que o neguem. Se não, me expliquem como se produz e envia uma mensagem? Como nasce e morre um beijo?
Eu mesma entendo pouco disso por feiúra. Porque o desprazer estético só pode ser superado pelo desprazer estético alheio. Concluo, portanto, que a beleza é um fenômeno a priori, que está mais no receptor que na fonte de estudo.
Inclua aí toda a noção de padrões estereotípicos socialmente prefixados, e mais sentido ainda fará. O ser já é belo antes que exista.
E se já é belo antes que exista, já tem uma essência, os dedos estalaram. Uma essência, sim, pois definida sem a participação do próprio ser e sem o usufruto da sua liberdade. Convencionado fora dos limites da sua definição.
As hélices do ventilador moveram-se, primeiro lentamente e depois em círculos consagrados. A aura opaca dissipava-se, os cabelos cheirando a alcatrão. Como dizer que um caráter não se forma a partir de uma pré-definição, então? Se não é nada ainda, pelo menos já é bonito ou feio, e já está definido para sempre sê-lo.
Portanto, sou feia desde antes de nascer. E se minhas palavras diretas e agudas só fazem insuflar meu ego, para que eu possa cobrir tudo que se a mostra não seria aprazível aos olhos, o mundo só está recebendo o troco em moedas ferventes.
Do mesmo modo que se explica o cheiro de guardado dos vestidos no armário...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Oásis, decididamente oásis

É como se eu a espreitasse por entre as cortinas, nervoso, e você fosse o estigma da minha privação, envolta em seu esboço de mundo e na sua grandeza translúcida. Você baila como um morcego no silêncio escuso da madrugada, e é lindo ver que suas pupilas alcançam além do breu. Tem uma consciência selvagem do seu próprio tato, que reveste tudo, enquanto seu ser resvala nos cantos do seu armário com um pudor amedrontado, disfarçado de força.
Da rigidez acipitrina do seu abismo de glória, eleva-se, feito uma lua de um palor cálido, e abre sua boca, tal que liquefaz o ar que a embala. Algo em mim deliquesce. Outro algo esboroa. E estou na estante das suas digressões. No calor cisatlântico do seu hálito, degeneram-se objeto e esforço; espelho e imagem. Dessou-me para descobrir que há muito já deixei de ser. Hoje, eu só estou; e tudo que estou é a contrafação do lirismo, a vacuidade sideral de uma fortaleza agonizando.
Entre os vales ancestrais deitados nos seus ombros, corre um rio de magma que escorre acidentado, seu corpo abaixo, em uma torrente ciclônica, incontrolável, urgindo em tomar-lhe cada célula do organismo, cada gota da sua feminilidade absurda. Sua saliva e seu incenso são a mais absoluta cura para o mais absoluto mal; são fontes estupendas onde me banho na mais resignada ablução.
Sua anunciação é sincera e casta, e irrompe, com o fulgor e a legitimidade da aurora, em um interlúdio entre o outono e a primavera, entre sandice e santidade. Contra meus olhos, a topografia sinuosa, alpina, da sua carne, oculta, feito um eclipse impredicável, o silêncio poroso e gigantesco do que existe após seu corpo. É como se você fosse o porto derradeiro ao qual me ato, desesperado, em um ensaio de antifugacidade. Como se fosse o cais extremo que separa nossa sinestésica esfera de infinitude, do sórdido oceano ulterior.
Em mim, algo de sereno se edifica, como se eu fosse o lápis que ora intercala entre os seus dedos, ora deixa repousar num papel – feito branco leito –, guardado teleologicamente para sua libertação. Move-me a continência rara da sua permanência, o torpor profundo que sua presença queima na minha pele, feito contivesse no seu ser de segredo e quietude, algo de bestial com que suprimisse meus nervos e vendasse meus olhos.
A confluência de nossos dedos nos solidifica, de modo que nossa deterioração será calma e lenta, irmãos que somos, de além-alma e além-sangue. O pranto encolhido no seu cenho é a insígnia amarga do desalento abissal, e pelo fruto onipotente da sua felicidade, o conforto e o calor dos meus braços seriam a estrela fúlgida no vértice do horizonte. Prende meu rosto entre as mãos como se gravasse em mim o eterno reflexo seu, como se me apunhalasse com a abjeção da finitude e com desatino de tê-la. Descansa os seus dentes sobre os lábios com a inocuidade impubescente de uma deusa lacônica, imaculada e peremptória.
Investigo seus olhos: são a origem de tudo criado e destruído no mundo. Apenas dos seus olhos podem ter nascido a palavra e a guerra, a certeza e o engodo. Só eles podem ter gerado a loucura. Suas pupilas são a projeção do infinito, o berço da minha absolvição, de onde renasço, com o fervor e a comoção com a qual renasce um filho.
Acordo embrenhado em seu colo, perdido entre as veredas que conduzem à sua boca, o símbolo máximo da nossa unicidade. Seu odor me atravessa como um tiro, como se eu experimentasse a sensação última, o último perpassar dos seus dedos pelas minhas vértebras. Seu queixo é a gênese de toda necessidade. Do seu rosto nascem náufragos e tempestades. Reconheço sua face como uma gruta profunda, ardente, indecifrável. Encontro seu pescoço entre os retalhos guardados em algum ponto remoto do meu já distante corpo, e dedico-me a interpretar as nuances da sua existência.
Você é um estado de todas as coisas. Um entrave entre o sólido e o sublime. Seu rubor é uma avalanche catastrófica e sua entrega, a maior de todas as luzes. O seu amor é uma almádena imensa, que perfura o céu como a lâmina irrefreável de uma espada.
E nosso encontro leva ao ocaso, à madrugada e ao alvorecer.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Intrusão

Estávamos muito presos aos aspectos endeusantes da nossa filosofia e esquecemos o que aquele torpor ideológico nos trazia de desconcertante, de vulgar. A juventude, nossos corpos, eram algo de estupefaciente, me faziam rodar entre os braços inesgotáveis de homens inesgotáveis.
Eu descobria a vida como quem descobre petróleo no quintal, sem reparar que o quintal é do vizinho. Quando me apareceu, estava tão ocupada com a fruição e o deleite da minha cabeça que demorei para enxergar seu brilho que explodia pela casa.
Eu era uma ilusão sob panos de intelectual anticzarista, anti-hierárquica. Estava muito convencida da autodefinição do ser, da sua liberdade, pela conveniência carnal de viver de um prazer ilimitado e irregular. Meu raciocínio era forte. Suas conclusões, não.
Você me estapeou. Consegui notar seus dedos na minha face quando ressuscitei o espelho da minha consciência e me encarei, como quem não se vê há séculos e se enxerga morta, em um banquete estéril. No convexo de um garfo de prata.
E eu te odiei, como se odeia um criminoso dos mais hediondos. Senti vibrarem, em acordes funestos, todos os pedaços de mim que eu achava cadáveres: meu orgulho, meu medo. Pr tentar me corromper ao me guiar pela mão para um caminho vazio, cêntrico, subjuguei-o. Extraí sua força do meu peito, neguei seu prazer no meu corpo. E fui tão minha antítese ao fazê-lo, que já não me era mais.
Privei-me do prazer, pela primeira vez. Por asco, por culpa, mastiguei o pão, mas não permiti que seu calor incandescesse meu esôfago. Eu morria aos poucos, como morre uma estrela. Cercada do nada.
Morria, porque sob o meu exoesqueleto intumescia um novo corpo, que rompia a minha velha armadura de quereres tórridos e profundos. Rompia o olor doce das minhas noites, das minhas confusões de tripas e línguas.
Dilacerei aquela balaclava, com o afinco de quem está disposta a voar ao ilimitado, sem saber se minhas asas terão forças e se, das nuvens, minhas lágrimas não hão de tornar-se chuvas para os que ficaram em terra firme.
Eu lhe dei a mão, como se dá a mão a quem ama, e virei as costas, como quem se vira a um cachorro. Eu ouvi você chorar e estive estática. Eu ouvi seus pés diminuindo, e estive estática.
E quando foi embora, projetei-o sobre cada alma escusa e cada mente enclausurada que cruzou meu caminho. Edifiquei, sobre cada projeção monocromática nas paredes empoeiradas dos dias, um novo você. Em um desespero de tê-lo de volta, mas sendo você meu, não eu sua. Tendo você como uma relíquia no meu porão.
Subjuguei-o dentro de mim. Hoje é um parasita arrancado, um vírus erradicado, um mal extinto.
E eu não sou nada mais que sombras.

Corrida

Do tempo, que o teu corpo inexiste,
Da estrada, que a tua alma me obstrui,
Da mata, pr’onde a tua mão conduz,
Do cheiro etéreo que desmancha as nuvens

Da noite, quando afagas minha insônia
E da madrugada, quando selas meus pulmões
Feito uma mão incólume e poderosa,
Feito um naufrágio leve e planejado

Do tudo lembrará meu peito,
Quando soar ao pé do meu ouvido
O ruído dos teus passos escapando

Do riso, que carrega nosso pranto
Do abraço, que completa nosso riso,
Do mundo, que me tiras em tua fuga...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A coisa e a imagem

Ao castor


Com que força transforma a ausência na loucura
E o sozinho no amigo!
Basta que exista em mim
Para que eu seja esse túnel imenso,
Essa gruta aberta
Por onde entra, como se fosse a própria vida,
Onde perscruta, da altura maior da sua onisciência.
Basta que seus vestígios ainda descansem
Em qualquer gaveta do meu corpo
Seja uma folha do seu cabelo,
Seja um cântaro do seu tormento,
Seja um sinal do seu perfume,
Para que eu sinta a festa do seu peito
Insuflar minha alma
Como se enche um balão
De ar! Desse ar moreno
Que desenha as runas da sua própria,
Tênue,
Atmosfera.
Essa que a circula o corpo perenemente,
Como se a protegesse da servidão da cotidianidade
Basta que ame,
Do infinito da sua autoconsciência desalentadora,
Da sua liberdade rígida e firme,
Do seu compadecimento cênico,
E o universo se tornará incenso,
Como eu me tornarei um objeto
Ao serviço das suas mãos,
Todo seu...
Basta que ame,
Da sua sensibilidade bruta,
Com sua tenacidade tórrida,
Do seu confrangimento ígneo,
E enveredaremos pelas dobras do horizonte,
Pelos jardins desconcertantemente coloridos
Pela aquarela visceral
Do encontro das nossas pálpebras,
Pelo novelo das nossas veias unidas,
Soldadas. Pelo calor da sua carótida,
De onde sorvo muito mais que o sangue.
Do seu pescoço, arranco a náusea basilar,
O néctar fundamental...
A felicidade suprema
É ter o seu braço
Com que me apoiar na minha inalterável convalescença,
E oferecer-lhe, como um buquê, o tempo
E o que em tempo não cabe.
É insistir que sejamos Nós.
Na nossa mais noturna dimensão.
Da alvorada mais delicada e sensorial das nossas peles,
Ao mais profundo e recôndito diálogo.
Do desdobrar das palavras arqueadas expelidas pelas nossas bocas
Como que sagradas, como que cuspidas em uma prece inesgotável,
Como se só pudéssemos encontrar a nós mesmos por mais um segundo,
Dentro daqueles olhos sedentos de sol... dentro daquela lágrima despida...
Como se só restasse a gota de algo.
A felicidade sublime
É estar, contigo, frente a frente. Tête-à-tête.

Pois bastam dois espelhos que se encarem
Para refletir à eternidade.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rebus sic stantibus

Nosso silêncio os compraz,
Seu regozijo são nossos dentes a mastigar as finas lascas de madeira
Que arrancamos da árvore de nossas vidas
E engolimos feito carne, a nossa carne.
E quando mitigamos a palavra no estômago,
Carimbamos sobre nosso alvará de livre-arbitração
O certificado do autoencarceramento
Enquanto cedemo-lhes o espólio da nossa carcaça
Da qual, abutres, alimentam-se
Devidamente observadas as regras de etiqueta

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mão

Sorri-me sinuoso, enquanto canto-o em ruelas
Escorrendo por seus ouvidos toda a maciez da minha pele,
Entre as paredes úmidas do quarto.
Minha cintura é seu ritmo, e seu pomo-de-adão eleva-se e despenca,
Fora de qualquer padrão racional,
Como um tambor a evocar espíritos.

Meu cinismo lhe dói, mas nem o sente, perdido na vibração
Cega
Do meu costume.
Na sua ilusão de suor, condenso,
Na sua displicência carnal, desabo,
E me dissolvo por dentro dos seus poros, entregue.
Deslizo até apertar seu peito, e, nua, desenho-lhe miragens,
Supostas curas, supostos vícios.
Eu sou a virtude disfarçada de pérola.

Da minha altura sobrehumana, perdôo-o,
E me enche de carícias, e beija minhas mãos
E coroa meus dedos feito majestades.
Eu o encimo e nem nota,
Não vê que minhas unhas perfuram essa sua carne e liquefazem
Esses seus músculos,
Esses signos de um deus...

Estirado no vão entre as coisas
Reside seu corpo
Mas seu corpo já não é sua propriedade,
E já não é sua corte.
Pois já está perdido há eras entre as minhas coxas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Água-furtada

A linguagem é uma primavera minuciosa. Cada palavra pipoca, como um botão de flor em uma explosão de vida, e se despetala pelo vento. Sua essência atômica, indivisível, viaja léguas e atravessa a pele do mundo, e cada nariz que sente seu olor, o nota de forma diferente. Ora indigesto, ora perfumado; ora nauseante, ora sandálico.
A linguagem se multiplica, de símbolo em símbolo, de grafema em fonema, de anáfora em catáfora, de parágrafo a parágrafo. Atemporal, a língua nasce, irrepreensível, a língua cresce, e a língua nunca morre.
A linguagem se expande, como uma manta infinita, como um firmamento, e cobre tudo, e preenche tudo, e sustenta tudo. E sua miríade incontável de significações, e sua infinidade de acepções que não cabem no espaço ou no tempo, mas cabem no milésimo de um segundo.
A linguagem, lábaro do razoável, é o solo mais fértil do universo.
E, por mais colossal que possa ser a linguagem, e por mais laudatória que se consiga, não expressa, e nunca o fará, o que há de basicamente adverso entre o ti e o em volta. Por mais plácida a gramática, por mais entrincheirados os sinais da minha face, não existe signo correto, não existe idiossincrasia que baste, não há representação exata para distinguir perfume e incenso, receio e fobia, inércia e estática, romance e catarse.
Teus olhos, eu não chamaria olhos, pois olhos não voam sobre os edifícios, olhos não saltam pela minha sala, olhos não espreitam conversando. Olhos não têm o costume de deslizar pelas sinuosidades da minha mente e repousar, sussurrantes, sobre os meus ouvidos. Esses não são olhos. Teus olhos eu chamava motivos, cada um, e –agora em dupla – razão.
E tua boca não seria boca, pois bocas não engolem mundos, nem viram camas, tua boca seria oceano, e seria eterna; e teus dentes seriam peixes. Tua língua seria onda, ou maremoto, e eu seria um misto de pirata e náufrago, com o peito uma união de pilhagem e sal, de invasão e afogamento, em um amálgama, indissociáveis, meio mar aberto, meio enseada.
E eu chamava teu canto de alento, e eu respirava teu canto, e me alimentava do teu canto, e chamava teu canto, alma. Assim que dava para morar em ti, e teu corpo seria casa, e teus braços seriam cercas, e tua pele, tinta. E o teu ventre, água-furtada.
Assim que dava para morar em ti... mas os meus braços eu chamava espera, e a minha mente eu chamava medo. E o meu corpo eu chamava sombra. Assim que dava para morar em ti, mas permaneço estático, como acorrentado, enquanto as minhas entranhas são caos. Eu sou o édipo enfrentando a Esfinge. Eu sou o sísifo a mergulhar o Tartarus. Eu sou o homem a evitar o abismo.
Esse vão imenso, essa gruta infinda, essa eterna noite que nos separa! Não há uma palavra que aí não caiba! Não há uma ponte que tenha tamanho, não há deus que não seja tragado por esse vácuo vágado!
Não há termo que alcance a vastidão dessa distância. Que explique ao mundo esse interlúdio entre o mesmo e o outro, esse universo infinitesimal que a nós dois aparta; essa linha subliminar, subcognitiva, que faz do que deveria ser uno, duas ilhas diametrais em um universo.
Não há termo que expresse o interstício que faz da unicidade, da indissociabilidade dos contíguos, o desespero e a mortalha dos ausentes.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Byroniana

Teu passo urge
E tua marcha me dói
O futuro se dilui em uma miríade de luzes
Negras e vãs.
O que eu enxergo é o breu
E o que eu toco é o chão
O que me guia é a treva que acolhe a tua ausência
E estou a fugir da luz,
Nem deus sabe o porquê.
Teus olhos congelados são meu tormento
Enquanto a noite se estende, feito uma toalha de seda
Amarrotada em nuvens de tempestade
Minha alma se queima em raios crespos
E meu peito se desprende e resvala.
Sinto-me subumano,
Sinto-me aluzidio,
Como se implorasse pelo teu brilho, como uma última esmola
Como se salgasse todo o solo em que pisasse
Como salguei meu espírito.
Busco, mas não te encontro.
Foges, corres, flutuas!
Eu vagueio a deslizar de rastos
Tu és um astro a pairar no firmamento,
Eu sou um homem a tropeçar na terra,
Cujos braços vão jamais te alcançar!
Renuncio a vida a tentar tocar-te
E ao não tatear-te, padeço...
Pois tu só caminhas,
E me levas para longe de mim.

domingo, 11 de julho de 2010

Crônica dos desajustados

Noto-te distante. Como se caminhássemos em sentidos opostos, invariavelmente. Vejo teu corpo se mesclar ao ocaso, o sol às tuas costas. Vejo teus olhos desprenderem-se dos meus como um último adeus. Dizes “te amo” com aqueles olhos. Dizes “te amo” de longe, sumindo, pois não há vontade de fazê-lo aqui. Dizes “te amo”, já a espera de ser engolida pela linha do horizonte, como se estivéssemos prontos.

Para mim, a estrada é ínvia e o presente é um fardo. Para mim, teus pés cravados no chão são um suspiro, mas tuas asas batendo, um tufão. E o que é que eu quero, meu deus? Eu quero a brisa.

Choro, e cada lágrima envereda por um sulco talhado na minha pele e se acumula no fundo do meu peito. E há o desconhecido a flutuar no lago, e há tanto medo! A escuridão me assimila aos poucos e para mim há apenas uma luz da qual eu pareço estar fugindo, porque não consigo mais me aproximar.

Lá estão teus olhos, de novo, duas lamparinas. Têm fulgor próprio e eterno. E brilhando daí os enxergo, mesmo sem vê-los. Já foram faróis, hoje são alertas.

Assim vamos nós, para o outro lado. E meu corpo congela ao notar o perfume incógnito em qualquer objeto. É como ter um pedaço teu. E é como se esse pedaço se apoderasse de mim como um todo.

Estás desenhada aqui, não na minha retina, mas na profundeza mais abissal da minha mente. Estás em um fosso entre o nocivo e o benévolo, entre o vírus e o sândalo.

Às vezes te redescubro, e isso me assombra. Encontro nuances que nunca vi e lembro da tua voz de uma maneira diferente. Como se todas as palavras de insegurança significassem amor. E todas as de ódio, desejo.

Olho meu corpo, não há mais espaço para cicatrizes, não há mais um centímetro que não esteja tomado pela febre hercúlea tua. O medo, a cólera... o espectro sem nome se aloja no sangue borbulhando nas veias, no espaço infinitesimal entre as sinapses. Em um frêmito sou mais teu do que meu.

Cada frase tua reverbera por todas as esquinas da minha mente. Estudo-te, pesquiso-te, e não te entendo. E desmorono! Feito um castelo de cartas, desabo. Tão frágil! Qualquer passo é uma renúncia, e cada renúncia uma gota de veneno. Mato-me. Comigo, parte tua se vai. Com meu corpo padece teu léxico. Com minha mente, algoda tua. Por que não padece teu peito? Morto, ainda sinto teus sinais. E vejo teus olhos murmurarem o mesmo “te amo” de antes. E tudo está em crer ou não. Até quando?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma joaninha no espelho

Não fizeste nada e estou aqui,
Como a mariposa que circula a luz, mas sem poder tocá-la,
Como a mãe que vela um filho que partiu, por uma noite inteira,
E quem carrega nos ombros cansados o peso da saudade
Não fizeste nada e estou aqui,
Como se fosses a aranha, involuntária, a me atrair à teia,
Como se fosses Deus a me trair promessas e jurar mentiras,
Não fizeste nada, mas por nada a espada já contou mil corpos

Nada me fizeste e permaneço aqui!
Como quem persevera e pensa que a espera há de lograr vitórias,
Como quem perde guerras, mas ganha a derrota e nega a fadiga,
Como esses soldados que já mortos lutam em busca da vida
Não fizeste um terço do todo que há,
No entanto devo-te e a ti me devoto, terminantemente,
E se mais dois terços me houvesse dado, seria obrigado
A varar as noites da eternidade toda, em pagamento

Nada me fizeste, mas aqui eu fico,
E só por ti faço do meu pranto, riso, do meu riso, canto
Das minhas vísceras faço amargura, faço solidão
Do meu abraço faço um solo fértil, faço uma alvorada
Nada me fizeste, mas aqui repouso,
Como um corpo estático a planar no cosmo, sem exato tempo,
Como um pulsar entre as constelações, de vibrações eternas,
Como o infinito é um “até amanhã” até virar um “adeus”
...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Epílogo

Fascínio
Meus olhos marcados, teu canto
O espanto precede o delírio,
Domínio perdido em mim mesmo, só posse
Impasse.
Evita! Não dá, meus ouvidos
Levitam quando ouço as notas
Embota! Ensurdece! Descanta!
Encanta, tem sabor nos meus lábios
Textura, e dura, e dura...

E agora? Segura, não solta
Não posso, tem gente encarando
Não passa, não chora, ‘tá escuro para mim
Acende a luz, acende a luz!
Agora! Já não dá mais tempo
Esquece, me esquece, te esqueço
Duvido! (Duvido também)
Te amo. Te odeio, tomara.
Cresce e desaparece.
Cresço e reapareço.

Vamos? Para onde vamos?
O mundo está nos aguardando
É fundo, é pesado é difícil,
Um ofício esse tal de amor.
Escreve! Já não sei se escrevo...
Me atrevo? Anda logo, escreve
Padeço ou me retifico?
Dedico logo ou enlouqueço?
Esquece. Não, eu não esqueço!
Melhora. Eu já melhorei!
E agora? O tempo é reticência
...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O pássaro-púcaro

Da primeira vez que eu vi o pássaro-púcaro, ele decolou da superfície da mesa de cabeceira da minha avó e planou pelo céu do quarto com suas asinhas pequenas, me observando com aquela boca de beijar sapo. Confesso que me senti desolado, como se um frio cáustico tivesse entrado pela janela fechada e se estabelecido na beira da cama, sentado.
Tenho certeza que o pássaro-púcaro rodopiou três vezes no ar, como uma bailarina, mas sem deixar cair uma gota da água que minha avó havia ali depositado fazia apenas algumas horas. Sei, também, que a cada rodopio assustador do púcaro, eu me afogava mais sob o edredom, morto de medo.
Depois o pássaro deitou-se veemente sobre a cadeira de balanço, mas sem fazer barulho, e eu adormeci.
Lembro que acordei com a minha avó praguejando, dizendo que eu mudara o púcaro de lugar. Eu não sabia o que era um púcaro, até então. E até hoje não conseguiria muito bem diferenciá-lo de um jarro, não fossem meus recorrentes flagrantes de sua inusitada vida noturna.
A segunda vez que eu topei com o pássaro foi quando a vovó morreu, e ele acabou choramingando de madrugada, sem querer, após a soleira da porta. Ele sentia falta dela desde que ela adoecera, e de vez em quando eu ouvia o ruflar tristonho de asas de cerâmica durante a noite, mas nunca ousava me levantar. Em algumas manhãs eu o enchia de água até a metade e uma vez ou outra punha umas flores cheirosas.
Mas, ao púcaro, de nada valiam meus regalos, e no final da tarde só restavam pétalas pelo chão e uma poça característica no corredor, seguida por uma bronca da mãe. Eu costumava enxugar e limpar tudo sem reclamar, mas nunca havia ousado me levantar às 3 da manhã até a vovó morrer.
Acho que quando a gente encontra a morte, mesmo que não tenha uma conversa com ela, mesmo que nem a veja direito, a gente fica mais corajoso. Eu levantei, ainda que tremendo, e fui dar com o pássaro logo ali, e ele estava roncando baixinho um choro miserável.
Eu juro que só parei e olhei e ele resolveu bater asas perto do meu ombro. Também juro que tentei tocá-lo algumas vezes, mas minha mão tremia tanto...
Eu tenho um púcaro, eu falei para os meninos do colégio, mas eles riram da minha cara. Eles não sabiam o que era um púcaro, e eu resolvi não contá-los.
Mas o fato é que eu não tinha um púcaro, efetivamente, até porque depois de quase encostar com as minhas mãos nele, nossa relação se tornou fria e distante. Estava lá o púcaro, pícaro, todos os dias, mas eu não me preocupava em preenchê-lo mais. E ele, talvez por isso, havia deixado de virar pássaro enquanto a gente lá de casa dormia.
Eu fiquei triste, mas fingi que não. Eu adorava o púcaro, mas fingia que até gostava dele. Eu gostava mais ainda de quando ele girava cambalhota.
A terceira vez que eu vi o pássaro-púcaro foi já anteontem.
Acontece que o Fulgêncio tropeçou na mesa de cabeceira da vovó, e a mesa tropeçou no vaso que tropeçou em si mesmo e caiu, tropo, no chão.
Quando eu vi, o púcaro não tinha mais asa.
E é difícil colar cerâmica, mas naquele dia eu entendi que era importante tentar, então eu tentei, tentei e tentei, e no fim fiz um curativo bem fajuto e enchi de água até a metade.
A mãe disse que eu ia virar doutor, mas a mãe não entende muito dessas coisas de pássaro e de púcaro.
E foi de noite que eu vi o pássaro-púcaro pela terceira vez, então, nessa noite de anteontem. Ele apareceu de repente no meu quarto, uma asa batendo direito e a outra um pouco errada. E ele sorriu para mim com aquela boca de engolir mariposa, disso eu tenho certeza.
E aí o púcaro rodopiou, rodopiou, rodopiou, e não deixou cair um pingo d’água. E para mim, aquela água ali dentro, refletindo a luz do corredor que a mamãe sempre deixava acesa, era ouro. Ouro do mais dourado e mais real, e que, por mais que ninguém enxergasse valor, para mim era muito.
E aí eu lembrei da vovó.
E, pela primeira vez, eu acordei sem sequer ter dormido.

sábado, 19 de junho de 2010

Hipótese

Acho que não. Acho que o universo não conspira a nosso favor. E que não há destino. Que não ‘consta nos autos, nos signos, nos búzios’. Acho que todos os encontros, desencontros, reencontros e abandonos foram apenas coincidências coordenadas pela descoordenação. Acho que não somos exatamente iguais, nem diametralmente opostos, e que, talvez por isso, as leis de repulsão e atração não funcionem conosco. Acho, mas sem certeza ou precisão, que nossa dinâmica de marginalização e aproximação é ditada por nossas almas, essas sim conspiradoras, amotinadoras e mancomunadas. Acho que não tem nada de eu ser o que você não é. Acho que talvez nos sejamos com outras palavras, ou com certa complementaridade. Você, incógnita, eu, ‘agnosível’. Eu, excentricidade, você, revolução. Ou, talvez, simplesmente não nos sejamos. Acho que não fugimos de nós mesmos, e que, novamente, não há destino. Que, se estamos estáticos, culpa da inércia natural do ser, culpa da falta de força-motriz, culpa da minha inépcia, admito, e da minha imperícia, no que diz respeito a movimentos. Mas acho, e nesse ponto tenho quase certeza, que apesar de inertes, se nos movêssemos, um pouco que fosse, estaríamos imediatamente no caminho de um para o outro.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Send a

I aim to the end of the world
Where the horizon line touches the sky,
Where the ineffable mirror is waiting,
Glistening overwhelming lights.
Willing to stay on these roads
My legs, just like firebirds, fly
And they burn, as the sun, floating high,
As that sphere, buoying on clouds-sea
I’ll be guided by stars and by winds,
I’ll go ‘head with my wounds and my bruises
And there’s no wall or fortress to stop me,
And there’s no rain to put off my flame.
I’ll move forward! Step by step,
But relentlessly and indefatigably!
And I’ll tame the untamable horses,
And sail the unsailable oceans,
And bear the unbearable pain.
And when I, finally, shore on those docks,
Yonder this miserable path,
I’ll build, brick by brick, my own castle,
Constructed with each challenge I won,
Designed with each drawback I overcame.
And, with the last tile on its place,
I’ll die and be dragged to the sea,
But my soul shall, at last, be immortal

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Explicação

Eu vôo porque vôo,
E espero porque há tempo,
E porque não há meta.

Eu busco porque corro,
(e corro porque busco)
E assim me desencontro,
No silêncio em que me oculto,
Em uma sensação imensa de abandono

Eu ando porque pouso,
E em um passo tão minúsculo
Que quase não me movo,
E velejo, pois preciso,
Mas de nada serve a poita,
Pois eu passo,
Pois não fico.

Eu grito porque não calo!
Porque há um fluxo imenso de palavras
A roçar a minha língua
E eu calo porque não grito,
Porque não há lugar no meu peito,
Para mais que ferro e brita.

Eu ganho porque não tento,
E ganho sem ganhar nada
Estou porque não é momento,
E me ausento, porque não posso estar.

Eu sou, porque me dói, e é triste
E porque mais triste ainda é não ser

sábado, 29 de maio de 2010

Borda

É no escuro que se esconde o medo,
que se abriga a fera, que se oculta a fome.
É no escuro, todo o embaraço,
todo o meu segredo, todo o seu perfume;
que seus olhos vibram feito lantejoulas,
feito duas súplicas, e dois suplícios,
como uma chama que se vista nua,
que se pregue crua sobre a minha retina;
como uma espada que recorte a pele,
e lacere a carne, e umedeça o lábio;
como uma esfera feita de ouro e cheiro,
que repouse plácida sobre o meu colo,
como sua boca, cheia de desejo,
plena de veludo, cheia de paixão,
a sua boca, uma nave abstrata,
desconfigurada, em um ajuste longo;
a sua boca, um esquife sóbrio,
a pousar num rio, a mergulhar seu esteio,
a sua boca, a apaziguar seu leito
e a desaguar em delta, sobre os braços meus;
a sua carne, a sua boca nua, os seus lábios-muros,
os seus sulcos-letras, e as ranhuras doces,
feito hieróglifos
indecifráveis e indecifráveis

sábado, 22 de maio de 2010

Qsarhambra

Minha alma é um castelo vermelho, manchado de sangue,
Borrado de náusea,
Apartado do mundo, colado às pedras, sozinho.
Trancado em seu próprio inverno,
No caos das nevascas, na umidade das sombras,
No silêncio acipitrino dos chacais.
E as janelas cerradas por dentro,
Minha alma é um castelo vermelho.
E como não chora, transborda,
E como não enche, esboroa,
E a dor faz ranger suas portas,
E o gelo, encerrar seus portões.
E em cada aposento mofado,
Há uma sombra a cair, feito um demônio que espreita
E promove um tremor-calafrio.
Em suas muralhas, se perde quem tenta invadir seus limites,
Em suas muralhas, ecoam os gritos cortantes das cimitarras,
Em suas muralhas de adobe!
E as estradas vazias e descontínuas
Que somem perante os rochedos,
Onde não há viv’alma que ande
Onde não há humano que chegue!
Minha alma é um castelo vermelho,
De um rubor contumaz e sincero;
De uma torre oculta e distante,
Onde, morto e matando-me aos poucos,
Espero

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ran

Não basta o chão e o charco
E um eclipse formado redondo sobre nossos ossos
Como um anel em espírito sacro,
E os músculos estirando-se em um ritual
Lógico e geométrico
Tolamente calculado

Não chega o encanto e o sim
E o beijo não basta mais. Não basta o lábio
Não diz nada abaixo, não diz.
Se são palavras na garganta que não fazem mal
Se são palavras não beijos
Nem moscas

Não basta a vontade e a voz

E não basta a vontade a vós,
E a onda que suga nossos corpos, nossa pele
Nossa mente, verde, e a verdade
Os não maduros frutos em nós
Não vale o que não basta
Não basta o sol ou o mal

Não basta escrever e ler
Não basta ler. E as pedras que furam
Nossos passos, nossos pés, minhas costas
Não basta ser ou não ser
Se ser é um tombo ribanceira abaixo
Se é um calor, um frio, um feixe, um facho

Não basta saber ou sentir
E o meu lábio não obedece um padrão
Se arqueia e alonga brando
Esticado em um banho de saliva
Ímpar como exato
Como praxe, como farto

Não basta mais vida
Não se basta em si
Não basto eu em mim
E o seu interior me esfola, me preenche de estímulo,
Ao contrário, ao avesso, minha pele se lambe, se queima
O meu corpo se vê, se enrosca e se rasga

Não basta o chão e o charco,
Não existe o que baste, nem o que vai bastar
Só existimos dois. Só existimos nós.
E arcos, são setas, são arcos, trincados, rachados,
Borrados, arcos,
Toca-me leve, sensível, toca-me

Toca-me e faz em mim vida, como se fez luz
Como se faz de tanto, tanto
E de nada, nada
Como não se faz. Como se faz do vento o vento.
Só toca-me. E me fará pleno, enquanto sou pleno
E penso-me nada, de tão pleno.

Só toca-me e me fará todo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Interstício - Parte II: Reticência

Guardado
Meu peito se voltou para a invernada,
como quem guarda um vestido para a festa,
como quem sabe que essa festa nunca chega.
Anita Borkowski

Atlântida
É ser um deserto que assiste
a chuva cair, no horizonte;
e se manter em uma aridez eterna
de um solo que rasga e afunda,

É ser uma ilha distante e submersa,
parida no útero-oceano,
é ser uma doca decrépita
onde barcos jamais vão atracar
Anita Borkowski

Oneiroi (1) - Morpheus
Perfurou-me com os olhos,
aqueles olhos de afogar-se em âmbar,
aquele âmbar que nunca foi visto!
E poliu minhas entranhas,
feito uma lima a polir madeira,
feito um ourives, feito um alquimista
que continua me desbastando!
Feriu-me o colo,
feito um aborto, feito um filho ausente,
aquele filho que abandona a casa,
aquela casa que abandona a prole.
Serviu-me o nume,
como uma mãe que à cria serve a carne,
o sangue e a carne, a flor e o perfume,
aquela dor e aquela recompensa.
Desencontrou-me,
e me arrancou o suspiro inventado,
me vendeu sorrisos,
me doou alento.
E em um sopro quente se desfez em nuvens,
feito as próprias brumas onde o imaginei.
Anita Borkowski




sábado, 8 de maio de 2010

Interstício - Parte I: Preâmbulo

C

Sós, são os corais, que em anéis
Colorem e constroem os atóis,
E, em círculos moldam-se, de pé,
Tão unidos e distantes...
Feito amantes que se abraçam
Mas jamais se tocam.

Anita Borkowski

Menor
Sou mínima. Sempre o serei.
Ainda que me multiplicasse, mínima seria,
Ainda que aumentasse, diminuiria,
Pois o meu fado é ser mínima e só.
Sou mínima, sou pó no espaço,
Mais um pedaço de cosmos partido,
Uma esquírola fragmentada;
Quase nem sou matéria.
Sou mínima, como um repouso,
Sou um segundo em milhões de anos,
Sou um segredo para meus ouvidos.
Sou mínima, nem eu me sei,
Pari-me mínima, embrionária,
E sei que mínima padecerei.
Anita Borkowski

7º dia

Fiz ruirem as ruas por onde passei
e das cegantes estrelas que iluminavam o céu, fiz o breu.
e da nossa caótica unidade fiz o meu e o seu.
Fiz cortarem o vento as palavras
e os muros pararem nas estradas
e o amparo dos ombros morreu;
fiz tornarem ao útero as flores
desenhei uns jardins desbotados
com as mal amadas cores de outono
fiz romper em aurora a meia-noite
fiz descerem dos céus os agouros
e amantes fiz serem castrados
que o seu silêncio não baste do estrago
que o estrago não bata nos dentes
fiz brotarem do chão poucos pássaros
e comerem a carne dormente
fiz do escárnio nos lábios do tempo
o terror sepultado em meu rosto
e na areia eu plantei o desgosto
fiz crescer em um solo tão árido
um quintal molestado de agruras
fiz rir e assobiar como o vento
e levar sua língua serpente
e os seus olhos dormirem pra sempre
fiz do ar que antes respirávamos
uma pedra no corpo da gente

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ventanas abiertas

Por las calles torcidas, por donde me llevan los pies
Y donde los pies pasan presionados ante la acera,
Cuando la arena rocía mis tobillos,
Acuerdo de ti
Como cuando las serpentinas tremblan y iluminan mis ojos,
Como los ojos, como agua de mayo, reflejan tus ojos,
Y como los anteojos, chispeantes, me esconden,
Y lo hacien a llorar

Acuerdo de ti,
En el entierro, o en la sonrisa
Desde la muerte, por la eternidad, hasta la muerte

Habré acuerdado de ti, siempre

Cuando las hojas de las árboles caducaren, en el otoño,
O cuando los vientos susurraren en mis orejas, en la primavera,
O cuando las abejas se multiplicaren, en el verano,
O cuando la nieve, blanca y blanca, en el invierno,
Cubrirme, como una manta y sofocarme
(fingindo calentarme)
Acuerdaré de ti, de rodillas, rezando para los cielos,
Y tus lamentos soplando con la brisa

Acuerdaré de ti, sin dudas
Pero tu memoria se borrará
Y se empañará,
Despacio.
Y más,
Oiré tu lloro,
Oiré tu clamor,
Oiré tu soledad,
Dondequiera que yo esté,
Pero ya habré cruzado tantos arroyos
De lágrimas y sangre
Y tantas montañas,
De oro fundido,
Que no volveré.

Sé que tu dolor duele en mi también
Y tu vacuidad mi torna vacio
Pero no volveré, y, así, no viverás
Y no viverás, y, así, no viveré...

Naciste sola, y sola morirás
Nací lejos, moriré lejano.

sábado, 1 de maio de 2010

Soneto à Lusitânia

Minh'alma, em um esquife tripulada,
percorre o denso Tejo e, Trás-os-montes,
deságua em uma torrente atormentada,
ali, no limiar do horizonte.

De longe, delineam-se os Açores,
e - mais imaginada - a Madeira,
e o sol, feito deitado 'n'uma esteira,
mergulha a manhã em um chá de cores.

Minh'alma entoa um fado, encantada,
de Breyner e Pessoa, entorpecida,
de Espanca, a chupar toda a tristeza

Minh'alma e a tua, em vinho mergulhadas
irmãs trincadas, mãos compreensivas,
simétricas! Qual pedras portuguesas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Das certezas poucas

Seguramente, volverá a alvorada
Se não logo amanhã, em um outro dia,
E o céu se avivará de rubra tinta
Borrada pela brisa matutina.
As nuvens baterão em retirada,
E estrelas em um desabrochar sincero
- de flores a piscar na primavera -
Pontilharão em prata o vermelho
Feito esquírolas ardendo em brasas
Ou pirilampos queimando-te a face
Sentando-te, ditosos, nas bochechas

Seguramente, um barco bem minúsculo
A transportar segredos entre as margens,
Há-de cruzar o sol ante o crepúsculo,
E as aves a planar em um desatino,
Acalentando as penas empapadas,
Nesse momento assobiarão alto,
Canções que suas mamães lhes sussurraram,
E, então, mergulharão juntas no mar,
Como a se preparar para a invernada

Seguramente, um uivo pernoitado,
De lobos e predadores insones,
Anunciará o fim da madrugada,
E o florescer sutil das calmarias,
E o renascer das plantações de almas.

Seguramente, isso, e mais nada.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A companhia da osga

A lagartixa é a testemunha ferina dos meus atos cotidianos, e eu não tenho coragem que baste para matá-la. O fato é que ela, já há anos, me acompanha e me observa, pensando-se oculta, por trás do quadro, réplica de Monet, que se abriga em uma das paredes da minha sala.
Outro dia, tive uma certeza breve de tê-la visto piscar para mim, marota, enquanto jantava uma de minhas meninas. Não gosto dela, para falar a verdade. Mas aturo-a, como se não a pudesse notar.
Ela representa, lisa e fria, meu abandono - não um abandono de outrem em relação a minha pessoa, mas uma espécie de auto-insulamento. Lisa, fria e escorregadia, ela representa o meu mundo, e talvez, junto com a réplica de Monet onde reside, seja o que há de mais valioso para mim.
Posso ouvi-la de noite, do silêncio profundo somado ao breu, vasculhar com suas minúsculas patinhas dotadas de minúsculas nervuras o teto, em busca de alimento. E assim, observadora e quieta, a lagartixa me representa, caçando.
Vez ou outra sinto como se ela me pudesse delatar. Como se ela fosse a única testemunha viva dos meus crimes.
A osga e seus olhos me acusam e me julgam o tempo todo, e, mesmo autocomiserado, eu os mantenho vivos e alertas, ainda que perigosos sejam. Com freqüência ela vem até a cozinha me ver preparar o jantar. Não sei bem o que comem as lagartixas, mas acredito que essa goste do mesmo que eu.
Ao pensar nisso me sinto mais livre, menos culpado, e, por conseguinte, mais próximo da osga. Por certos instantes a osga é minha amiga. E durante os dias de reclusão, uma boa companheira.
Já li algumas histórias para a osga, confesso aqui, mas não é recorrente. Já a nomeei, também, Elizabete. Mas nosso relacionamento é por demais conturbado, e pouco tempo depois volto a chamá-la Osga.
Admito também uma certa instabilidade psicológica, mas a lagartixa tem culpa parcial nisso. Seu julgamento por demais passional me enoja, como sua língua afiada.
E nós sempre discutimos por causa da sua intolerância. Mas as frases silenciosas da Osga ferem, e seu farfalhar doentio também. De vez em quando eu resigno da discussão e vou dormir.
De vez em quando, não.
Eu já chorei por causa da osga, mais de uma vez.
E nesses momentos não me resta mais que me tornar a própria osga.
E sair, e caçar: quieto e observador.

E é nesses dias que eu mato.

Autopsicofobia

Sofro a maldição de litorais escarpados onde as praias são inúteis
Onde a água bate forte contra as pedras e espalha sua bruma pelo vento
Onde o sol não chega nunca e nem há folhas espalhadas entre as rochas
Onde não há borboletas

Sofro do mal de quem não cabe em si
E nunca coube em si, não propriamente pelo orgulho
Mas sim porque metricamente não houve espaço
Para comportar tudo de bom e, principalmente, de ruim.

Padeço da doença dos de bom coração e mau aspecto
Como suponho que sejam as lhamas, os rinocerontes
E todo tipo de mamíferos que fazem mal às vezes,
Com exceção dos morcegos, dos quais desconfio.

Sofro da dor de todo homem de palanque
E de todo homem de escritório
O que me faz a soma dos males humanos
Potencializados por ser poeta

Fere-me a falta de perspectiva de quem pensa saber fazer toda e qualquer coisa
E absolutamente nada.
De quem chora a seco, ri sem vontade, mente falando a verdade
E reza e não sabe pra quem

Sofro da enfermidade de quem quer dizer tudo e não fala nada
Ou de quem inventa personagens
Para escrever em poemas sobre si mesmo
Sendo que não sabe sequer quem é.

Sofro do mal da irritação, do mal do amor excessivo e nulo
Da felicidade contínua, da tristeza repentina,
Da contigüidade distante, da ausência presente
Da eternidade estanque.
Sofro do mal de mim. Seja eu quem for.

domingo, 18 de abril de 2010

Interlúdio

Entre o milésimo de segundo e o ponto de vista, repousava o engano,
E entre a verdade e a inconsistência, o engodo,
E nos braços da constância descansava o lodo
E a mentira dos pernoites e das fontes falsas.
Feito a linha que escorrega e se encontra curva,
Feito a história que se abaúla e vira uma parábola
Ou a verdade que se perde e torna-se falácia,
Ou a fala embotada, que se encerra muda.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Júlia

És o despertar de um sono que reúne a boca ao beijo
O suor que escorre e decorre
Da nuca, nas costas, na face, no peito
E o som que sai da minha boca
Que toca como corda
E cai como pedra
Dentro de você

És o desfrutar do fruto proibido ao desejo
E ao toque dos lábios, ao toque dos dedos
Na harpa sem mácula, dos olhos sem mácula
Que tragam meus músculos
E roem minha pele
E me lançam no abismo
Sem roupa, sem tudo

És um rio caudaloso que se entorna
Por sobre meu colo
Vem lento e turvo
E deságua sem medo, calmo
E tormentoso
Pudica e indecorosa

És bem um busto ou própria deusa
Os seios cobertos,
Mas a espádua nua
Os olhos fixos
E tão expressivos
E ilustres e lustrosos.

És de curvas que incitam
E beleza que insinua
Senhora de um corpo que não é seu
E de uma alma que não é sua
Senhora de um coração que não é seu

És tu, tão segura e insipiente
Tão desatenta e observadora
Que em um olhar simplesmente
Fez-me quedar no tempo de repente
Para me matar
De uma morte desalentadora,
Júlia

Ínsula

De mim, disto, hoje, mais de duas milhas
Do tanto que para longe naveguei,
E por muito tentar, não me encontrei,
Nos recifes, na solidão das ilhas....

E entreguei meu barco contra o cais
Despi-me do equilibrar das quilhas
E mergulhei em próprias armadilhas,
Deixei-me enganar em amar demais

Perdido o lastro, levou-me a corrente,
Feito o luar, oblíquo, insipiente,
Que ao chegar-se, a maré, carrega

Eu, que já mergulhei o azul profundo!
Já fui vulcão a incendiar o mundo,
Hoje sou só um amontoar de pedras

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pas de deux

- uma intermitência, e o meio de nada. Somente três sorrisos misteriosos roçando contra a minha pele um aroma amadeirado, muito sutil, muito agudo. E os lábios crespos me arranhando a derme e me beijando levemente de todos os jeitos. Um raio azul da luz mais cheia e plena, como que sacra, como que não-humana, celestial, perfaz os sorrisos, reflete nos dentes, refrata nas línguas. E uma gargalhada esticada e calma. Um arrepio que levanta os pêlos e os inunda do ar que respiram. E três rostos amorfos. E um chapéu de tecido listrado. E duas coxas douradas, unidas, grudadas. E o desejo em forma de carne. E um sopro dos ventos alísios trazendo a tempestade – a água e o suor. E um risco no céu, feito um arco-íris. E a esperança encarnada, em forma de frase, e a sintática desmaterializada. E uma sinfonia ressoa apenas em um ouvido, e as coxas se apartam. E os dedos sensíveis tocando o rosto, tocando a boca, como frutas silvestres. E algum sentimento recôndito e tolo floresce por todo meu corpo. E todos os ossos, e músculos se unem em orquestra, quem rege é o escuro. E todos os neurônios bailam sincronizados, simetricamente, quadrados perfeitos. E quatro pupilas serenas e monocromáticas encaram-se, em pares. Sinapse, os dedos se entrelaçando; repouso, tensão entre as mãos; sinapse, as pernas tocando-se, breves; repouso, um frio invernal, antártico; sinapse, as bocas quase se tocando; repouso, os cílios quase contíguos; sinapse... repouso... sinapse... repouso... a dança dos impulsos nervosos, contraem-se, distendem-se, congelam. E cores cobrindo-me as pálpebras, deliciam-me os tons e as luzes. Delicia-me o pensar em pensar tua boca, e o nosso ballet para dois. A nossa harmonia precisa, as nossas sinapses simultâneas, seus saltos, seus giros, seus beijos. E o nosso infantil pas de deux; e a primaveril paz de deus.
- fim de uma intermitência

Banho

Mergulhou trêmula em um banho gélido. E notava as sensações dos últimos dias, tão acalentadas pela imagem ainda gravada dele, se desprenderem da sua pele, como a sujeira invisível e insolúvel que não se misturava na água, se armazenava no chão.
Fechou os olhos e trocou as lajotas azuladas do banheiro pelo escuro infinito de seu sonho acordado, que foi clareando de um breu espesso a uma série de luzinhas amareladas. As pequenas estrelas imaginárias dançaram aparentemente com alegria, debochando do estado nauseabundo dela. Como quem dança de dor.
Seu corpo estremecia, remexia, contraia, contorcia. Seus lábios ressecavam apesar da água fria que lhe caia por sobre a cabeça. Cada gota pontilhava-lhe o corpo; as costas, a nuca, a cara, os seios; queimando-a, como cigarros cruéis e sulfurosos e inapagáveis. Os pêlos eriçavam e relaxavam seguidamente, em movimentos contínuos, como um balé perfeitamente ensaiado, onde nenhum dos bailarinos atrasava um milésimo de segundo.
A gengiva saboreou um sangue inexistente, mas inevitável. Ela cuspiu, mas sua boca ressequida não eliminou nada além de saliva. Seus olhos disfarçaram o choro por baixo da cortina fina e corrente da água.
O gosto férreo do sangue coagulado tomou de novo suas entranhas. O vômito pousou aos lábios, contaminou a língua, eliminou os últimos resquícios do beijo, das palavras ditas. Ela não permitiu a golfada. Voltou a engolir todo o mal, toda a raiva, todas as palavras, todos os beijos.
As lágrimas desciam profusamente, agora. O telefone bateu na sala. Como um operário martelando ferro. O som tilintava e ecoava, e vinha em ondas na direção dos seus tímpanos, lacerados pelas frases ouvidas.
A crueldade não era dele, era dela. A interpretação era dela. Autocomiserada, ressentiu-se; uma pontada no peito cortou a respiração e o pulso por quase um segundo, como se os cigarros tivessem-lhe entrado pela boca e ferido o coração.
A silhueta masculina se postou frente à porta – não realmente, mas dentro da sua pupila – os ombros largos, o corpo angulado, o rosto frouxo de uma sensibilidade admirável. Ela desviou os olhos, a vista fugiu. Mas a imagem prosseguiu, esculpida em sua retina. Pensativa.
Os lábios pareciam fragmentar-se: mais uma parte dele que se ia.
A chuva lá fora, o banho lá dentro, o choro lá fora, o regozijo esquecido.
A cama desfeita pranteava também, os lençóis sobre o chão, manchados de fraqueza e doença, dela própria, sozinha, eterna. O travesseiro parecia ainda resfolegar, arquejava, recuperava-se do choque da cisão.
O banho não desvirtuara ainda o olor áspero, másculo, amargo que ele havia irradiado sobre a sua pele. Que havia se grudado a sua derme como uma tatuagem horrenda, desconfortável. Aquele cheiro de quente ainda inflava o seu pulmão, aquele cheiro de corpos unidos, de prazer ingênuo, sensível.
A água esquentou subitamente e mergulhou seu corpo em uma sensação de acalanto, sono, que por um instante a redimiu das assombrações pastosas do recente e inacabado passado. As gotas brilhantes que jorravam do chuveiro abençoavam sua anatomia como água benta, escorriam pelas curvas, pela cintura, contornavam as extremidades.
Mas não era o suficiente para arrancar-lhe os medos, os anseios, os discursos entalados. Seus motivos, seus argumentos.
Ajoelhou-se, sobre o chão ainda gélido, com o calor entorpecente derramando-se sobre seu corpo que ainda levava o cheiro floral de canteiros desabrochados em primaveras, misturado ao odor cardíaco e amargo característico da proximidade dos seres. Era, ali, um elo entre o calor e o frio.
Sentiu-se morta por um instante, os olhos fechados imersos em uma escuridão grosseira, as coxas doloridas pela posição, mas não ousava mover-se. Purificava-se, vagarosa. O banho não era o suficiente para esquecer os males, olvidar o tempo, os vestígios do dia, dos dias, das semanas. A corrente não era o suficiente para dissipar a crosta sólida de raiva e dor que se acumulava por sobre seu corpo. Ou para arrancar a sombra oblíqua que se fechava como uma mortalha por cima daquela criatura, encolhida, trêmula, quase sem vida.
Ali restou, perdendo toda a noção de tempo e estado. Os olhos continuavam fechados. Contra a pálpebra, a imagem dele continuava projetada, escura e sombria, como ele sempre fora. Conseguia ouvir ecos da voz dele, que saiam de seus ouvidos, ricocheteavam nas paredes e na neblina úmida que se dissociava do chuveiro, e, finalmente, aglutinava-se à água, que seguia o seu caminho: caindo e correndo. E o seu passado se soltava do seu corpo, do céu da sua boca, da sua narina, das suas lágrimas, das suas costas, dos seus pensamentos infantis duramente amadurecidos. E descia pelo ralo, levado pela força da água.