terça-feira, 6 de junho de 2017

fading star

soothe my longing, ease my pain
wrap your heart around my spine
drop some tears, indulge my crime
grip what's left with your bare hands

put to sleep, the star shall smolder
steady and ever cease to glow
and who would care to take a bow
to a pale rock, a feeble boulder?

there is no guilt in inviting in
another light, some other rhymes,
bring some flesh back to the skin

soothe my longing, easy my pain
fill my lungs just one more time
will we ever feel again?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Acampado

A casa que eu escondo é um nó na madeira, um muro imenso
Um quintal de escombros antigos, perversos, um oceano que aparta
Eu não sou o menino na nau que embarca, ou a mãe que acena. Sou a carta
Que num dia querido aporta em anúncio de morte em alto-mar

O quarto que eu tranco encardido é o dia que eu vi o espelho
É onde encarcero a imagem mordida que o engano tritura
Os olhos vazados, instintos morcegos, meu peito enterrado na sala escura
Não sei se sou eu quem enxerga meu eco, ou é ele quem vê

As ruas que eu piso derretem na sua ampulheta em areia
São pobres relatos do tempo que atrasa, da dor que empurra
Eu finco um desmaio fugindo da seca na sua garganta, do vau das suas asas

Estéril definho, matando com afinco o que o intento semeia
A terra nas unhas, na cova meu corpo emprestado sussurra
E mesmo distante e até morto e enterrado, se eu sonho estar longe estou perto de casa



sábado, 4 de abril de 2015

Alabastro

A mãe de toda a sombra é o pavor
Espesso e indigesto de saber-se
Avesso como o primo de um incesto
Culpado irmão exato de um confesso

A esponja que me chupa liquefeito
Sedento e mareado no convés
Da esquife em que navegam os meus pés
Tortura, em sua espícula, o meu peito

O alabastro que eu decorara
No mesmo instante havia entornado
Na sua boca o rastro que eu deixei para trás

Na corredeira que meu pranto cala
O amor cantado, verdadeiro e errado

Se entrega às pedras que o horizonte faz 

domingo, 11 de maio de 2014

Kernel

o que havia antes,
fora o ruído sólido e a companhia inerte
e eu que não sabia se eu era;
havia toda angústia e espera

o que eu tive enquanto,
durante a alvorada,
os braços que esquentaram,
os traços que me acalmam,
eu tive todo o tempo do mundo.

o que virá depois
não é a madrugada,
não é mero silêncio
não é a solidão. nem isso é...

domingo, 27 de abril de 2014

Dobramentos modernos

O espaço deformado estepe a frente
relembra em quanta força nós pisamos
e em quanta solidão nos escondemos
em pedra, neve, água e céu somente

o chão que lentamente perscrutamos
irmãos que nos fizemos, rio abaixo,
o quanto nós erramos, nos perdemos,
e o quanto eu erraria novamente...

a jade derretida das geleiras,
espelha nossos olhos invernais
mirando ainda o mesmo céu de antes

no lago, nossa imagem derradeira
sublima e some à luz que se esvai
e o sol procura a lua atrás dos Andes

quinta-feira, 6 de março de 2014

Rei Afogado

Esse silêncio é o sossego de ter sido,
Interrompendo, solitário, o Atafona do discurso,
Em avanço mudo, intermitente,
Afogando gota a gota nossa cidade de memória.
E essa intermitência é nossa história,
E, igualmente,  a ruptura é o percurso
Onde os pés dão um traçado idiossincrático
Para ordernar pontos isolados
Da superfície onde nos encontramos.
É nesse chão que estamos marcados
Tanto os passos quanto os joelhos
Quanto as lágrimas que entornamos.
É desse barro que fomos moldados
 Como um corpo coeso, indiscerníveis,
Por isso essa batalha para a fuga,
A angústia e o temor de ter partido.
Se te desprendes, arrastas contigo
Toda essa mágoa que carregas
Todo esse amor, que tu me negas

Todo esse sossego de ter sido

sábado, 28 de dezembro de 2013

Camera Picta

Neste quarto, pintaram dois amigos na parede
Para me fazerem companhia
E vazaram o teto, de tinta azul, para me fazer ver o céu sempre assim,
Céu de verão,
Sem o calor do sol a me importunar.
Espremeram aqui e ali algumas nuvens, e me esboçaram anjos,
Que posso ver à distância sem a certeza de existirem.
Sua luz é opaca e distante, e não consigo dizer se estão neste mundo ou em outros
E se esses borrões com asas que vejo são só memória de tempo passado.
Se esses anjos desfaleceram enquanto evanesciam, rodopiando,
Vindo buscar-me por este teto, e tirar-me pela janela.
Sim, também me desenharam uma janela, e através dela senhores e senhoras
Num bonito jardim a me cumprimentar
Este é o meu afresco favorito!
Nos seus trajes diversos, muitos me olham sorridentes
Outros apenas estão parados em suas tarefas cotidianas,
Uma enfermeira alimenta um velhinho todas as horas de todos os dias,
Um jardineiro poda a cerca-viva, e o senhor, em pessoa, está sorridente a abanar suas mãos
Como em um instantâneo muito vivo.
Se fecho os olhos e os abro novamente, o trompe d’oeil é tão bem executado que quase me convenço que se moveram lentamente
A colher da enfermeira está mais próxima à boca do idoso,
A tesoura do jardineiro fechou-se um pouco mais,
A mão do senhor caminhou para a direita.
Sobre a lareira pedi que não concluíssem a ceia familiar.
Está só a sinopia,  um rubro esboço da cena
Estão todos sentados a minha espera, em volta da imensa mesa
E um banquete se espraia na tábua de madeira.
Tive medo de que se concluíssem o afresco eu talvez um dia me juntasse aos meus primos e irmãos dentro da parede.
Assim, em um desenho simples, a cena contrasta com a minha muito real janela, e o meu muito real contato com o céu

Eu gosto. É como ter um quadro na parede de casa.